Mais itens do dicionário pessoal de frustrações na interação social e emocional

bojack

# você não queria ir, mas também não queria dizer que não queria ir. você é um pouco inseguro demais, você tem dificuldade pra falar não, você não gosta de ser assertivo, você ficou ali naquela situação chata, você decidiu inventar uma desculpa. “rapaz, então, não dá porque eu preciso buscar minha mãe na rodoviária”. desculpa envolvendo mãe é sempre desculpa boa, ninguém questiona desculpa envolvendo mãe, sua mãe tem aquela fama de ser meio imprevisível mesmo, é a desculpa de segurança, não tem como não colar. “ah, eu tô de carro, eu te levo lá, a gente busca ela”. você franze a testa porque por essa você não esperava. como assim vai contigo buscar a sua mãe? “ah, mas o ônibus costuma atrasar, tu não vai querer ficar preso lá”. tu sorri porque jogou na boa, jogou na simpatia, reforçou a dificuldade mas sem parecer má vontade, pareceu gentileza, pareceu que tava protegendo.

“sem grilo, eu não tenho nada pra fazer mesmo, a gente espera junto, coloca o papo em dia”. nessa hora tu trinca os dentes porque sente uma parte do pacto social sendo rasgada na sua cara. como assim “sem grilo”? como assim “a gente espera junto”?. que parte da tácita norma humana que diz que “se uma pessoa apresenta dois impeditivos pra uma situação é que ela não quer soluções, ela estava apenas inventando uma desculpa e você deve deixar ela em paz” essa pessoa não leu? mas você continua. você diz que ainda precisa passar na casa de um amigo (“te levo lá”), que esse amigo mora na periferia de praia grande (“perto da minha avó”), que na verdade tudo isso é uma mentira e você quer é comprar cocaína (“rapaz, um tirinho ia bem agora, né?”). mas a pessoa tá irredutível. duas horas depois, enquanto está sentado na rodoviária esperando sua mãe, que nunca saiu de juiz de fora, e com dois papelotes de uma droga que você nunca usou na sua mochila, você se pergunta porque é tão complicado dizer “não” pras pessoas. nesse momento o amigo do seu lado, trincadaço, diz “e quarta? o que que tu vai fazer na quarta?”.

# o vacilo foi seu, claro. você vacilou e vacilou feio e a pessoa tinha todo o direito de ficar chateada e ela ficou, claro, e você pensou “tá no direito, como eu disse, tem todo o direito”. mas você foi lá e reconheceu e pediu desculpas porque bem, desculpa não resolve nada mas ao menos mostra que você sabe que vacilou, como você já disse anteriormente. porque nossa, você vacilou feio, assim, numa escala de vacilo que fosse de 0 a 10 você teria batido um 17,5 e prefere nem pensar muito sobre o assunto senão vira um 18. mas a pessoa perdoou. a pessoa alma boa, a pessoa bróder, a pessoa parceiraça, a pessoa coração do tamanho do continente africano e não na projeção de mercator, que faz a áfrica ficar menor, mas numa escala mais acertada mesmo. a pessoa perdoou forte, a pessoa perdoou coração aberto, a pessoa perdoou tão perdoado que se jesus tivesse ali teria achado exagero e teria dito “tá querendo aparecer é, seu perdoão do caralho?” e o lance de jesus é todo isso de perdoar, você sabe.

mas você não sabe lidar. você sabe que teve perdão, você sabe que acabou o rancor, você sabe que não vai ter esfregadinha de vacilo na sua cara, mas você não sabe lidar. você fica bolado, você fica cheio de dedos, você não sabe mesmo lidar. olha pra pessoa e lembra do teu vacilo, fala com ela e lembra do teu vacilo, quanto mais bacana ela é, mais tu lembra do teu vacilo. e você fica bolado, você se sente mal contigo, você lembra da sua própria capacidade de vacilar e como ela foi imensa. e você não sabe lidar. e você gradativamente vai se afastando, porque tu olha pra pessoa e vê apenas um trecho de uma canção pré fase gospel da cantora perlla que diz “deu mole pra caramba, tremendo vacilão”. e pra evitar esse desconforto você vai ficando cada vez mais distante da pessoa até que praticamente rompe todo o contato. e aí você percebe que isso também foi vacilo, porque agora a pessoa pode estar lá se perguntando se ela vacilou contigo de alguma forma e aí fica sendo mais vacilação sua ainda, porque você definitivamente não sabe como explicar esse distanciamento pra ela. na escala 0 a 10 de vacilo você acaba de atingir um 25 e enquanto você pensa nisso o seu amigo da primeira história ainda tá falando um “quarta-feira eu te busco então? eu tô de carro direto agora, a gente passa em praia grande de novo, essa era da boa demais, irmãozinho”.

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6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, situações limite, Vacilo

6 Respostas para “Mais itens do dicionário pessoal de frustrações na interação social e emocional

  1. acabo de descobrir que tiro 10/10 na prova sobre os pactos sociais, pois: me ofereceu dificuldade eu já libero e, dois, é bem complicado eu perdoar vacilo (rola um pouco de culpa católica por não perdoar, mas ne).

    eu rio muito com as suas crônicas.

  2. Guilherme Tucunduva Bentivoglio

    Depois de ler esse texto me sinto como o desenhista que tentou desenhar o Steve Buscemi e conseguiu uma fidedigna Thammy Gretchen (acima, à esquerda) – surpreso e feliz.

  3. Não pude deixar de reparar nas tags do post. Isso realmente é um texto que pode te complicar com as autoridades.

  4. Thiago

    Seus textos são fodaços velho, obrigado mesmo.

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