Arquivo da categoria: contos

Mini-conto #13: “Comédia romântica”

Nas comédias românticas as pessoas gostam de dizer que se lembram tudo. Que você usava vermelho, que a lua estava cheia, que nós pedimos macarrão, que o táxi atrasou, que o garçom era engraçado, que o seu perfume tinha algo de jasmim. Eu lembro que você me esperava na frente de uma banca de jornal, que quase não conseguimos achar um bar, que as pessoas falavam alto em torno da gente, que um garotinho se ofereceu pra fazer alguma coisa em troca de dinheiro – falar os dias da semana em inglês,foi isso? – e você foi muito simpática com ele e achei isso muito bacana em você. Eu não lembro exatamente da sua roupa, eu não lembro exatamente da lua, ou se estava frio, ou se estava quente, mas eu lembro que você estava com uma câmera e eu fiquei inseguro pensando se esse era um plano de emergência caso eu fosse muito chato – “ei, desculpa sair assim, mas esqueci que precisava fotografar uns canários agora à noite pra um trabalho e olha só, esse é meu táxi, tchau”. E no tempo que eu precisasse pra perguntar se canários efetivamente saem à noite e que tipo de trabalho era aquele você ia ter ido embora, algo assim. Mas naquela noite você ficou. E ainda consigo lembrar do primeiro sorriso que você me deu.

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Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

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Dez textos de uma breve egotrip patrocinada

Para os que não se lembram, 2010 foi basicamente o ano da virada aqui no Just Wrapped em termos de visibilidade, já que no mesmo curto período de tempo não apenas fomos apadrinhados pelo conglomerado Interbarney – lucrativo como um agiota do interior porém carinhoso como um afago de mãe – como  comecei a escrever artigos para o Papo de Homem, um portal com um fluxo de leitores infinitamente maior do que esse humilde blog e cujo nome a galera efetivamente consegue pronunciar – “como se chama seu blog mesmo, joão? justiça na lapa? é isso?”.

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Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

Cíntia disse que estava tudo bem e no meio da noite foi embora levando roupas, discos, livros, anseios, sonhos e minha única mala de rodinhas. Que ela nunca devolveu. Jéssica me deixou pra trás numa fila de cinema, com um imenso medo de me envolver e dois ingressos pra sessão das nove de “A casa do Lago”, perdas que ninguém nunca vai poder me ressarcir. Carina me trocou por um colega de trabalho que era mais alto e ainda comentou com as amigas que agora poderia voltar a usar salto.

Letícia me pediu pra não ligar mais e prometeu mandar minhas coisas pelo correio, mas nunca fez questão de confirmar meu endereço ou mesmo de fazer comigo um checklist pra saber quais seriam as minhas coisas. Clara me chamou de infantil e foi embora, Lisandra mudou de telefone, Cecília mudou de cidade, Mariana mudou de país. Paula alegou ter mudado de país, mas dois meses depois alugou um apartamento no mesmo andar que eu e numa manhã de sábado ainda bateu na minha porta pedindo açúcar. Não que com isso eu tenha algum problema, apenas achei grosseiro ela reclamar quando viu que eu só tinha cristal. Fernanda mudou de opção sexual e agora sai com garotas, mas eu não gosto de falar sobre isso porque meu apelido na faculdade era Ross e sempre dá trabalho explicar que não é porque eu gosto de dinossauros.

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Mini-conto #10: “Meg Ryan”

fry

Eles se esbarraram na saída do trabalho. Os dois estavam parados no único canto do estacionamento onde o celular dava algum sinal, ele tentando confirmar um futebol – “terça, marcelo, eu disse, terça. não, não é sexta, é terça. depois de segunda. não, marcelo, eu disse, segunda, se-gun-da, deixa de ser grosso, velho” – e ela discutindo com alguém, um pouco nervosa, um pouco chorando, o bastante pra ele se sentir meio estranho por estar ali.

Os dois desligaram praticamente ao mesmo tempo e ela se virou, meio tímida, para o lado onde ele estava. “Tudo bem?” ele perguntou e ela respondeu com um meio sorriso “ah, namorado, sabe como é”. Ele tentou fazer uma cara que conciliasse as idéias de “sei como é isso de namorados” e “mas apenas hipoteticamente porque sou um homem hetero e nunca namorei caras”, mas achou que não tinha se saído muito bem. Acenou com a cabeça e foi embora.

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Mini-conto #9: “O eterno não dá”

Da primeira vez ele reparou nela, assim que chegou no bar. Ele estava voltando do trabalho, com três amigos e ela estava comemorando o aniversário da irmã. Ele gostou do jeito como ela sorria, achou bonitinha a forma como ela mexia no cabelo, sorriu quando viu que ela era a única bebendo coca-cola numa mesa cheia de tequilas. Ela nunca ficou sabendo, mas foi o melhor amigo dele que vomitou no pé dela naquela noite, logo na saída do banheiro.

Na segunda vez ela reparou nele. Era uma festa, e os dois estavam na fila do bar, ela queria uma cerveja e ele estava planejando pedir um mojito. Quando chegou a vez dele, olhou pra trás, viu a garota e perguntou se ela queria pedir primeiro. Ela aceitou e saiu achando que ele era um cara estranhamente educado, mas bem bonitinho. Ele respirou aliviado porque sempre ficava sem graça de pedir mojitos na frente de garotas. Mojito era meio bebida de veadinho.

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Mini-conto #8: “Aquele que…”

E era um sábado, por volta das oito. Eles estavam na cama, ela encostada no peito dele, ele lendo uma revista antiga do Batman.

“Você sabe que relacionamentos são coisas complexas, certo?”

“Humm…o que?”

“Relacionamentos. Você sabe que são coisas complexas, certo? Cheios de nuances, cheios de detalhes. Certo?”

“Humm…certo…”

“E que, assim, você não pode, sei lá, reduzir, resumir, sintetizar, tudo que acontece dentro de um romance, de um relacionamento, desse evento que é…sei lá…único, numa frase, numa sentença. Não dá pra avaliar, qualificar, descrever toda essa experiência que é estar com alguém com um resumo de duas linhas, não é?” Continuar lendo

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5 anotações para possíveis histórias do Aquaman

aquaman
# Terror no mar. Pânico nas águas. Uma invasão alienígena se aproxima e o primeiro a notar é Aquaman. Logo após conversar com seus amigos peixes, Aquaman convoca a Liga da Justiça. Enquanto Super-Homem enfrenta a frota alienígena nos céus, Mulher Maravilha e Flash combatem os vilões em terra e Batman usa suas habilidades como detetive para descobrir o ponto fraco dos invasores. Aquaman começa a se despedir dos peixes. Os alienígenas, após horas de batalha, conseguem derrotar a Mulher-Maravilha e aprisionar Flash, enquanto apenas Super-Homem resiste no campo de batalha e Batman começa a desconfiar que aqueles podem não ser alienígenas de verdade. Aquaman comenta com um salmão que as coisas não parecem estar indo bem. Batman descobre que os alienígenas na verdade eram andróides criados pelo maligno Dr. Ivo e com a ajuda do Super-Homem emite um pulso eletromagnético que desativa todos os robôs, salvando o planeta Terra. Flash é resgatado, todos voltam para a torre de vigilância, Aquaman comemora abraçando uma tainha. Continuar lendo

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Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

woody

Começou como uma brincadeira. Estavam na festa de aniversário dos avós dela e depois da sétima ou oitava vez que perguntaram como tinham se conhecido ele viu que não queria mais contar a história de como tinha atropelado o pug dela no parque. E pro primo dela disse que tinham se conhecido num show, ela estava caindo da grade, ia ser pisoteada pela multidão insana, e ele esticou a mão pra ajudar. Pra uma tia falou que tinham se encontrado na saída de uma livraria, ele carregava uns livros, ela segurou a porta, tomaram um café. Pra avó falou que era um segredo, nem a Lu sabia, mas eles tinham estudado no mesmo colégio, ele duas turmas acima, e sempre tinha sido apaixonado por ela, mas só agora tinha se declarado. Pra empregada falou que tinha sido pela internet, pro cara do churrasco disse que tinha sido uma amiga em comum. Pro tio Rubem falou que ela tinha ganho ele da ex-namorada, numa partida de pôquer, mas ele não se sentia objetificado porque era um homem moderno.

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Daniela e o Circo

Um tesouro perdido. Um trabalho incompreendido. Uma obra esquecida pelo próprio autor e posteriormente recuperada pelos críticos e estudiosos. Uma bela e romântica trama que envolve amores secretos, paixões avassaladoras, luxúria incontrolável e adestramento de elefantes. Nada disso descreve exatamente “Daniela e o Circo”, um simpático conto escrito por mim em 2009 e que havia ficado esquecido não apenas nos arquivos do Just Wrapped como também na minha gaveta de pen drives e que só foi reencontrado quando eu descobri que não só tinha uma conta no 4shared como tinha alguma coisa lá e essa coisa não era um scan de revista do Homem-Aranha (na verdade era um scan do Starman, mas também tinha esse conto).

Então fica aqui para apreciação da academia essa densa narrativa circense cheia de sentimento, traição, lascívia e um engolidor de espadas chamado Jurandir. Clique aqui para baixar o pdf, sinta-se abraçado e tenha um bom final de semana.

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