Breves soquinhos que a vida dá na sua autoestima enquanto ela está distraída: casos #55 e #56

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a moça hostil do caixa: quase sempre tudo começa com alguém trabalhando muito feliz. é a moça do caixa, é a recepcionista do médico, é a vendedora da loja, é a garçonete do bar. ela atende animada o velhinho que tem cachorro, ela fala que não tem problema nenhum o rapaz ter vindo sem a carteirinha, ela garante que vai achar o tamanho certo do calçado, ela serve o suco de laranja com carinho e ainda oferece chorinho – “bebe rápido que tá transbordando e ainda tem mais aqui na jarra”. você nota que ali tá uma pessoa que tá tendo um dia bacana, que tá feliz de trabalhar, que tira satisfação da sua atividade, que mesmo na dureza do capitalismo ainda rima mais valia com alegria. a fila vai indo, os clientes vão passando, mas a felicidade continua, o ânimo persiste, o clima é de alto astral e parece que nada vai abalar a paz de espírito daquela pessoa no trato com os clientes naquele dia. até, é claro, que chega a sua vez.

tudo acontece numa fração de segundo. a pessoa da frente agradece, você aproxima, a moça do caixa tá sorrindo, vocês estabelecem contato visual, e aí acaba. sim, acaba. a alegria da moça, aquele sorriso, aquela paz, aquela felicidade. tudo aquilo vai embora. o simples contato com seu rosto, a simples percepção da sua presença, a simples conscientização de que você é algo que existe, você é de verdade, você está ali, foi o bastante para abrir um buraco negro emocional que drenou a alegria daquela mulher, que esfacelou a paz que ela sentia, que bloqueou da cabeça dela qualquer motivo pra sorrir. um lado seu pensa que foi uma coincidência, um lado seu racionaliza que não precisa existir relação direta, um lado seu afirma que ninguém tem obrigação de sorrir pra ninguém. mas enquanto ela te atende de má vontade, te cobra a carteirinha do plano de saúde mesmo ali sendo uma sapataria, enche seu copo só até o meio e atira o resto do suco no chão olhando nos seus olhos, você percebe que independente de você se achar bonito, se achar feio, se achar ok, aquela é uma moça que se te visse no tinder iria com certeza atirar o celular na parede do lado esquerdo.

a tia sincera da família: você mora longe faz tempo, você é meio enrolado, você visita pouco sua avó, quase nunca vê seus primos, mal encontra com as suas tias. então quando você chega lá é meio que um evento. sua vó quer saber sobre as namoradas, sobre o trabalho, sobre a carteira de motorista, todos assuntos que sua reação é um “então, vó, andaram acontecendo uns lances desagradáveis, eu dei umas vaciladas…”. mas ela é sua avó, então tá tudo lindo. ela te mostra pra vizinha, ela te mostra pras comadres, ela te mostra pro pessoal da igreja. ela elogia sua aparência, ela elogia suas roupas, ela considera que você tá meio magrinho ainda que essa informação entre em conflito direto com seu índice de gordura corporal. fosse sua autoestima um pokemon a sua avó seria um grande lure ambulante usando vestido e fazendo batata frita. daí ela chega pra sua tia e diz “olha como o junior tá lindo, tá um homão” e sua tia não responde. sua tia respira. sua tia te observa. sua tia analisa. sua tia não segue o protocolo socialmente instituído de que elogio de avó sobre neto você apenas deixa rolar, você apenas aceita. sua tia não cede à pressão do meio de apenas dizer um “opa, tá mesmo” e deixar pra lá. sua tia olha pra você e sabe que não pode ser conivente. sua tia olha pra você e não encontra dentro dela a força pra fazer um elogio. a sua tia olha pra você e considera que a dissonância cognitiva entre a sua aparência e as palavras “lindo” e “homão” é forte demais pra ela conseguir participar desse momento, mesmo diante do olhar suplicante da sua avó. a sua tia te olha e apenas diz “esse óculos é novo?”. e você diz “rapaz, eu nem sei”. sua avó diz que o óculos tá lindo.

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2 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, homens trabalhando, situações limite

2 Respostas para “Breves soquinhos que a vida dá na sua autoestima enquanto ela está distraída: casos #55 e #56

  1. poxa. tô meio decepcionada comigo mesma, pois me identifiquei com essa tia. e tô rindo. (humor meio torto, fazer o q, ne).

  2. nelsonaugusto

    pensa que a moça do caixa pode ter um crush em vc, ela não vai conseguir agir naturalmente na sua vez

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