Arquivo da categoria: Book Review

Publieditorial #13: Um apelo pessoal

Devido a alguns problemas de comunicação com a editora, parece que tem sido bem complicado obter cópias dos dois volumes das coletâneas de contos das quais eu participei e que saíram pela Belacop no decorrer deste ano (e eu fico muito grato mesmo aos que tentaram). Então, ainda que eu sinceramente ache que poderia ser mais interessante manter um baixo número de exemplares no mercado para que o livro algum dia se torne cult, tomei a atitude de conseguir mais algumas cópias para que eu mesmo possa realizar a venda direta, na base da amizade e da parceria, sem abuso, sem abuso, como diria Leandro Lehart.

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Arquivado em Book Review, Milton Neves, vida profissional

Sobre o livro do Zé

Eu nunca acreditei muito nisso de conhecer pessoas pela internet. Primeiro porque é uma coisa muito parcial, extremamente fragmentada e profundamente seletiva. Você vai ver da pessoa a foto que ela quiser mostrar, ler o que ela escreveu com tempo pra revisar e saber dela apenas o que ela quiser que você saiba (o que realmente me faz sempre achar que as pessoas que parecem assustadoramente malucas na internet são mais assustadoramente malucas ainda na vida real ou apenas assustadoramente mais sinceras do que a média). E segundo porque minha mãe sempre me disse pra não me encontrar com “gente que eu tivesse conhecido no computador”, o que elimina não só amigos virtuais como também o clipe gigante do Word e o Duke Nukem, mesmo ele sendo 3D. E não, não vamos poder ir ao cinema juntos, Princesa Cogumelo.

Ainda assim, principalmente por causa dos blogs (o meu e o de outras pessoas) eu acabei desenvolvendo laços de amizade com gente que eu sinceramente nunca vi antes e com quem muito provavelmente não devo topar tão cedo. Seja por causa do carinho que eu tenho pelos leitores disso aqui (eu levaria cada um de vocês ao cinema e pagaria a pipoca, sério. mas não, não seguraria na mão dos leitores homens nas cenas mais assustadoras. somos só amigos, cara) seja pelo respeito que eu tenho pelas pessoas da barrinha da direita cujos blogs eu sempre leio e cujos textos várias vezes me ajudam a não dormir no trabalho (e sério, eu acho que vocês deveriam atualizar seus blogs com mais freqüência, porque tenho passado vergonha em várias reuniões).

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Arquivado em Book Review, Milton Neves

J.D. Salinger


(Este texto foi publicado na edição #10 do Farrazine, em março de 2009, e está sendo republicado por conta do falecimento de J.D. Salinger, um dos grandes autores americanos do último século)

É sempre difícil saber como alguém vai ser lembrado. Pense em Einstein por exemplo. Gênio da física, criador da teoria da relatividade, um dos cientistas mais revolucionários da história, acabou entrando para a cultura popular como “o cara descabelado com a língua pra fora”. Afinal, bem mais gente consegue entender um velhinho que parece meio maluco do que algo como E=MC² .O mesmo podemos dizer de J.D. Salinger, um dos maiores novelistas norte-americanos, e que esse ano, no mês de janeiro, completou 90 anos.

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Book Review #2

Tarja Preta

Coletânea de Contos

Publicado em 2005

Cotação 4/8

Bem, como todos sabem existem várias coletâneas temáticas de contos. Na verdade eu não consigo pensar em muitas agora, assim de cabeça, mas eu imagino que devam existir… “Tarja Preta” é uma delas e fala basicamente sobre as drogas medicamentais mais pesadas, ou seja, os remédios de “tarja preta”, e suas implicações e funções na vida das pessoas. Lançada em 2005 ela mistura autores que podemos considerar “pops” como os roteiristas Adriana Falcão e Jorge Furtado, com autores respeitados nas rodinhas, como Luiz Rufatto e Márcia Denser, além do inclassificável (seja isso bom ou ruim) Jorge Mautner. Ah, e tem o Pedro Bial também (“Mas como assim, Bial?”).

O primeiro conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, conta a história de um jovem que já na pré-adolescência começa a usar remédios tranqüilizantes e descobre a sensação de ficar invisível. O personagem é acompanhado durante internações, pirações,mistura de remédios com refrigerante de laranja e seu período em uma clínica de recuperação onde (*clichê mode on*) ele descobre o amor. Uma história simples, bem contada por Furtado, sem maiores pretensões, com alguns bons momentos, principalmente durante os surtos de “invisibilidade”.

“Serial Killer” de Adriana Falcão é provavelmente o melhor conto do livro, com uma discussão entre uma mulher que abusa de remédios, álcool e drogas, e seu cérebro, que paga o pato por cada problema e sofrimento da dona, com a morte de milhões de neurônios a cada surto depressivo ou briga com o ex. A autora consegue pegar um assunto que tem tudo para soar depressivo/mala e transformar em um texto leve, divertido e que acaba exatamente na hora certa. Me deu vontade de ler “A Máquina”, pra saber se ela escreve sempre assim.

Já o conto de Luiz Ruffato, “Sem Remédio”, se tornou realmente um marco pra mim em termos de literatura. Afinal, pela primeira vez na minha vida eu desisti de ler um conto depois de apenas 13 linhas. Sim, eu, que ainda que não seja um leitor criterioso, sou um leitor paciente, consegui ficar de saco totalmente cheio da história em menos de 15 linhas, um novo recorde para alguém que se divertiu lendo “A Cidade e as Serras” e acha “A Montanha Mágica” um livro emocionante (e porra, é mesmo, Hans Castorp é o cara!). Me deu vontade de ler “O Mundo inimigo” para descobrir se ele escreve sempre assim, e se ele escrever, nunca mais ler nada escrito por ele.

Isa Pessôa, a estreante do livro com “A Noite”, apresenta a história de uma editora de fofocas num jornal carioca que, após uma perceber que não consegue se lembrar de nada do que aconteceu na noite anterior vai tentando reconstruir seus passos em busca dessas memórias, sendo isso o gatilho para que ela relembre de vários outros momentos da sua vida. Se não for o melhor conto que você vai ler na sua vida, pelo menos é algo capaz de prender a sua atenção e te fazer sentir algum interesse real pela personagem. Ou seja, vamos dizer que é “legal”, e isso hoje em dia é muita coisa.

E aí vem o Bial, com “Dondon Experiência”, um conto envolvendo futebol de botão e marcas de remédios. O mais curto do livro, mostra um lado do autor/jornalista/apresentador/fanfarrão/narrador de clipe de auto-ajuda que eu nunca pensei que existisse: um lado bom. Uma boa história, bem contada, e pô, fala sobre futebol de botão, tem como não gostar?

“O Quinto Elemento”, de Márcia Denser, parece mais um trabalho memorialista do que um conto propriamente dito. Ou não. Se foca em um período específico da carreira da autora (ou não), quando ela tentou abandonar seu emprego para se dedicar totalmente à literatura. Ou não. O que, se você pensar que quase todos os grandes escritores clássicos eram ricos ou funcionários públicos, evidentemente não era uma boa idéia. (Ou era). E bem, ela descobriu isso. Denser é uma das escritoras clássicas da renovação setentista/oitentista da literatura nacional e, ainda que o tempo tenha passado, é uma mulher a ser lida. Ah, e tem umas anfetaminas ao fundo pra justificar a inclusão do conto no livro.

E o que dizer de Jorge Mautner? O seu “A Química da Ressurreição” é um exemplo clássico da literatura mautneriana: você basicamente fica o tempo todo sem entender nada. Eu sinceramente não sei quando ele está sendo irônico ou falando sério, não sei quando ele está escandalizado ou emocionado, eu apenas e simplesmente não entendo o homem. Exemplo: “O par de namorados enamorados que não se cansavam de ouvir a canção de Carlinhos Brown que tem os azuis de todos os blues maracatus na voz e que tem esta frase: “A namorada tem namoradao enamorado!”. Ele está brincando? Ele está falando sério? Eu sou burro demais pra notar a diferença? Eu devia ter fumado um antes de ler? (Bem, fumar eu não vou, tenho medo de ficar “despersonalizado”).

No todo, a coletânea tem seu valor, apesar de algumas inclusões “forçadas” como a de Márcia Denser e do meu momento de emoção com Luiz Ruffato. Recomendável, principalmente se você puder ler o conto do Mautner e me explicar aonde ele queria chegar com aquilo.

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Book Review #1

Johnny Vai à Guerra

Dalton Trumbo

Publicado originalmente em 1939

Cotação: 6/8

A vantagem de se escrever um livro sobre os problemas da guerra é que dificilmente você vai ficar anacrônico ou datado. Afinal, junto com os polegares opositores, os iogurtes reguladores de intestino e o orgasmo simulado, o conflito armado sem razões lógicas é uma das coisas que diferencia a humanidade do resto dos habitantes do planeta. E “Johnny got his gun”, escrito pelo norte-americano Dalton Trumbo em 1938 e publicado em 3 de dezembro de 39 (dois dias depois da guerra realmente começar para os americanos) é, mais do que um livro sobre a guerra (ou como classifica a própria editora, sobre “pacifismo”) um livro sobre deixar que cada um de nós tome suas próprias decisões e defina o rumo de sua vida.

O livro conta a história de Joe Bonham, um jovem norte-americano do interior convocado para lutar na Primeiro Guerra Mundial e gravemente ferido em uma das ações de seu pelotão. Por gravemente ferido leia-se: totalmente amputado em relação a braços e pernas, sem audição, sem boca, sem rosto, sem olhos e tendo que ser alimentado por um tubo. É, esse não é um livro alegre, se você chegou a pensar nisso.

A história começa com Joe voltando a consciência em um hospital, sem lembranças nítidas do que aconteceu, se recordando de momentos desconexos da sua vida. O que seguimos deste momento em diante é o protagonista percebendo passo a passo todas as mutilações que sofreu, sentindo cada pedaço de si e de sua vida sendo perdido, assim como seus sonhos e projetos para o futuro, ao mesmo tempo que recorda de momentos importantes do seu passado.

Trumbo constrói (e reconstrói) esses momentos de perda da forma mais dolorosa possível, intercalando recordações doces como uma noite com a namorada, uma lembrança de felicidade num jantar de família, com a percepção da perda de uma perna e da impossibilidade de algum dia falar novamente. Vemos a luta de Joe para conseguir coisas simples como marcar o tempo ou tentar se comunicar com o mundo exterior, enquanto reflete sobre o próprio estado e tenta saber se está realmente consciente ou não (pense em como seria complicado apreender a realidade sem boa parte dos seus sentidos.)

O autor se concentra menos em descrever como a guerra é terrível e se foca mais nas perdas que ela causa. Isso fica claro pela quase ausência de “cenas de guerra” propriamente ditas, descrições de campo de batalha, missões e outros desses momentos comuns em livros sobre conflitos armados.E essa estratégia funciona, tanto que as reflexões de Joe, os resultados que a guerra causa nele, cada momento de perda e cada percepção de sofrimento e derrota, causa mais choque do que qualquer descrição de granadas explodindo ou tiros de metralhadora, porque afeta o leitor em qualquer situação. Você pode nunca ir a uma guerra, nunca nem passar perto de uma, mas ainda assim a idéia de uma mutilação ainda pode povoar seus pesadelos.

A mensagem principal, mais do que pacifista, se refere ao direito de cada um de definir seus objetivos, de decidir se e pelo que lutar. O problema talvez não seja a guerra, o conflito em si, mas o poder que permite a outros decidir quem luta pelo que, usando vidas como fantoches e mandando para o front pessoas que vão morrer por conceitos abstratos usados como bandeira para interesses políticos e financeiros. Ou seja, nada parecido com qualquer coisa que possamos ver hoje em termos de política internacional.

O livro segue, apesar de seus quase 70 anos de idade, como uma boa obra para qualquer um que deseja compreender os horrores da guerra e a crueldade de mandar jovens para o campo de batalha. Ou apenas deseja arrumar uma boa desculpa pra não se alistar. Excelente livro, ainda que pouco divulgado no Brasil (sua segunda edição nacional foi lançada em 2003), “Johnny vai à Guerra” é definitivamente um livro a ser lido. Mas não antes de embarcar naquela missão para a África, claro.

Em outras mídias:

– “Johnny vai à Guerra” já teve duas adaptações cinematográficas, uma em 1971, dirigida pelo próprio Trumbo e outra em 2008. Que evidentemente não foi dirigida pelo próprio autor. O protagonista dessa nova versão é Benjamin Mckenzie, o Ryan da finada série “O.C.”

– Em 1940 o livro foi adaptado pela rádio NBC com produção e direção de Arch Oboler. James Cagney fez a voz de Joe.

– O livro também foi adaptado para o teatro e vem sendo representado desde 1982, tendo Jeff Daniels como um dos atores que já interpretaram o papel principal.

– No clipe de “One” do Metallica, são usadas cenas da versão de 1971 do filme

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