Breve adendo ao dicionário de situações chatas que a gente vive por tabela

todd bojack

sempre acontece de madrugada. você tá ali no intervalo de um filme triste da sandra bullock, na pausa de um momento triste do desenho bojack horseman, no final de uma partida triste do pes 2015 (como são ruins os gráficos do pes 2015, meu deus do céu). tira o celular do bolso casualmente enquanto pega uma água, dá aquela conferida no instagram, passada de olhos no facebook, desiste do whatsapp porque no grupo da pelada ressuscitaram o vídeo em que um peixe pratica sexo oral num cara e você não tá vivendo um momento emocional que te permita assistir essas imagens outra vez. chega no twitter, puxa a barrinha pra baixo, e lá está, aquela cena que é tão clássica pra virada de sexta pra sábado na internet quanto a origem do batman é pra uma hq da dc, quanto o “ganhar da argentina é sempre mais gostoso” está pras eliminatórias sulamericanas: a gatinha pagando de carente na rede social.

é um cenário tão complexo quanto casualmente elaborado. existe a selfie na cama, existe o tuite autodepreciativo, existem as menções veladas a uma solidão que é charmosamente carente mas não assustadoramente desesperada, existe aquela indicação, mais ou menos sutil, de que ela estaria disposta, nesse momento de solidão, a baixar os padrões que ela sempre manteve – sejam eles estéticos/morais/emocionais – em busca de uma companhia que pudesse oferecer mais do que bytes vazios, que favs sem sentido, que um rt que assemelha timelines mas não aproxima corações.

e você, que assim como o ex-meia roger flores passou toda a sua trajetória esportiva buscando motivos pra não entrar em campo mas hoje, aposentado, adora opinar sobre a atuação dos outros, já estica as pernas, senta no sofá, pega um amendoim, porque sabe qual é a próxima etapa óbvia desse processo: alguém vai morder a isca.

e alguém morde, claro. aquele rapaz solteiro que, talvez ainda na casa da mãe, está acordado de madrugada, também jogando um videogame, também vendo um seriadinho, também acompanhando aquela sétima arte. ele vê aqueles tuites e no olho dele retorna o brilho, na face dele esboça o sorriso, nos ouvidos toca uma canção bonita que é a trilha sonora de um filme chamado “esperança”. ele, que observava aquela gatinha de longe como quem ouve uma sinfonia de silêncios e de luz e de foto de biquíni no instagram, sente que talvez seja aquele o momento. sim, a conjunção astral prometida entre o dia mais espirituoso dele e o dia mais solitário dela, aquele choque de mundos estilo feitiço de áquila em que finalmente o rostinho bonito dela e a proficiência dele em guitar hero vão se encontrar, aquela fração de segundo mágica em que o time da ilhas faroe joga de igual pra igual com o barcelona na champions league e o globo esporte coloca na manchete “esse dia foi faroe” na manhã seguinte.

ele vai. ele respira. tu consegue imaginar o cara esfregando as mãos, o cara se olhando no espelho, o cara talvez até mesmo lavando o rosto antes de começar a digitar e tal qual munn-rá fazia com os espírito dos mal, reunindo cada traço de malícia e malandragem pra dar na gata aquele reply fatal, aquela interação que é menos um contato entre arrobas e mais uma imprensada na parede by proxy viabilizada pela fibra ótica. e ele manda AQUELA. sim, aquela frase que você sabe que é a soma de todos os kamehamehas emocionais, de toda a barra de life da atração física dele, o fatality que consumiu toda a autoestima que ele vinha juntando desde aquele lamentável carnaval de 2013 em que uma garota puxou ele pelo braço no bloquinho, ele achou que era pra beijar, era pra tomar conta da bolsa dela, ela demorou pra caramba pra voltar, ele ficou lá parado com a bolsa, precisou ir ao banheiro, ela não voltava.

e a gata? a gata responde “kkkkkk”.

sim, a gatinha que tava carente. a gatinha que tava desesperada. a gatinha que disse, literalmente, que naquela noite estava aceitando qualquer coisa pra não ficar sozinha. ela disse “kkkkkk”. respondeu longamente tuites de amigas, interagiu com uma arroba de banco pedindo companhia, tuitou pro netflix. mas pra ele respondeu “kkkkkk”. mas ele não vai desistir agora, claro. tal qual o cavaleiro negro do filme monty python e o cálice sagrado, ele, mesmo já com os braços e pernas da autoestima cortados, segue tentando balançar a espada. outro reply. puxando assunto. qualquer assunto. deixando apenas a porta aberta. se colocando a disposição. oferecendo ali um coração já fragilizado em holocausto enquanto a tela do jogo, em pause, começa a escurecer, um recurso automático visando economizar energia que já existe nos eletrodomésticos mais modernos. e ela. dá. um. fav.

um fav. o pior de dois mundos. não uma resposta, mas um aviso de leitura, que mostra que ela não vai responder mas nem mesmo oferece a porta da ilusão de que ela não tenha lido. ela leu. é, ela leu sim. mas ela não achou que valia a pena responder. ela deu um fav.

você ouve um som de creck, que pode ser tanto um amendoim em que você pisou quanto um coração, centenas de quilômetros ao longe, se partindo. no twitter um quase-conhecido retuita fotos de pênis, uma garota bêbada tuita versos inteiros de uma música triste, um amigo posta um link sobre a lamentável campanha do chelsea no inglesão. o mundo é um lugar um pouco mais frio e solitário. aquele cara não vai mais tuitar essa noite. a garota decidiu fazer um periscope. os gráficos do pes 2015 continuam péssimos. como são ruins esses gráficos, meu deus do céu.

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7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, homens trabalhando, Internet, referências, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, Televisão

7 Respostas para “Breve adendo ao dicionário de situações chatas que a gente vive por tabela

  1. Laís

    permaneço no otimismo que o moço em questão voltou a respirar fundo, bradou TIS BUT A SCRATCH! e retornará, no futuro, para voltar a se aventurar pelas arapucas da carência. força, moço. tem luz no fim do túnel. tem esperança além do filme. existem razões pra acreditar que vão além da coca-cola.
    menos pros gráficos do pes 2015. esses daí tenho que concordar que são uma bosta, mesmo

  2. thepocilga

    “um rt que assemelha timelines mas não aproxima corações”

    hahahaha man, seus textos são os melhores de todos os tempos. Parabéns!

  3. flávio

    cara, que habilidade para escrever pqp ahuauhauah analogias boas demais, tem que pensar bastante ou isso tudo sai ao natural?

  4. André

    Velho, eu realmente choro de rir lendo seus textos, parabéns, cara!

  5. Fernando

    Sei bem como é.
    Passei por coisa parecida.

  6. Hahaha
    Man, vamo tomar uma cerveja! Rs

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