Arquivo da categoria: Gente bizarra

Pequenos e breves momentos de intensa comunhão espiritual com pessoas que você não conhece e provavelmente nunca mais vai ver

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você tava voltando do almoço, passando ali perto da catedral, o sol do inverno carioca na sua cabeça, aquele passo acelerado de quem já estourou a hora, tá preocupado com o ponto, não quer compensar, os dilemas do capitalismo por todo o seu corpo como um hidratante monange na pele da xuxa. mais a sua frente dois japoneses caminham, um ritmo mais tranquilo, os dois conversam em japonês enquanto apontam as plantas, a catedral, os prédios do outro lado da rua. um deles para para amarrar o cadarço e você ultrapassa, vai se aproximando do outro, num dado momento vocês tão emparelhados, você e o japonês, você nota que o japonês continua falando, ele não notou que o outro tinha parado. até que ele se vira e ele te olha. e você nota a testa do japonês franzindo, e você nota os olhos do japonês se apertando e ele vira e te diz uma palavra que você acredita ser “Tesuo?” e você consegue notar, pela reação dele, pela linguagem corporal, pela expressão, que ele não tá achando que você é um ladrão, que ele não tá achando que o amigo dele sumiu, que ele não tá achando que ele se perdeu. por um segundo tu vê nos olhos daquele japonês que, por uma fração ínfima de tempo, por um momento breve mas significativo, a primeira ideia que passou pela cabeça dele foi “porra, meu bróder japonês virou um homem latino barbudo”. e você, enquanto cara que ouve um “vai ver se a pizza tá queimada” e volta dizendo “tá sim” sem ter tirado do forno, enquanto homem que ouve um “sabe a chave que tá em cima da tv? traz ela pra mim” e responde com “a chave ou a tv?” reconhece ali o momento de espasmo mental alheio e abre aquele sorriso solidário que aí sim faz o cara pensar que você é um assaltante mas aí o amigo japonês já acelerou o passo e tu passa rápido pelos dois e já dispara pela reta pro seu trabalho e sim, atrasou mais de meia hora, vai precisar compensar mesmo, é foda demais a vida de vez em quando.

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Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

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E tinha um casal brigando no mercado. Ela dizia que ele era um canalha, ele falava que ela estava sendo uma vaca, ela tentava pegar o celular da mão dele, ele se defendia com o que parecia ser um pacote amassado de pão integral, o carrinho balançando perigosamente entre os dois, uma bandeja de ovos vermelhos ali prestes a cair.

No entorno o clima era de constrangimento. Idosos desviavam o olhar, mães puxavam seus filhos para o lado, outros casais pareciam estranhamente mais interessados do que de costume no processo de escolha de congelados pro jantar – “mas amor, olha esse aqui, esse tem brócolis também” – e eu perguntava para um repositor por que não tinha mais maçã da turma da mônica no que poderia parecer uma tática de distração mas era uma dúvida genuína, já que eu sou péssimo escolhendo fruta, as maçãzinhas da turma da mônica sempre vinham muito gostosas e ensacadinhas, era bem prático, fiquei chateado de não achar.

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Grandes estilos narrativos de taxistas #78, #79, #80, #81 e #82

taxi

#78 – o taxista interessado: tudo começa como uma viagem normal. primeiro ele pergunta pra onde você vai e você diz pra onde vai. aí ele pergunta qual caminho você prefere. você diz que qualquer um tá ok. aí ele te pergunta se o ar-condicionado tá tranqüilo, você diz que tá bacana. então ele pergunta se o banco tá de boa. você diz que tá susse. aí ele te consulta sobre a velocidade, você diz que tá fera. mas mesmo aí, quando você já está desfalcado de termos de rápida concordância e começa a temer a necessidade de usar expressões menos comuns e mais polêmicas como “da horinha” e “chablim, papito”, ele não para. ele quer saber o porquê da viagem, ele quer saber pra qual bar você vai, te pergunta quem você vai encontrar, o que você espera do final de semana, quanto tempo você tem de namoro. você está acuado, você foi criado por pais rígidos, você deixou o celular em casa, e ele te pergunta se a rádio está do seu agrado, se conhece aquela vizinhança, se tá sabendo das obras do elevado, se acha que a região portuária tem conserto. você sai do taxi exausto, tenso, emocionalmente oprimido, mas com a confusa sensação de que nunca na sua vida encontrou alguém que quisesse a sua opinião tanto assim.

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Por uma curta categorização das amizades e derivados com os quais a gente meio que não sabe lidar direito

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a garota de quem você ficou amigo com a intenção de “pegar” mas acabou nunca “pegando” e agora tem namorada e não vai mais “pegar” – no começo era tudo físico. o bar era lotado, era amiga do amigo de uma amiga, os olhares se encontraram, aquela troca de palavras que fingia simpatia e interesses em comum mas era na verdade apenas a versão conversinha da introdução instrumental de uma música do r. kelly. um precisou sair mais cedo, o outro disse pra procurar no facebook. se adicionaram, trocaram uma ou outra mensagem, agendas não batiam, datas nunca coincidiram e no meio dessa adorável confusão você conheceu sua namorada. bang. interesses repensados, atenção total e completamente redirecionada e nos últimos anos você apenas não deletou a menina no facebook e no twitter por um certo senso de culpa e uma ideia de que seria meio canalha descartar uma pessoa apenas porque não tem mais intenção de fazer sexo com ela. nesse instante ela está postando um texto sobre como votar 0000 nas eleições vai obrigar o brasil a voltar pra monarquia e você está se perguntando como tem gente que reclama da monogamia.

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3 grandes falhas discursivas que acontecem quando sou obrigado a interagir com pessoas desconhecidas ou com quem tenho pouca intimidade em ambientes ou momentos de extrema pressão pessoal ou profissional

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A gíria bizarra – Sendo eu uma pessoa que só poderia ser considerada articulada pelos mesmos critérios que bonecos são considerados articulados – meus joelhos e cotovelos dobram – todo nível de interação pessoal que não seja previamente planejada e ensaiada com no mínimo 120 minutos de antecedência na minha cabeça ou mediada virtualmente e realizada por escrito tende a se tornar uma experiência não apenas complexa como também frustrante. Daí que uma coisa que para a maioria das pessoas seria uma surpresa positiva – reencontrar um velho conhecido no shopping, por exemplo – para mim rapidamente se torna uma experiência de terror abjeto já que, desorientado e confuso, considero que uma boa forma de disfarçar o meu pânico seja com o uso de gírias, para oferecer um ar de descontração ao momento. Daí respondo sobre como eu estou com um “sussinha”, descrevo meu trabalho como “tranquilo como um grilo e manso feito um ganso” e me despeço com um “vai na paz, queridão”. Certa vez respondi a uma pergunta numa reunião com “beeeeleeeeuza, creuza”. Sim, um encontro casual e me transformo num figurante estranho num filme do Zé Wilker.

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Medo e delírio no elevador da firma

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Era um final de tarde normal, após um dia normal, de trabalho normal, numa empresa normal. Você se encaminha para o elevador, o andar é o 25, a bolsa carteiro pesa nos ombros, a camisa social amarrotada, o ipod com a playlist que sua namorada montou toca aquela versão de skinny love (amor magrinho) que você gosta. Ele para no 24, ele para no 23, quando ele para no 22 entra um grande número de pessoas. Acontece aquela acomodação natural, pessoas se cumprimentam, se apertam, se reorganizam, você olha o celular pra evitar algum conhecido. Uma descida de elevador normal num dia normal.

Uma senhora se acomoda na sua frente, mochilinha nas costas, você nota algo de diferente. No começo não sabe definir, no começo não sabe explicar, no começo é algo que, assim como o amor numa canção do sorriso maroto, é pra sentir, não pra entender. Mas num dado momento você entende. O sentido certo se manifesta e você percebe: o cheiro tá esquisito. Não pouco esquisito, não o esquisito normal, se acreditarmos que existe um padrão normal para a esquisitice, mas um esquisito berrante, um esquisito atípico dentro de sua própria esquisitice. Em suma, a senhorinha na sua frente está fedendo bastante.

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Item #67 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

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Se trata de um daqueles relacionamentos cujo grau de intimidade é confuso. Você não consideraria um amigo, mas é mais do que um conhecido, não trabalhou contigo então não é colega, vocês não tem vínculos de parentesco que você saiba. Se conhecem faz tempo mas suas horas de conversação somadas não permitiriam que vocês tirassem um brevê pra pilotar avião de papel.

Você estava esperando a namorada sair do trabalho, ele estava de passagem, você viu que ele acenava do outro lado da rua, acenou de volta, viu que ele atravessava a rua, o aceno se tornou mais tímido, viu que ele se aproximava e o que era um aceno se tornou o movimento em libras para “puta arrependimento do caralho”. Simulou uma olhada no celular mas era tarde demais para ser salvo pelo candy crush.

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Item #77 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

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O sol já se pôs, a lua caminha inexorável pelo céu e você, diante da sua mesa de trabalho, está concluindo projetos atrasados, dando retoques em projetos atuais, preparando para o dia seguinte projetos vindouros. No fone de ouvido apenas músicas que te propiciam a maior e mais intensa imersão no universo burocrático do seu trabalho – acústico art popular – e a intenção de aproveitar as horas em que o escritório está absolutamente vazio para se dedicar de corpo e alma às suas demandas profissionais.

Mas o escritório não está absolutamente vazio, é claro. Enquanto Leandro Lehart entoa seu ôôaa ôôaa você ouve um som que lembra uma voz humana tentando romper a barreira idealmente intransponível representada pelos seus fones de ouvido de tamanho propositalmente grande e cores deliberadamente berrantes. No começo você ignora, mas o volume da manifestação externa vai apenas crescendo até chegar a um ponto em que você considera que pode ser adequado ao menos descobrir de onde vem o ruído.

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E agora para algo completamente diferente…

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O dia de hoje não terá posts mas em compensação marca meu retorno com articulista no Papo de Homem, com um fascinante texto sobre a não existência de friend zone num ambiente adulto real que não envolva o seriado Friends. No meio disso tudo também mencionamos a banheira do gugu, o personagem ciclipe dos x-men e os problemas do assédio  sexual realizado por porteiros

Os que puderem, prestigiem clicando aqui.

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Um breve diário dos meus primeiros dias de aula prática de direção

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Dia 1 – Primeiro contato com o carro, descobri que ao sentar no banco do motorista não apareciam na tela as opções “manual e automático”, além da ausência da canção “CRUIIISIN, USAAAAAA” ser absolutamente perturbadora para um motorista de primeira viagem. Instrutor me ensinou algo chamado “ponto da embreagem” e não consegui aprender exatamente o que era, mas descobri que as piadas comparando dificuldades com o ponto da embreagem e confusão relacionada ao ponto g já foram feitas anteriormente, sem sucesso. Deveria ter começado essas aulas antes.

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