Arquivo da categoria: Crônicas

Não culpe a internet por não falar mais com a sua tia

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Depois de passarmos um bom tempo defendendo que a tecnologia iria resolver todos os nossos problemas – “viagens espaciais, vida eterna, queijo em spay!”- a tendência mais recente é falar que a informatização, os celulares e a internet são os grandes culpados por tudo. Nossos jovens são violentos por causa dos videogames, nossas famílias são distantes por causa dos celulares, nossos relacionamentos estão em frangalhos por conta dos computadores.

E de todas essas teorias vagamente apocalípticas, uma das que mais me intrigou sempre foi a ideia de que a evolução dos meios de comunicação e o desenvolvimento da internet estariam servindo para nos afastar das pessoas. Por causa do facebook não fazemos amizades, por causa do skype não saímos mais, por causa do twitter não conversamos de verdade, por causa do orkut gastamos nosso dinheiro com moedas para o jogo da fazendinha. E essa teoria sempre me fascinou porque, se você pensar bem, ela obviamente não passa de uma desculpa esfarrapada.

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Sobre breves limites pro seu repertório pessoal de mentiras inofensivas e inverdades de tonteio

 

koenig-stiv#Não que você seja surdo ou tenha algum problema, mas você não ouve muito bem. Quando as pessoas falam você precisa olhar pra elas, quando telefonam você precisa pedir pra repetir, odeia ver filme dublado porque precisa ficar voltando. Mas ao mesmo tempo você não gosta de importunar. Acha chato dizer “como?”, não gosta de mandar um “desculpa?”, então você desenvolveu com o tempo um estilo de escuta passiva que consiste em apenas sorrir, as vezes até rir mesmo e dizer “ahhhh, claro” ou “ahaaaam”. Você usa isso com a chefe, mas depois pede confirmação por email, você usa isso com a namorada, quando sabe que ela tá irritada demais pra repetir o que falou, você usa isso com sua mãe, quando ela fala muito rápido, muito baixo e você sabe que o assunto não é importante. Aí um dia sua mãe bate na sua porta e diz que já comprou os ingressos pro show. Que show? Oswaldo Montenegro. Que ingressos? Vocês tinham combinado. Mas como? Pelo telefone. Quando foi isso? Semana passada, você disse “ahhh, claro”. Você respira fundo e pensa. Voa condor.

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Por uma breve teoria narrativa dos tremendos vacilos

Evil_Troy_and_Evil_AbedUma tendência natural em todo ser humano é a de comparar sua vida a um processo ficcional de narrativa. Existem as pessoas, que atuam como personagens, existem as sequências de eventos e suas conseqüências, que formam a trama, existe um começo claro, um final pontual e uma passagem delimitada de tempo. Dentro dessa lógica nos vemos como protagonistas de uma história específica, que varia entre os mais diversos gêneros e que pode envolver ação, aventura, romance, terror ou apenas muitas pessoas falando sobre muitas coisas durante muitas horas enquanto toca uma música engraçadinha ao fundo e no final o Bill Murray te dá um abraço porque essa meio que é a onda do cara.

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Grande mito lendário da masculinidade #56

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A história quase sempre é contada num bar, boteco ou churrasco, ali por aquela altura em que o volume de álcool consumido já foi alto o bastante para maximizar amizades, potencializar vínculos, gerar promessas de mudanças de vida e ao menos seis gritos de “porra, cara, a gente precisa se ver mais” mas ainda não atingiu o nível necessário pros abraços emocionados, as versões chorosas de canções sertanejas e as revelações de caráter duvidoso – “assim, não que eu seja gay, mas se eu fosse, sabe? se eu fosse, e tivesse que me vestir de mulher, tipo, sendo obrigado mesmo, eu me chamaria etyenne. com y. acho bonito, não sei”.

A fonte tem sempre uma relação indefinível e vaga com o protagonista, como sói acontecer em todos os mitos urbanos de tradição oral. Às vezes é o primo de um amigo, de vez em quando é o chegado de um colega de serviço, de vez em quando é o cunhado de um cara que jogava bola com você em humaitá, não sei se você lembra, era o da cabeça raspada, o que foi pra belém por causa do trabalho, não sei como você não tá lembrando. Quase sempre a trama começa numa despedida de solteiro de um outro amigo, também desconhecido.

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Do conhecido enquanto ferramenta de estranhamento e reconhecimento social (ou apenas: “Alfacinha”)

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Como qualquer um dos 7 usuários do google + poderia apontar, nossa vida social é composta basicamente por círculos, cada um deles diretamente relacionado ao nível de intimidade e ao volume de características que compartilhamos com seus membros. Com familiares dividimos material genético, alguns traços físicos e um acordo tácito de nunca perguntar como o tio Alfredo ganha o dinheiro dele. Com amigos compartilhamos interesses, visões de mundo e histórias desagradáveis sobre aquela vez em que alguém se alimentou apenas com frolic durante dois dias e nem era aquele com vitaminas. Com colegas de trabalho compartilhamos uma fonte de renda, uma copa e um clima de hostilidade constante derivado da total dedicação deles a foder com a sua vida. Mas esse sou eu, que não tenho uma relação legal com o meu trabalho. Não vou generalizar.

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Um dia na vida de um valorizador profissional

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Sérgio chegou ao trabalho reclamando do trânsito. Disse que o aterro estava impossível, que a cidade estava cheia de barbeiros, que não dá pra entender de onde esses motoristas vêm, que os ônibus no Rio se comportam como motos. Que hoje em dia alguém tinha que ser um herói pra chegar na Avenida Chile, que ele tinha tido que acordar as cinco e meia da manhã, que esse país não tinha mais jeito, que ele nem queria ver como ia ser na copa. Declarou que era impossível estacionar nessa cidade cheia de flanelinhas, que o carioca era um fracasso enquanto projeto de ser humano, que a América do Sul estava fadada a ir da barbárie a decadência sem um estágio intermediário de civilização. Na verdade Sérgio havia acordado sete e meia, passado pelo aterro em dez minutos e estacionado numa vaga para deficientes.

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Minhas mais sinceras desculpas

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Um problema que eu tenho é que eu peço desculpas demais. Não sei bem explicar quando começou, não sei se tem a ver com questões de autoestima, se é um tique nervoso ou se eu apenas tenho o mais estranho caso de tourette reverso que a medicina já registrou – “então eu estava lá…ME DESCULPE…conversando com ela e…MIL PERDÕES GENTIL SENHORA…sobre o calor que estava fazendo…EU ASSUMO TODA A RESPONSABILIDADE…” – mas a verdade é que eu, desde a adolescência, peço desculpas com uma freqüência bem mais alta do que a do resto das pessoas.

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Pequeno guia de informações e orientações úteis para clientes novatos ou desacostumados na rede de lanchonetes Subway

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O Subway não é uma prova do Enem – Porque ninguém no MEC vai anular o seu sanduíche se você já chegar no balcão sabendo as respostas. Não que uma pessoa não possa hesitar, se questionar ou considerar necessário um ou outro segundo de reflexão na hora de escolher ingredientes chave – incluir ou não molho chipotle num sanduíche que já envolve carne processada de pernil pode ser sim considerado uma decisão de vida ou morte – mas é interessante que, para facilitar a vida de todos, a pessoa ingresse na fila tendo pelo menos um panorama geral dos seus interesses em termos de pão, recheio e saladas ou ao menos a convicção de que quer realmente o tipo de sanduíche comercializado ali, para que não aconteça como na semana passada em que eu fui até o Subway do Largo do Machado e uma garota na minha frente perguntou se eles serviam cachorro quente. Sério, eu não estou de sacanagem

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Dos problemas da ausência de um senso maior de heroísmo e realização na vida real das grandes metrópoles

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E você saiu de casa atrasado. A reunião era 08:00 e por conta de uma série intrincada de eventos que envolveram desde o fim da pilha do seu despertador até uma certa dificuldade para ligar o aquecedor, passando pela ausência de meias limpas e do fato de você ter gasto dois minutos tentando encaixar uma tetra-chave numa fechadura convencional, você só conseguiu sair do seu prédio às 07:50. O tempo é curto, as probabilidades jogam contra você e ao fundo toca “against all odds”, o que apesar de meio deprimente faz um certo sentido no momento. Mas agora não é hora de lembrar que você precisa tirar esse greatest hits do phil collins do ipod, é hora de correr.

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Dez textos de uma breve egotrip patrocinada

Para os que não se lembram, 2010 foi basicamente o ano da virada aqui no Just Wrapped em termos de visibilidade, já que no mesmo curto período de tempo não apenas fomos apadrinhados pelo conglomerado Interbarney – lucrativo como um agiota do interior porém carinhoso como um afago de mãe – como  comecei a escrever artigos para o Papo de Homem, um portal com um fluxo de leitores infinitamente maior do que esse humilde blog e cujo nome a galera efetivamente consegue pronunciar – “como se chama seu blog mesmo, joão? justiça na lapa? é isso?”.

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