Arquivo da categoria: citações

Mini-conto #19 – “Submarino”

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Primeiro eu tinha que esquecer o seu sorriso. Esquecer a sua boca, esquecer as covinhas do seu rosto, esquecer o jeito como a sua franja caía pela sua testa, como você prendia o cabelo atrás da orelha. Depois esquecer a sua risada, esquecer o som da sua voz, esquecer o seu jeito de cantarolar, esquecer o sotaque que você achava que tinha perdido mas eu notava, esquecer o jeito como você piscava pra mim quando achava que ninguém estava olhando.

Depois seriam as coisas maiores. O seu jeito de encostar os pés nos meus na cama, o gosto da sua boca, a sensação da sua cabeça no meu ombro enquanto a gente assistia algum filme chato no sofá, as suas mãos debaixo da minha camisa pra se esquentar quando sentia frio. Os abraços quando a gente se encontrava, os beijos quando a gente se despedia, você apertando a minha mão quando alguém estranho passava do nosso lado na calçada.

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Isso é o que está acontecendo na minha vida agora

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Essa terça-feira, eu estava no trabalho. Um pouco cansado, um bocado chateado, meu dia estava sendo ruim. Aí o telefone tocou.

“Alô, boa tarde”

“Boa tarde, tô falando com o João?”

“Sim, é o João. Em que eu posso ajudar?”

“Aqui é o Joaquim, do projeto. Tá sabendo da reunião?”

“Opa. Que reunião? Que projeto?”

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Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico. Continuar lendo

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Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

george michael

#Você organiza pelada e pelada é só amigos, pelada é só alegria. Futebol society, campinho gramado, barzinho do lado. Dois timinhos de seis, espaço pra trabalhar a bola, pensar na tranqüilidade, tocar pra quem tá mais bem posicionado, desenvolver a malícia desportiva. Timinho de fora pra manter competitividade, mas não completo, rola par ou ímpar pra ver quem fica. Durante dois meses tá de boa. Mês seguinte não tem timinho de fora, mas tá tranqüilo,corre mais, ainda que com menos seriedade porque sem sair você sabe como malandro fica. Um mês depois começa a ficar complicado de dar doze, tem que chamar galera da pelada anterior pra completar, mas tá de boa, é coisa do momento, janeiro é foda, geral de férias. Aí na outra semana só tem dez, maior correria, mas a pelada rola. Aí numa quarta chove e só tem seis, seis é foda. Na outra vão cinco, cinco é sacanagem. Falta dinheiro pra quadra, pelada mia, você fica puto. Manda email reclamando e pedindo pra cada um levar um amigo, pra pelada não morrer, email emocionado, usa a palavra “comprometimento” em itálico sublinhado. Chega quarta, cada um leva seis amigos. Pelada lotada, oito times de fora. Você pensa que agora tá bacana. Galera sai puta porque tinha gente demais e não rolava de jogar. Você pede pra galera confirmar no site antes de ir, pra isso não acontecer mais. Na outra semana tem seis pessoas. Depois tem cinco. Cinco é sacanagem. Você acaba com pelada. Organiza outra pelada. Outra pelada é só amigos, outra pelada é só alegria. Um dia você chega lá e só tem seis caras. Seis é foda.

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Mini-conto #14 – “Pilates”

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Eu gosto de pensar que era uma noite chuvosa. Que você me esperou dormir e me deu um beijo na testa antes de pegar as suas coisas. Separou algumas roupas às pressas se aproveitando do meu sono pesado, não achou sua mala, pegou uma das minhas. Lá fora fazia frio. Você hesitou antes de abrir o portão e enquanto parava um táxi pensou em voltar. Mas vendo as luzes se aproximarem teve certeza que era a decisão certa. Enquanto ele colocava suas coisas no porta-malas você olhou uma última vez pra luz acesa na sala do nosso apartamento e timidamente sorriu. Então você foi embora.

Gosto de acreditar que foi aos poucos. Não acho que nenhum amor comece com um estalo ou algum romance termine com uma explosão. Sempre duvidei de big bangs emocionais e achei que essas coisas acontecessem aos poucos. Da mesma forma que a gente começou durante semanas, em cada encontro, em cada beijo, em cada noite em claro na sala, a gente deve ter terminado durante meses. Em cada telefonema curto, em cada data esquecida, em cada manhã sem tempo, eu devo ter te perdido um pouquinho sem nem perceber. Acho que não foi você que terminou, nós já tínhamos terminado sozinhos. Você só foi a primeira a perceber.

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Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

Cíntia disse que estava tudo bem e no meio da noite foi embora levando roupas, discos, livros, anseios, sonhos e minha única mala de rodinhas. Que ela nunca devolveu. Jéssica me deixou pra trás numa fila de cinema, com um imenso medo de me envolver e dois ingressos pra sessão das nove de “A casa do Lago”, perdas que ninguém nunca vai poder me ressarcir. Carina me trocou por um colega de trabalho que era mais alto e ainda comentou com as amigas que agora poderia voltar a usar salto.

Letícia me pediu pra não ligar mais e prometeu mandar minhas coisas pelo correio, mas nunca fez questão de confirmar meu endereço ou mesmo de fazer comigo um checklist pra saber quais seriam as minhas coisas. Clara me chamou de infantil e foi embora, Lisandra mudou de telefone, Cecília mudou de cidade, Mariana mudou de país. Paula alegou ter mudado de país, mas dois meses depois alugou um apartamento no mesmo andar que eu e numa manhã de sábado ainda bateu na minha porta pedindo açúcar. Não que com isso eu tenha algum problema, apenas achei grosseiro ela reclamar quando viu que eu só tinha cristal. Fernanda mudou de opção sexual e agora sai com garotas, mas eu não gosto de falar sobre isso porque meu apelido na faculdade era Ross e sempre dá trabalho explicar que não é porque eu gosto de dinossauros.

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3 pesadelos recorrentes dessas noites quentes de janeiro

#Tudo começa comigo num shopping. Estou cercado de mortos-vivos por todos os lados. Eu não sei como aquilo aconteceu e eu não sei como cheguei ali, tudo que sei é que estou sendo perseguido e preciso correr. E é isso que eu faço. A sensação é de tensão, pânico e sufocamento, como se eles pudessem surgir de qualquer lugar e eu não tivesse nenhuma rota de fuga, até que eu acho uma porta que dá pro estacionamento do shopping. Saindo por essa porta eu me deparo com um pátio imenso, no meio do qual existe apenas um carro, que eu, instintivamente, sei que está aberto. E eu vou correndo na direção dele, perseguido pela imensa hora de zumbis, como se todo mundo que estava no shopping tivesse sido contaminado, menos eu.

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Sobre perdas, histórias e um amigo que foi embora

A gente nunca sabe lidar com a perda das pessoas de quem a gente gosta. Sejam familiares, sejam amigos, sejam colegas, a gente apenas não tem os mecanismos, emocionais ou sociais, pra lidar com a idéia de que uma pessoa que é importante pra nós, de cuja presença nós gostamos e precisamos, apenas foi tirada do nosso convívio e não existe a chance de que ela volte. Soa errado, soa arbitrário, soa cruel. É o tipo de coisa que, por mais que aconteça, por mais que a gente tente entender, por mais que seja parte do processo e da dinâmica da vida em si, nunca fica mais fácil, nunca faz mais sentido. Por mais que a gente viva, por mais que aconteça, a gente nunca vai ficar mais experiente nisso, aprender a lidar melhor, estar realmente preparado pra perder alguém. Continuar lendo

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Minhas referências icônicas de romance (2 de 5)

O momento: A cena da despedida em Casablanca

O contexto: Num dos últimos momentos de um dos filmes mais importantes do século XX, Rick e Ilse se despedem logo antes que ela pegue o vôo junto com o mala do Victor Laszlo em direção a Lisboa para ajudar nos planos contra o Eixo. Rick neste momento sai de sua impassividade cool num gesto que não só sacrifica seus interesses pessoais como também colabora diretamente com a vitória dos Aliados na 2ª Guerra e de quebra nasce uma das cenas mais relembradas e recriadas da cultura pop e o clássico “sempre teremos Paris” que todo mundo passou a usar deliberadamente e sem o menor respeito, como em “sempre teremos o Rei do Mate” ou “sempre teremos aquela noite na casa da sua tia em que sua avó pegou no sono na cozinha e rolaram aqueles amassos debaixo da escada”.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XIX

Um assunto que eu acho que já tratei aqui outras vezes é o de como é complexa a questão do interesse dentro dos relacionamentos. Aquela fase cheia de suspense, incertezas e semelhanças com uma música do Flight of the Conchords em que você quer, mas não sabe se ela quer, o que ela quer, como ela quer, por que ela quer e se, quando tudo isso for resolvido, você vai mesmo poder levar as algemas e aquele saco de jujubas que você tinha deixado separado em casa.

Mas você superou essa fase de sinais confusos, emoções conflitantes e de não saber se ela atendia os seus telefonemas porque realmente queria falar contigo ou porque você fazia questão de ligar num horário em que nada legal estivesse passando na TV e agora vocês estão juntos. Assim, ainda não juntos no sentido de relação estável constituída, mas juntos no sentido de que vocês ficaram, continuam ficando e ao que parece ela não está afim de cortar a sua onda tão cedo, ainda que você não seja lá tão bom assim lendo esse tipo de sinal, sabe como é. Mas você gosta dela, ela parece gostar de você e você, que já estava bem animadinho, começou a se empolgar. Sim, se empolgar. E conforme você se empolga, uma preocupação começa a se formar: a de que você acabe bancando o Ted Mosby.

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