Novos sentimentos desagradáveis na era do romance fluido

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#o paradoxo egoísta da disponibilidade ideal: daí que você quer mais tempo com aquela pessoa. mas você não quer namorar aquela pessoa, claro, porque você não tá pronto pra um relacionamento, você valoriza a sua independência, você vive um momento complicado, qualquer uma dessas coisas que você sabe que são verdade mas um lado seu tem medo que sejam apenas jeitos elaborados de dizer “quero estar disponível se rolar de beijar mais gente na boca”. mas você quer mais tempo com aquela pessoa. mas também não pode ser muito tempo, porque você também tá tentando focar mais no trabalho, você quer se reconectar com seus amigos, você quer ver mais sua família. mas você quer mais tempo com aquela pessoa. mas não pode ser em dia de futebol ou quando tem viagem da galera ou quando você tá cansado e apenas acha melhor ficar em casa. mas você quer mais tempo com aquela pessoa. mas não podem ser atividades que exijam compromisso emocional ou que sejam fora de mão em termos de trânsito e horário ou que venham a dar uma ideia errada das suas intenções e gerem implicações com as quais você não quer lidar. mas você quer mais tempo com aquela pessoa. mas também não quer vivenciar nenhum grau muito elevado de intimidade ainda que você queira em dados momentos realizar atividades que implicariam um grau mais elevado de intimidade. mas você quer mais tempo com aquela pessoa.

mas aí você percebe que pra isso aquela pessoa teria que aceitar estar disponível para você nos momentos que você quisesse, pro tipo de atividade que te fosse conveniente, recebendo praticamente zero retorno em troca, vivendo graus de intimidade que variariam de acordo com a sua necessidade do momento e possivelmente ainda teria que levar um casaco extra sempre que saísse porque você nunca acha que vai fazer frio, sempre esquece casaco, acaba gripando. e daí você percebe que está basicamente fazendo a versão emocional daquelas vagas de emprego em agência onde a pessoa precisa dominar programação, diagramação, linux, kung fu, esperanto e trabalhar 18 horas por dia pra receber em troca 900 reais (bruto) e o principal atrativo é “pode usar a mesa de ping pong e tem um cachorro”, mas você nem tem uma mesa de ping pong e sua casa nem tem cachorro. daí você, é claro, deixa a pessoa quieta. mas sim, você queria mais tempo com aquela pessoa. mas ao menos isso tudo reacendeu em você aquele lance de ver se uma mesa de ping pong caberia na sala da sua casa.

#a vaga lei de tostines da covardia/autopreservação emocional: e você, racionalmente, sabe que é melhor não se comprometer. você é meio confuso, meio disperso, não passou exatamente pelas melhores situações, não tem exatamente um monte de maturidade, não se acha capaz de lidar com qualquer tipo de relação mais complexa e duradoura do que dividir uma compra em 2x (existe uma grande desconfiança que num parcelamento mais longo você provavelmente conseguiria deixar a compra irritada, decepcionada, frustrada, profundamente magoada). na sua cabeça o melhor nesse momento, é manter um nível seguro de distanciamento emocional, tentar primeiro ficar melhor nisso de conhecer você mesmo, melhorar seu processo de tomada de decisões que varia entre aleatório, terrível, absolutamente insensível e “ah, cara, na boa, sério, na boa”. mas outro lado seu se pergunta se você não está perdendo oportunidades se preservando. se isso de se fechar pras coisas não está te impedindo de lidar de verdade com as situações mas te permitindo vacilar com as pessoas da mesma forma, se não é mais um mecanismo de defesa pra nunca ter que encarar os problemas que realmente existem contigo, mais uma maneira de poder continuar fazendo as coisas que está fazendo, do jeito que está fazendo, sem o desafio de precisar mudar para que algo diferente aconteça.

mas você sabe que possivelmente o lado racional está certo porque você se dispersou totalmente dessa linha de pensamentos para voltar a pesquisar o tamanho oficial de uma mesa de ping pong. 2,74 x 1,52, não tem jeito disso caber na cozinha e ainda dar espaço pra jogar, ainda mais que você gosta de dar aquelas porradas de longe da mesa.

 

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4 Comentários

Arquivado em referências, romantismo desperdiçado, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

4 Respostas para “Novos sentimentos desagradáveis na era do romance fluido

  1. Daniela Souza

    É… bem contemporâneo.

  2. eu

    Neurose e auto-sabotagem, o Durepox do statu quo interior.

  3. Difícil lidar com auto sabotagem. Ainda mais quando você pode ser confundido com um manipulador apenas por ser assim.
    Acabamos nos isolando ainda mais por pura sacanagem de certas pessoas quererem se aproveitar da situação, como se fosse um mérito pra elas:
    “sabe aquele cara? Pois é ele se afasta das pessoas com medo de se comprometer de forma inconsequente. Como pode né? Ser sem sentimentos.”
    O que prova que estamos certos, ter o mínimo de intimidade ainda é correr riscos. Talvez morrer sozinho seja mais seguro e sensato.

  4. Seu paralelo com a vaga de agência é perfeita. Nunca deixe de escrever aqui!

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