Breves abismos emocionais onde você caiu e seu corpo nunca mais foi encontrado

grega

#Em primeiro lugar é preciso dizer que a culpa foi sua. Totalmente sua. Ela quis relacionamento e você disse que precisava de espaço, ela quis intimidade e você foi evasivo, ela quis apenas que você pegasse um pouco mais leve mas não dava pra ouvir através do barulho que a betoneira metafórica onde você transportava um hipopótamo metafórico estava metaforicamente fazendo ao passar pela metafórica estrada de chumbo.

E não rolou. De comum acordo, num clima que nem era ruim, como numa conversa entre ex-bbbs onde todos decidiram que iam se dedicar a outros projetos e todo mundo tava muito bem, muito tranquilo. Todo mundo muito seguro da decisão e consciente da racionalidade de que era o melhor rumo a ser tomado diante daquela situação e qualquer empresa de consultoria estrangeira daria o mesmo parecer. Até que você viu ela com outro cara mandando o famoso papinho.

Porque aí, amigo, aí bateu. Coração apertou, comichão forte na barriga, gastrite deu aquela chamada que você foi até procurar a caixa de comprimido que o médico mandou fazer na manipulação, você encomendou, buscou, nunca tinha usado. Enquanto suas sinapses eram corroídas pelo mais baixo ciúme que o ser humano já viu, sua mente pensando aquele maligno “o que ele tem que eu não tenho?” mas se recusando a aceitar a resposta (“um monte de vacilo a menos na conta”), tu se viu diante ali do famigerado dilema moral.

Era ciúme de sentimento? Era ali um apelo desesperado do seu coração dizendo que aquela pequena era a sua morena e outras rimas que o grupo Pixote teria feito? Ou era ciúme palhaçadinha, ciúme competiçãozinha de quem perdeu e agora não queria aguentar o parabéns? Ciente de que seja qual for a resposta você vai ter que respirar fundo, olhar pra frente e afogar o questionamento na latinha de Skol perdida na geladeira, você se permite só aquela última reflexão. “Tá aí, rapaz, grupo Pixote, puta pilar esquecido do pagode nacional”

#Não que você estivesse indo muito bem. Você é fraco de papo, não é bem provido de feição, toda abordagem sua é uma luta do homem contra as forças da natureza, um confronto com o ambiente hostil, um documentário do Discovery Channel sobre um lagarto que cresceu achando que era uma girafa e sinceramente já era pra ter desistido o bichinho. Mas tava rolando. A garota era daquelas de coração grande, paciência imensa, espírito tão puro e tanta boa vontade que devia ajudar a empurrar Scania quebrada com vestido de festa logo antes do casamento da irmã só pra ver o caminhoneiro sorrir. Vestido claro, pra você ter ideia.

Mas ela estava dando aquela vaga abertura e você tava lá. Aquela piadinha, aquela conversinha, ela falava dela, você falava de você, a garota era interessante feito temporada nova de seriado favorito, ela ria das besteiras que você falava, o chat rolava bacana e o seu monociclo emocional descia suave a ladeirinha que leva da conversa descompromissada pro flerte sutil.

Você tava otimista? Não tava, que otimismo é o refúgio dos desinformados. Mas tava pessimista? Seria exagero também dizer que tava, pois exibia aquele sorriso no rosto do cético que duvida do milagre mas se Jesus aparecer já vai chegar abraçando. Até que após uma mensagem sua o papo cessa, a conversa esgota, o retorno é zero, a comunicação é cortada como numa estação de pesquisa localizada num pólo num daqueles filmes de monstro sessão da tarde fodidão. A mensagem tá visualizada, a interação virtual dela com o mundo prossegue, prestadora NET confirma que na cidade dela a fibra ótica tá lá firme e forte, tá dando pra jogar altos multiplayer sem delay, mas resposta pra você é nada.

Sentado na sala de casa enquanto disputa o modo jornada do fifinha você repassa mentalmente tudo que você falou em busca daquele momento quebrador de jogo em que você fez a garota de boa, tranquila, paciente, decidir que tu não valia a atenção de um constrangido “hahaha” e era o caso de apenas deixar o silêncio falar através da sua fonte 72 negrito sublinhado itálico e enquanto Alex Hunter chuta uma bola por cima do travessão um último pensamento te ocorre. “Amigo, Pixote realmente é bom demais, galera não sabe apreciar”.

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2 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, contos, Desocupações, homens trabalhando, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

2 Respostas para “Breves abismos emocionais onde você caiu e seu corpo nunca mais foi encontrado

  1. Nossa!! Cai aqui de paraquedas e li um texto lindo, que encaixa na minha vida atual!!
    Texto delicioso, leve, lembra aquelas marolas de uma praia calma!
    Parabéns!!

  2. Victor Sanzovo Pomim

    Acompanhava o blog quando ainda estava no colegial, hoje, estou formado. Estava vagando e tentando retomar os velhos hábitos de ler blogs novamente. Voltei aqui.
    Que arrependimento ter ficado tanto tempo sem a leitura dos textos!
    Parabéns!
    Pixote é foda mesmo.

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