Dois novos referenciais de desconforto profundo na relação com outras pessoas

pivot
o paradigma da carona
: daí que você pediu um favor. não é um grande favor. você não pediu um órgão pra transplante, não pediu pra pessoa cuidar dos seus filhos enquanto vai pra uma guerra, não pediu pra um plebeu que é impresionantemente parecido com você fingir ser rei enquanto você vive como um camponês pra conhecer melhor seus súditos. não, você pediu uma coisa simples. uma carona, um lugar pra dormir durante a noite, uma ajuda pra montar um guarda-roupa. e a pessoa, gente boa, amiga, prestativa, aceitou, claro, eu ajudo, que isso, a gente é bróder, aqui é parceiragem, é parceria + caradagem. e tudo começa bem. a carona chegou na hora, o sofá é bacana, a pessoa trouxe até a própria chave de fenda. você tá agradecido, você tá feliz, você tá fraterno.

aí começa. a pessoa acelera, a pessoa avança um sinal, a pessoa ultrapassa um caminhão na curva numa manobra que você acredita que o personagem de vin diesel na franquia velozes e furiosos consideraria “meio irreal”. a pessoa liga o som no talo no quarto enquanto você tá na sala, você sente no sofá um cheiro estranho que te lembra um pouco urina, a máquina de lavar subitamente ligou e, pela movimentação dela, ingressou na revolução das máquinas e está vindo na sua direção por ordens da skynet. ah, e aquele som que você escutou foi da chave de fenda cravando numa parte do armário que não se usa chave de fenda.

e você não quer reclamar. o carro salta no quebra-mola, seu pé toca numa parte molhada do sofá, ele tá tentando juntar na martelada duas partes da porta que não são juntas. você respira. ele tá a 120 enquanto procura uma “montagem do zap” pra te mostrar, tem um resto de comida no travesseiro que ele te deu, ele acaba de dizer um “eeeita” após quebrar um puxador de porta. você faz sua voz mais educada. olha de maneira respeitosa. manifesta sua preocupação do jeito menos ofensivo que consegue imaginar. ele vira e te diz “PORRA, PEDE FAVOR E AINDA RECLAMA? MAS TU É FOLGADO PRA CARALHO MESMO”.

a hostilidade de baixo custo-benefício: daí que você tá do lado de uma pessoa e alguma coisa dá errado. é seu amigo no restaurante e o prato veio trocado, é sua colega de trabalho e o ar-condicionado quebrou, é seu irmão e não deu certo o conserto do carro, vai ter que voltar lá. a pessoa tá nervosa, a pessoa tá irritada, a pessoa tá na verdade correta. daí que chega o responsável e começa o duelo. o responsável chega defensivo, ele nega o problema. a pessoa é incisiva, a pessoa tem provas, a pessoa argumenta, a pessoa vem surfando a onda da razão num tubo dos mais radicais. o responsável começa a dobrar, o responsável vai vergando, você ouve até um leve estalo. a pessoa segue, a pessoa tá firme, a pessoa tá advogado em final de filme de tribunal, a pessoa tá treinador no intervalo de jogo em filme de esporte, a pessoa tá jesus em filme de jesus. o responsável aceita, o responsável se desculpa, o responsável diz que vai resolver, o responsável tá meio que quase chorando. mas a pessoa não para de reclamar.

é, ela apenas não para. ela já ganhou a discussão, ela já provou que tá certa. o prato vai ser trocado, o ar-condicionado vai ser trocado, o cara tá considerando que até o carro pode ser trocado, mas a pessoa não para. a sua comida já tá ficando fria, as estações já mudaram e o ar-condicionado nem é mais necessário, as autoestradas foram substituídas por tubos onde nos movemos como formas de energia, mas a pessoa não para. o tempo perdido reclamando se tornou infinitamente superior ao atraso ou ao transtorno causado pela situação que gerou a reclamação em primeiro lugar, mas a pessoa não para. o sol esfriou, a entropia consome o universo, o planeta terra é apenas uma pedra gelada vagando pelo espaço, a pessoa não para. as luzes se apagam e, logo antes do frio abraço do não-existir, a última coisa que você ouve é um “eu sei que você vai trocar, mas não é mais pelo seu erro, é uma questão de princípios, meu querido”.

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4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal, vida profissional

4 Respostas para “Dois novos referenciais de desconforto profundo na relação com outras pessoas

  1. Roberta

    Nice to have you back

  2. No meu trabalho eu sou a pessoa que envergou hahahaha

  3. Duas Fridas

    Que texto divertido, adorei!
    Helê

  4. Meu deeeus. Eu trabalho ao lado pessoa, passo 9 horas líquidas com a pessoa. E é verdade, a pessoa não para.

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