Mini-conto #22 – “Quatro momentos em que Adolfo queria dizer alguma coisa para Patrícia e acabou não dizendo, porque vocês sabem como são essas coisas″

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era novembro, era o segundo encontro, era ela rindo com o copo de cerveja na frente do rosto. ela era linda, o sorriso era lindo, a cerveja parecia mais gostosa, o bar parecia melhor, as buzinas do trânsito pareciam tocar uma canção, a vida era tão parecida com uma produção da disney que ele estava surpreso de nem ele e nem ela terem como amigo um animal falante. ela ajeitou o cabelo, olhou pra ele, perguntou se estava tudo bem. ele queria dizer que estava tudo ótimo. ele queria dizer que tudo estava muito ótimo. ele queria dizer que na verdade ele nem tinha ideia do quão não-ótimas as coisas estavam antes porque ela tinha criado pra ele um novo referencial de ótimo, e agora ele teria que recalcular tudo que ele já havia considerado ótimo baseado no quão ótimo aquele momento era e ele desconfiava que nenhum outro momento já havia sido tão ótimo porque nenhum outro momento tinha tido ela, tinha tido aquele sorriso, tinha tido aquela ajeitada de cabelo, tinha tido aquele nariz tão pertinho do dele. ela perguntou de novo. “tá tudo bem?”. ele respondeu “opa, sim, tinha engasgado aqui com a espinha do peixinho”. eles tavam comendo batata frita.

era setembro, era depois do cinema, era ela segurando o guarda chuva. ela estava nervosa, ele estava irritado, o uso do guarda-chuva não estava sendo tão eficiente quanto se esperava, um aproveitamento muito baixo de água evitada em comparação com a água que estava caindo. ela gritava, ele estava tão perto de perder a cabeça que se a cabeça fosse um carro num estacionamento de shopping ele já estaria abrindo o aplicativo de táxis. ela atirou o guarda-chuva na calçada, ele abaixou pra pegar, quando se levantou o dedo dela estava rente ao rosto dele, ela estava gritando. e ele pensou em dizer que não dava mais. que aquilo não tava funcionando, que aquilo não era o que ele esperava, que ele não estava sendo ele, ela não estava sendo ela, eles claramente tinham ido parar numa terra paralela onde a vitória aliada na 2ª guerra, a invenção da penicilina e qualquer sentimento positivo entre eles nunca tinham acontecido. ele queria dizer que aquilo não valia mais a pena e já tinha algum tempo, ele queria dizer que o melhor era parar ali enquanto eles ainda podiam tentar ser amigos. ele disse “vamos conversar sobre isso em casa, tá?”. abriu o guarda-chuva de novo e um pouco da água da rua caiu de lá de dentro em cima dele.

era janeiro, era madrugada, era uma foto dela aparecendo no celular. ela estava numa festa ele estava atirado no sofá, na foto ela estava linda, na sala ele estava de cueca comendo pizza fria. já fazia uma semana e a política de não pensar em nada daquilo estava indo muito bem até o momento em que ele pegou o celular e começou a procurar por ela. as fotos dela. os posts engraçadinhos dela, as histórias dela, a sensação de que a vida dela era um filme e todas as cenas dele tinham sido cortadas na ilha de edição e nunca iam se dar ao trabalho de lançar um dvd com extras porque todo mundo já achava a versão dos cinemas perfeita. começou a digitar uma mensagem. ia dizer que estava com saudade. que aquilo tudo era besteira, que o lugar dela era ali, que não tinha nada que eles não pudessem consertar. que ele nem lembrava porque tudo tinha acabado e que não era pelo mesmo motivo que ele não tinha lembrado em que andar morava e tinha tentado esquentar a pizza na lava-louça. melhor. ele ia na festa. se ela tava na festa ele ia na festa. ia se declarar, ia pedir, ia explicar, ia fazer um circo, ela ia saber que era de verdade porque ele nunca ia em festa com consumação mínima, ela ia ver que era sério. não saiu do sofá. tentou fechar o aplicativo, clicou em curtir sem querer, foi tentar descurtir, o telefone caiu no chão. trincou a telinha toda.

era março, era fim de tarde, era ela sentada na mesa ao lado. ela estava com alguém, ele tinha acabado de descobrir que aquela bolsa carteiro deixava uma marca de suor na camisa que era uma versão indie do uniforme do vasco. não queria olhar pra ela mas pra qualquer lado que olhasse sentia que ela estava ali. quando ela e o cara se beijaram ele respirou fundo, mas não tão fundo quanto respirou quando o cara olhou pra ele, acenou, e disse “caramba, quanto tempo a gente não se vê”. porque é claro que eles se conheciam. é claro que era um amigo dele. ele levantou a cabeça e por mais que pensasse em mil coisas pra dizer era como se ele tivesse se transformado num pokemon chamado “teodeio”, capaz de dizer, nas mais variadas inflexões e variações, apenas a frase “te odeio, te odeio, te odeio”. odiava por ela ter ido embora, odiava ter ficado pra trás, odiava o quão rápido ela se recuperou, odiava que ela estivesse beijando alguém enquanto a maior interação que ele tinha tido era fazer uma criança asiática chorar jogando fifa online. odiava que ela, de todos os caras do mundo, tivesse escolhido um amigo dele. odiava, odiava, odiava. ela disse o nome dele, perguntou se estava tudo bem. “opa, sim, tinha engasgado aqui com um osso do franguinho”. ele tava comendo batata frita.

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6 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, situações limite

6 Respostas para “Mini-conto #22 – “Quatro momentos em que Adolfo queria dizer alguma coisa para Patrícia e acabou não dizendo, porque vocês sabem como são essas coisas″

  1. kkkkkkkk os ossos dos bichos só aumentando. no casamento dela, quem sabe ele se engasgue com um fêmur de elefante?…

  2. Igor

    Cara, você escreve bem demais.
    A propósito, acabei de “zerar”seu blog.
    Li TUDO.
    Sensacional.
    Agora é ficar na torcida pra que mais coisas legais sejam escritas.

  3. marcella

    estou trirte

  4. Ewerton Luiz

    Muito bom!

  5. José Aparecido

    “tentou fechar o aplicativo, clicou em curtir sem querer, foi tentar descurtir, o telefone caiu no chão. trincou a telinha toda.” kkkk, Dá pra ficar pior ???

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