Vietnã, 1968, visualizada mas não respondida

texting

justificativas aceitáveis pra que você tenha visualizado aquela mensagem e não respondido: estava ocupado; estava no trânsito; estava tendo um dia ruim; esqueceu; o 3g estava falhando; problemas no aplicativo; estava envolvido em uma partida especificamente competitiva de war e quando começou a digitar alguém gritou SEM CELULAR SEM CELULAR; achou que tinha mandado mas nunca tinha clicado enviar; “puuutz, eu queria responder mas aconteceu um negócio”; não pensou numa boa resposta na hora; estava tentando indicar de maneira sutil que não havia interesse em continuar a conversa sem necessariamente causar o pequeno drama de explicar isso com palavras achando que um gesto vagamente cruel mas direto poderia realizar essa função; “meu cachorro comeu meu celular”; estava com uma certa birra porque ela demorou demais na mensagem anterior.


única justificativa que você aceitaria pra ela ter visualizado aquela mensagem e não ter respondido: vietnã. 1968. a ofensiva tet acaba de ocorrer e o vilarejo de ban houei sane está em frangalhos. refém de um comando vietcongue, uma jovem viajante do tempo tenta aproveitar os únicos segundos da troca de turno de seus captores para enviar uma mensagem. presa em sua cela, imobilizada, ela nota a idosa vietnamita sentada tristemente no outro canto da cela e com um meneio de cabeça tenta indicar o telefone celular, sujo de lama, escondido entre pedaços da fria rocha que compõe o chão do local. também doente, a sofrida anciã demora alguns minutos para entender, mas por fim alcança o dispositivo. confusa com sua tecnologia futurista, olha de maneira perturbada para a jovem em seus estranhos trajes modernos, que, amordaçada, não consegue nem mesmo explicar o funcionamento do aparelho, tendo que usar de gestos para orientar a idosa a pressionar as telas e realizar o comando de desbloqueio. vem então a parte mais complexa do processo. indicar para aquela mulher desconhecida, aquela mulher já cansada e chocada pelos horrores da guerra, aquela prisioneira de um dos mais sanguinários conflitos da história humana, a importante mensagem que ela precisa digitar naquele já danificado aparelho, na esperança de que aquelas letras ultrapassem os limites do tempo e do espaço até seu destinatário. buscando mentalmente seus conhecimentos de código morse, a jovem vai lentamente indicando, através de batidas de dedo na pedra, cada uma das letras. é um processo longo, árduo, cansativo, mas o sorriso de reconhecimento nos olhos da antes desesperançada senhora faz parecer que tudo irá valer a pena. porém, assim que a moça de cabelos castanhos termina de ditar, entre pausas e toques na pedra, a mensagem “claro que lembro de você, marcelo, a sexta feira foi ótima e eu adoraria sair de novo, só tô um pouco enrolada no momento, sabe como é, mas claro, semana que vem eu acho que posso sim” ela percebe que a pequena idosa não entendia morse, não entendia nada do que tava acontecendo, achou que aquilo era apenas um batuquinho.

mas bem, sendo assim você entende o lado dela, claro, parece uma situação meio enrolada mesmo, não tem problema responder amanhã.

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1 comentário

Arquivado em é como as coisas são, referências, situações limite, Vida Pessoal

Uma resposta para “Vietnã, 1968, visualizada mas não respondida

  1. Nem assim é justificável. Ela poderia muito bem escapar do cativeiro vietcong e voltar para sábado de manhã e responder, poupando você da angústia da espera.

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