Pequenas situações que dizem mais sobre a sua vida do que você gostaria

jason-alexander-mustache

Daí que você mudou de cidade e precisou arrumar um lugar pra cortar o cabelo.  Você não é de pesquisar, você não é de pedir opinião de conhecido, você só acha uma barbearia no caminho de casa, entra, explica vagamente o corte, o cara corta, aí ele pergunta como é o pezinho, você não sabe como é o pezinho, ele diz que pode ser disfarçado, a ideia de um pezinho que se disfarça de outra coisa parece intrigante, faz pezinho disfarçado então. Você sai da barbearia, o cara se despede de você com um “até a próxima, Guilherme”, você fica confuso, mas não corrige, já tá na porta, nem sabe se vai voltar ali, necessidade nenhuma de corrigir o cara numa besteira dessa.

Claro que no mês seguinte você volta, porque você descobriu uma barbearia, seu cabelo ficou socialmente aceitável, você não vai procurar outra barbearia. Chegando lá o mesmo cara te recebe com um “faaaala, Guilherme!” e você acena de cabeça com um “que?” como uma maneira de sinalizar que você entendeu o gesto mas não as palavras, tentando não precisar corrigir o cara mas não responder diretamente quando chamado de Guilherme, porque esse não é o seu nome, mas você não vai sair corrigindo uma pessoa por causa de uma coisa assim. Guilherme, João, Oswaldo, é tudo nome, tá tudo bem.

Todo o processo de corte de cabelo transcorre normalmente, você não sabe de novo qual pezinho fazer, ele fala “pode ser disfarçado” e você pensa “parece intrigante” e aí faz. Na saída ele manda um “até a próxima, Guilherme” e você responde com um “opa” meio gutural que visa demonstrar que você entendeu que ele emitiu sons mas não reconheceu o nome em questão pois você não se chama Guilherme, esse não é o seu nome. Mas não tem necessidade de deixar uma pessoa sem graça por causa de um lance desses.

Lá pela quinta vez que você vai na barbearia o cara solta um “e a mulherada, Guilherme?” enquanto passa a máquina na lateral e você chega a fazer menção de dizer um “hahahaha meu nome não é esse” mas pensa que agora é tarde demais, são cinco meses usando o nome “Guilherme” nessa barbearia e se você só agora informar que esse não é o seu nome vai ser muito esquisito, vai ser muito desconfortável, você vai parecer uma pessoa estranha. Não dá mais tempo pra voltar atrás e você aceita a realidade de que enquanto morar nessa cidade o seu nome vai ser Guilherme durante uma hora por mês enquanto corta o cabelo. “Pezinho é como?”, “Como pode ser?”, “Ah, pode ser quadrado, redondo, disfarçado”, “Hmm…disfarçado…intrigante…”.

Sexta vez que você vai lá, mais uma vez aquele “fala Guilherme”, porque todo mundo sempre esquece o seu nome, exceto essa pessoa que decidiu que o seu nome não é o seu nome. Corte de cabelo sendo feito, aqueles papos protocolares, você não foi chamado de Guilherme mais nenhuma vez. Termina o corte, tá tudo normal, mas há uma mudança na dinâmica. Dessa vez, por não ter ninguém no caixa, o cara que cortou seu cabelo também vai passar o seu cartão.

Daí que ele pega seu cartão, vai passar na máquina, lê seu nome. “Tá usando o cartão do seu irmão, Guilherme?”. “Opa, não, é meu”. “Mas aqui diz João”. Sua cabeça cogita por alguns instantes algumas opções que vão desde “João Guilherme” até apenas deixar o cartão e correr, e aí o cara pede pra ver sua identidade. Você respira fundo, faz a sua melhor cara de “isso é algo normal que acontece com qualquer pessoa” e explica que bem, ele começou a te chamar de Guilherme, você ficou sem graça de corrigir, acabou apenas deixando rolar.

Nos olhos dele e das outras pessoas perto do caixa você consegue ver se formando a frase “será que é algum tipo de fraude? será que é um cartão roubado? que tipo de pessoa maluca consegue achar mais confortável passar meio ano sendo chamada por outro nome do que apenas interromper a outra pessoa e corrigir algo que ela disse?”. E você sabe a resposta, claro. Esse tipo de pessoa maluca é você, sim, é você, é totalmente você. É muito você. Rapaz, é você pra caralho.

Na saída o cara se despede de com um desconfortável, “até mais, fera”, porque toda a questão de nomes próprios se tornou uma espécie de tabu por hoje. Você cogita seriamente a possibilidade de nunca mais ir ali, mas é no caminho de casa, o preço é bom, ia dar trabalho demais mudar de barbearia agora, já foram seis meses naquele lugar. Fora que, sei lá, suponha que você ache um lugar novo e o cara já te cumprimente com um “faaaaala, André”.

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8 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, situações limite

8 Respostas para “Pequenas situações que dizem mais sobre a sua vida do que você gostaria

  1. ThiagoFC

    Outro risco que você corre se trocar de barbeiro: quem garante que o novo cara sabe fazer pezinho disfarçado?

  2. Naiara costa

    Esse é o texto mais João de todos os textos desse blog, e olha que eu tô acompanhando com acurácia :)
    Mas tá tudo bem, o cara da frutaria encucou que meu nome era Bárbara uma vez, eu expliquei que não era, ele meio que tocou o foda-se pro meu nome verdadeiro e eu fui Bárbara por tipo dez anos, até ele falecer no começo do ano passado. Essa não foi uma história com final muito feliz, sério.

  3. O que será um pezinho disfarçado?
    Isso de nomes é complicado e olha que no caso o seu é João e o meu é Ana, teoricamente simples. Inclusive a algum tempo fui no Starbucks e falei “Ana” saiu no copo Hannah. Fiquei com a sensação que estava tomando o café de alguém! hahaha

  4. fiquei super intrigado. que raios é esse tal de pezinho disfarçado? não rola isso aqui, no interioir de minas gerais.

  5. Jean O. Q. (Wally)

    Ainda bem que eu esqueço o nome de todo mundo.

    Tá bom, não é algo massa isso.

  6. Primeiro texto que eu leio aqui e já estou favoritando blog.
    Dessas histórias de não corrir o nome, acabei lembrando de um episódio de Friends.
    Mas sobre nome, hoje em dia tudo vira apelido, nada que um “alguns chamam de guilherme” “alguns chamam de lucas” e o motivo? não sei só chamam
    Agora que pezinho disfarçado é esse?

  7. Excelente texto, Bruno! Ri bem. Mas convenhamos que um pezinho disfarçado é mais estiloso do que qualquer outro tipo.

  8. renata silva

    Um senhorzinho, nosso vizinho, só chamava meu marido de Ricardo. E meu marido tb nunca corrigiu.
    Outro dia o senhor falou o nome certo (Tiago) e disse nunca mais ia errar o nome.
    Só ficamos na dúvida como ele descobriu o nome correto, pq meu marido nunca iria corrigi-lo…

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