Arquivo da categoria: crise de meia meia idade

Três observações sobre meu retorno ao mundo das academias

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# como amigos, namorada e familiares sabem, eu, apesar de ter uma certa habilidade com noções abstratas e discussões conceituais, apresento uma imensa dificuldade para seguir instruções simples ou mesmo me movimentar em espaços físicos menos abertos – “joão, busca o creme na gaveta de cima do armário? não, joão, de cima. do armário, joão. não, o armário do quarto. não, não, armário, você não sabe o que é um armário? o quarto, joão, o quarto. por que…mas…por que você tá me trazendo um sapato da cozinha, e acionou o alarme da garagem, joão?”- e isso claramente vem à tona sempre que eu entro no ambiente da academia, que não apenas possui um volume grande de informações visuais como também algumas músicas contagiantes do gênero dance noventista que reduzem mais ainda minha concentração. somando a isso o fato da academia ser toda espelhada, os aparelhos estarem dispostos de forma irregular e serem completamente ajustáveis, e você tem o ambiente perfeito para que eu bata em paredes, tropece em pessoas, me flagele com barras de ferro ou mesmo fique com o braço preso numa corda metálica e volte pra casa todo coberto de graxa. diante disso não é exatamente uma surpresa que, sempre que eu chego na academia, os professores me olhem com a perplexidade de quem vê um cãozinho voltando com a bola na boca depois deles terem lançado a bola do topo de um penhasco.

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Possíveis gimmicks que eu considerei utilizar para definir minha personalidade se aquele lance da fonoaudióloga tivesse dado certo e eu tivesse deixado de gaguejar

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E no começo desse ano eu decidi voltar a fazer sessões de fonoaudiologia, visando resolver o meu decrescente, porém constante, problema de dicção. Não foi uma decisão fácil, não foi uma decisão tomada de forma leviana, não foi uma decisão que durou mais de um mês porque eu tinha que acordar muito cedo e aí eu acabei desistindo. Mas durante esse mês em que fiz as sessões um receio passou pela minha mente: o de, me livrando da gagueira, perder aquele que possivelmente é o meu mais definido e claramente perceptível traço de personalidade (“cara, bebi ontem com o joão” – “qual joão?” – “o moreno” – “hummm” – “o barbudo” – “hummm…” – “o jornalista” – “não tá me dizendo nada” – “o que tem as mãos muito pequenas em proporção aos pés e ao resto do corpo, se você reparar bem” – “ainda não” – “o gago, cara, o gago” – “ah, o gago, cara, grande gago”). Diante da necessidade de, nesse tipo de situação, desenvolver um novo traço marcante de personalidade, cheguei nessas, que foram as minhas cinco melhores ideias.

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Simples situações românticas da vida adulta que não são nem tão simples, nem tão românticas e nem tão adultas

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a data é comemorativa, o momento é bonito, a namorada já alertou que a estante está lotada e não parece uma boa ideia você continuar dando livros de presente. ela mencionou que gosta de massagens, você andou lendo sobre o valor das experiências em comparação com os presentes materiais, a clínica de spa parecia bonita no site. você pensou em reservar só pra ela, achou que seria pouco romântico, decidiu reservar pros dois pra não ficar jogando candy crush na sala de espera. fez a pesquisa, envolvia massagens, envolvia banhos relaxantes, envolvia pétalas de rosa, você leu em algum lugar que pétalas de rosa são uma boa, mulheres curtem pétalas de rosa, se por exemplo você matar alguém e chegarem duas policiais femininas você se cobre com pétalas de rosa. telefonou antes perguntando se precisava levar alguma coisa, clínica disse “não precisa levar nada, tá tudo sob controle, apenas pode vir”, chega o dia, você vai. chegando lá o clima é esquisito, você na sala de espera vê um gringo passando de toalha, ele não parece ter nada por baixo, você fica pensativo, você não manja de spa, você deveria ter pesquisado melhor.

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Das palavras de apoio que numa análise mais fria não te apóiam tanto assim

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Com uma certa freqüência durante nossas vidas nos deparamos com situações em que estamos buscando um objetivo que não é considerado necessariamente fácil ou para o qual não nos sentimos completamente preparados. A carreira que oferece poucas vagas, a garota que nunca deu muita brecha, o apartamento na zona sul carioca cuja fila de visitação é maior do que a do louvre. E nessas horas nossa confiança muitas vezes pode fraquejar. Achamos que não somos bons o bastante pro emprego, que não vamos saber como falar com a garota, que não vamos nunca ser capazes de conseguir os 16 fiadores, pagar os 12 meses de caução e entregar o mapeamento de DNA que a imobiliária pediu (“e é bom trazer rápido porque alguém já fez uma proposta e trouxe a endoscopia em HD pra gente analisar”)

E é nesses momentos que muitas vezes precisamos de uma palavra de estímulo, de um conselho amigo, de uma voz repleta de confiança nos lembrando que sim, é possível, que somos capazes, que vamos conseguir. Aquela frase bem colocada que, mesmo não aumentando nossas chances de solucionar o problema, nos ajuda a acreditar e encontrar dentro de nós mesmos a força necessária para resolver aquilo que antes parecia impossível. E dentre todas as palavras, todas as frases, todas as sentenças que consideramos capazes de realizar essa missão, uma das piores é, sem dúvidas, a clássica “você vai conseguir porque todo mundo consegue”.

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Ortobom é a nova Chilli Beans

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E depois de apenas quatro anos se tornou necessário trocar o colchão. Um pouco porque as pernas se quebraram na mudança, um pouco porque o tecido se desgastou após ser sucessivamente banhado por líquidos coloridos das mais diversas origens, um pouco porque as molas se quebraram devido as diversas vezes em que eu me pendurei na janela para regular manualmente o ar condicionado e deixei meu corpo cair de uma altura de cerca de dois metros dizendo “iupiiiii” no meio da cama.

Diante desse contexto e da necessidade de adquirir não apenas um novo colchão como também uma nova cama, comecei as pesquisas preliminares pela internet, descobrindo rapidamente a complexidade do ramo dos acolchoados, um mundo de valores altos, menções a NASA e tipos de espuma cujo nome é mais longo do que o meu. Mas existe um limite para o quão longe você pode ir pesquisando na internet algo que claramente envolve tato e conforto, e num dado momento precisei ir para as ruas em busca das respostas que procurava.

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Um breve diário dos meus primeiros dias de aula prática de direção

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Dia 1 – Primeiro contato com o carro, descobri que ao sentar no banco do motorista não apareciam na tela as opções “manual e automático”, além da ausência da canção “CRUIIISIN, USAAAAAA” ser absolutamente perturbadora para um motorista de primeira viagem. Instrutor me ensinou algo chamado “ponto da embreagem” e não consegui aprender exatamente o que era, mas descobri que as piadas comparando dificuldades com o ponto da embreagem e confusão relacionada ao ponto g já foram feitas anteriormente, sem sucesso. Deveria ter começado essas aulas antes.

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3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

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O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continuar lendo

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Do eterno dilema bumbum/virilha

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E então você está lá com a gatinha no cinema. A noite é bonita, a conversa é interessante, a previsão do tempo garantia chuva mas o único clima que você consegue perceber é de romance. A pipoca está gostosa, as balinhas estalam na boca com doçura e a vida parece curta, mas não tão curta quanto aquela sainha sensacional que ela está usando – você já consegue imaginar aqueles belos joelhos tocando os seus durante essa simpática sessão cinematográfica. O filme é de terror, ela disse que sente medo, perguntou se pode segurar a sua mão e você sente que a vitória se aproxima, o sucesso é garantido e antes do final da noite você já vai ter chamado aquela linda de Terra de Vera Cruz e colonizado aquele corpinho todo.

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Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

marshall

Eu ando tendo uns problemas no trabalho. Desgaste, cansaço, estão me impedindo de sair pra procurar outra vaga, coisas assim, sabe?  Tive uma conversa franca, tentei argumentar, apresentei propostas, mas as coisas não andaram. Aí um dia esperei todo mundo sair e escrevi nas cascas das bananas que eles deixam no cesto de frutas palavras como “morte”, “terror” e “medo”, de maneira que conforme as frutas forem amadurecendo e as letras forem ficando pretas eles imaginem que o nosso andar tem fantasmas.

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Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

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Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

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