Arquivo da categoria: Mundo (Su)Real

Sobre o terror primitivo do falo conceitual voador

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Ainda que poucas pessoas costumem notar, de todos os xingamentos e praguejares existentes na língua portuguesa – uma língua rica em possibilidades de ofensas, que vão desde menções a genitais peludos como forma de extravasar raiva até informações sobre as opções vocacionais da mãe do outro como meio de ofensa – um dos mais graves, aterrorizantes e sinistros é o interiorano, comum e primariamente inocente “caralho de asa”.

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Grandes pequenos momentos conversacionais presenciados em aeroportos #67, #68 e #69

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#67 – o  telefonema ostentação:  quase sempre acontece numa fila. Pode ser a fila do embarque, poder ser a fila pra despachar mala, pode ser a fila pro detector de metais. Alguém na sua frente, ou atrás de você está falando ao celular. Mas não falando ao celular como você costuma estar num aeroporto, se despedindo da sua mãe, avisando pra namorada que vai chegar mais tarde. Não, essa pessoa está falando ao celular coisas importantes, ela está decidindo problemas, ela está tomando decisões. E ela está fazendo isso num volume muito alto, quase sempre mencionando o quão importantes são essas decisões, o quão críticos são esses problemas, o quão importantes são essas coisas importantes, além de sempre destacar, num volume mais alto ainda, o destino da viagem e quanto tempo ela vai ficar nesse lugar. Exemplo ilustrativo do telefonema ostentação: “Não, Selma, DIRETORA DE ESTRATÉGIA, eu não posso falar agora porque O PRESIDENTE me mandou nessa VIAGEM PARA MILÃO, onde estarei COMANDANDO A NEGOCIAÇÃO com os italianos, DURANTE SETE DIAS. E não, meu telefone IPHONE BEM CARO não tá com problemas de volume, por que você tá perguntando isso?”

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Breves entrevistas com corretores hediondos

Como posso já ter comentado anteriormente, eu estou procurando um apartamento novo. Um tanto pela da necessidade de morar sozinho, um bocado por causa do reajuste proposto para o nosso atual apê – na casa dos 878, 3% – um pouco por conta do fato de que eu e Tarcisio finalmente entendemos que apenas em seriados americanos e vilas militares é comum que homens heterossexuais perto da faixa dos 30 anos morem juntos. Sério, as pessoas estranham e a garota do censo fez piadinhas. Não foi legal.

E como muitos de vocês provavelmente sabem, eu moro no Rio. Sim, o Rio, a proverbial cidade maravilhosa, dotada de um dos maiores custos de vida do país e onde, por conta da realização das olimpíadas e da copa, conseguimos levar a especulação imobiliária para o próximo nível, com quitinetes que tem preço de apartamentos de um quarto, apartamentos de um quarto que tem preço de apartamentos de dois quartos e apartamentos de dois quartos que tem valor estimado acima do PIB da Líbia e com os quais você poderia tranquilamente financiar dez anos de pesquisas sobre algum vírus ou reduzir em 10% a fome na África.

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Breves fenômenos contemporâneos da dissociação cognitiva: “A síndrome das férias”

Primeiro estágio: contaminação – Tudo começa com a aproximação do período das férias. Aquele seu amigo, antes articulado, cheio de assuntos e capaz de numa mesma conversa abordar temas tão variados quanto o nono segredo de fátima, mineração em áreas de grande profundidade, bukkake e porque é impossível cancelar qualquer plano na blockbuster – ainda que você ache que essa parte da blockbuster tenha sido meio forçada e nada orgânica em termos de papo – subitamente se torna uma criatura total e absolutamente monotemática, conseguindo falar apenas sobre as próprias férias. Onde elas vão ser, o que ele vai fazer, como é o hotel, como é o avião, como ficou a foto no passaporte, quais bermudas ele comprou, qual gorrinho ele vai levar e como ele planeja voltar com 12 ipads, todos fora da mala, alegando que é pra uso pessoal. A sensação coletiva que, antes era de simpatia (“ah, que bom, cara, suas férias”), rapidamente se transforma em indiferença (“é, eu sei, cara, são suas férias”) e caminha em direção a antipatia (“mas porra, só fala dessas férias, cacete”) podendo em casos extremos chegar até mesmo ao ódio puro (“tomara que um puma leproso te lamba a cara e um tubarão te coma, fdp. e dane-se se suas férias são em quebec”).

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Duas pequenas fábulas ouvidas durante o workshop corporativo dessa semana

A fábula dos cegos e do elefante – Índia antiga. Terra de tradições, terra de magia, terra de interpretações questionáveis de Tony Ramos e Márcio Garcia. Um jovem rei, desrespeitando não apenas as regras de segurança do governo, mas também qualquer resquício de bom-senso no trato com pessoas portadores de necessidades especiais, convoca cinco cegos do reino, os coloca em torno de um elefante e pede que eles descrevam como é o animal. Todo mundo acha bacana.

O primeiro cego, que havia apalpado a barriga do animal, descreveu que ele parecia uma panela. O segundo, localizado perto da orelha, considerou que o animal parecia um leque. O terceiro, perto da tromba, alegou que a semelhança era com uma mangueira. O quarto, que apalpara a perna, disse que a criatura lembrava um poste e o último, que havia ficado perto do rabo, após mencionar que aquilo era uma das maiores babaquices já feitas e que o rei deveria se envergonhar, mencionou que o animal lembrava uma vassoura. Continuar lendo

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Colegas que não ajudam o seu trabalho: #126, #127 e #128

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O corretor de rascunhos: E então você chega pra ele e fala que terminou o projeto e quer que ele dê uma lida, mas ainda é só um rascunho, então não é pra se preocupar com formatação, pontuação, coisas assim. Aí ele diz que não gostou da fonte. Você explica que a fonte vocês mudam depois, mas queria que ele desse uma opinião geral, pra dizer se tá bacana. Ele fala então que o título está errado porque anteprojeto não tem hífen. Você promete que vai corrigir, mas é pra ele ler tudo antes, deixando esses detalhes de lado. Então ele comenta que você deveria usar asteriscos e não bolinhas.Você diz que ele pode ir marcando essas coisas na folha e depois você altera. Aí ele comenta que você devia destacar os subtítulos com itálico. Você ressalta que tá mesmo querendo só uma opinião ampla, não precisa ser tão específico. Então ele vai e fala que você não deveria ter imprimido na multifuncional do corredor, porque tá soltando tinta na mão. Aí então você manda ele tomar no meio do cu e pega seu papel de volta.

Na próxima reunião de equipe ele apresenta um ppt de 20 telas sobre falta de ambiência e problemas de comunicação na gerência.

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Outros adendos ao dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você está saindo do trabalho e uma garota com uma prancheta te aborda, diz que faz parte de um grupo de pesquisa e pergunta se você pode ajudar respondendo algumas perguntas. Muito adiantado pra uma consulta médica, você diz que sim, ok, tudo bem. Aí ela, entre sem jeito e sem graça, diz que o assunto são hábitos das pessoas na cama. Você respira fundo, luta contra a sua timidez e durante 10 minutos fala sobre sua vida sexual desde que perdeu a virgindade, comentando sobre inseguranças, experiências pessoais e possíveis pontos de melhoria que você nota em si mesmo. Aí a garota diz que apenas trabalha numa empresa de colchões, mas respeita a sua sinceridade e te deseja só coisas boas.

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Pornô

E Sasha Grey se aposentou. Sim, essa espécie de Juscelino Kubitscheck da indústria do cinema adulto, que em apenas 5 anos de pornografia fez coisas que nós esperamos que nossas mães, tias e avós não tenham feito em 50 anos de vida, resolveu abandonar a careira no auge e seguir em direção a outras áreas mais tradicionais do entretenimento, deixando para trás as lembranças, os sites de streaming e os filmes com títulos envolvendo trocadilhos que ficaríamos constrangidos se tentássemos traduzir para o português. E é exatamente nesse momento de perda e de luto, de olhares compungidos e picos na busca do Google que nos deparamos novamente com um dos mais lastimáveis tipos de homem que o nosso século produziu: o cara que finge que não gosta de pornografia.

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Novos adendos ao pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você está conversando com a garota e está tudo bem. O papo fluindo, você tentando manter aquela coisa tarantinesca do “hysterically funny, but not funny-looking” e obtendo aquele nível moderado de sucesso até que em um dado momento você diz uma besteira. Você sabe que é uma besteira porque assim que você falou começou a bater um arrependimento, ela deu uma piscada assustada e em algum lugar na sua cabeça um neurônio deu um soco em outro e começou a gritar algo como “porque eu só trabalho com imbecis? por que?! poooor queeeeee?!”.

Então você, na intenção de corrigir a má impressão, tenta dizer qualquer outra coisa. E consegue piorar a situação, levando aquele mesmo neurônio a dar cabeçadas na membrana aracnóide e praguejar contra “o pior emprego do mundo, maldição!”. Daí você resolve partir pra metalinguagem e brincar que não é sempre tão idiota assim, o que claramente dá a impressão de que sim, você é sempre idiota desse jeito. E daí em diante você vai basicamente passar a noite toda tentando se corrigir e piorando a sua situação, numa imensa e interminável escalada de constrangimento, até que seus neurônios apenas desistam de você e decidam trabalhar por contra própria numa fórmula para definir números primos.

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The maid, the bad and the ugly

Como vários de vocês sabem, eu divido apartamento com um cara. E isso, como toda e qualquer coisa na vida, tem seus pontos positivos e seus pontos negativos, claro. Como pontos positivos posso ressaltar aspectos como a redução de custos, a divisão de responsabilidades, não ter tido que pagar por aquela TV gigante da sala e poder roubar queijo quando chego no meio da noite com muita fome. Como pontos negativos menciono todas aquelas noites em que chego em casa, tem um homem sem camisa no meu sofá e eu tenho que dar boa noite pra ele ao invés de ligar pra polícia, e o fato de ouvir algumas das piores piadas sobre relacionamentos homoafetivos já criadas pelo homem. É mais ou menos por aí.

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