Arquivo da categoria: Music Review

Novas aventuras em lo-fi #21

travolta

[este texto pode conter spoilers para aqueles que ainda não assistiram o filme “garota exemplar”. sério, pode mesmo. não é uma ameaça vazia. ainda que, num certo grau, todo texto pode conter spoiles pra “garota exemplar”, né? assim, falando em termos de possibilidades e tal]

Uma coisa que eu sempre gostei, desde moleque, é a chamada “música com historinha”. Sim, é bacana aquela canção num esquema mais lírico, é fera um verso mais livre, é bonito quando a coerência vai pro espaço e tão ali apenas umas palavras legais e a pessoa tá gritando que quando ela se sente metal pesado e mente e é fácil o tempo todo, mas um lado meu sempre admirou demais o esforço necessário pra contar, de maneira rimada, uma historinha, seja essa uma trama em que você descobre que o chico mineiro era [spoilers] seu legítimo irmão ou uma em que um bróder conta que ele conheceu a menina, escreveu o nome dela na mão, a chuva apagou como numa propaganda de corsa. Em suma, historinhas.

E de todas as músicas com historinha poucas até hoje me fascinaram mais do que “Escape”, ou “The Pina Colada Song”, do artista Rupert Holmes. Isso porque, ainda que à média distância ela possa parecer apenas uma canção setentista sobre drinks exóticos ela é, na verdade, uma das mais perturbadoras e tensas narrativas sobre infidelidade, crise nos relacionamentos e o fardo do eterno romance que o ocidente já chegou a produzir. Acompanhem comigo.

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A mais longa playlist de músicas tristes (ou relativamente tristes) do universo: itens #556, #557, #558 e #559

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#556 – Peter and Kerry – Split for the city: Baseada no terror inato e primordial de não estar lendo os sinais, não estar pegando as deixas, não estar entendendo as pistas e ela estar fazendo as malas pra ir embora e levando o gato enquanto você apenas se pergunta porque uma bolsa tão exageradamente grande só pra ir comprar o café que acabou – “e você sabe que o Willie sempre espirra quando você leva ele nessas padarias” – essa cançãozinha disfarça como pop vagamente dançante um monstro lovecraftiano mais perverso e aterrorizante que Cthulhu, que é o “eu ainda te amo mas acho que não estou mais apaixonada por você”. Para pistas de dança com espaço para você se deitar em posição fetal enquanto bebe vodka de canudinho.

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Novas aventuras em lo-fi #17

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Como todos sabem, vivemos numa época marcada pelo duelo entre a globalização cultural, um processo de universalização que aproxima e mistura as mais variadas culturas, e o recrudescimento dos mais antigos conflitos e preconceitos. Temos acesso a diversas culturas com um clique do mouse mas estranhamos a pessoa com outro sotaque, podemos chegar ao outro lado do mundo em algumas horas mas temos medo que estrangeiros roubem nossos trabalhos, podemos graças a internet ter acesso a pornografia que envolve dois cavalos, uma freira e um anão fantasiado como Kim Jong Il transando numa banheira de iogurte vigor grego mas quebramos lâmpadas na cabeça de homossexuais nas ruas. São tempos esquisitos.

Exatamente por isso se torna importante, mais do que ressaltar as diferenças entre judeus e palestinos, católicos e protestantes, brancos e negros, buscar as semelhanças, as experiências comuns, aquelas coisas que ao invés de nos separar nos unem. E no caso dos héteros e dos homossexuais, um desses elementos, ainda que poucos reparem, é que quase todos nós, quando crianças ou adolescente, em alguma excursão do colégio, do curso de inglês ou do time de futebol, cantamos essa verdadeira epopeia musicada da descoberta do prazer da sodomia e da paixão homossexual chamada “rema, rema, remador”. Sim, rema, rema, remador. Venham comigo.

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Novas aventuras em lo-fi #7

Como eu já mencionei em oportunidades anteriores (mas negarei sem problemas se algum dia minha vida depender disso) eu realmente não me dou bem com hip-hop, tenho certas restrições ao r&b e sou um pouco implicante com rap, provavelmente por ser gago e ficar deprimido quando penso que algumas pessoas falam 30 palavras por minuto enquanto eu teria que mandar um sms pros bombeiros se meu apartamento pegasse fogo. Ainda assim, eu nunca me cansei de admitir que os clipes desses gêneros estão quase sempre entre os melhores já feitos pela humanidade em termos de conceito, roteiro, execução, atuação, figurino e tudo mais. E mesmo diante da competição pesada que existe numa vertente que já nos ofereceu desde “Because i got high” até a já citada aqui “Sexy Bitch”, um clipe que entrou facilmente na minha lista de favoritos foi o da já clássica Buzzin’ do querido e simpático Shwayze. Continuar lendo

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Novas aventuras em lo-fi #13

meredith

Existem canções que, mais do que divertir, mais do que entreter, mais do que mostrar seu valor como produto artístico, acabaram ganhando status de revolucionárias, seja por sua mensagem, por seu contexto ou por seu significado dentro de um plano maior do que a da música em si. “Imagine” foi o libelo de John Lennon para um mundo de paz, amor e pessoas cabeludas na cama; “Respect” foi o grito de Aretha Franklin que se tornou hino feminista na virada da década de 60; “Blowin’ in the Wind” afirmou Bob Dylan como o bardo de uma geração e “God Save the Queen” foi um marco do movimento punk, que ultrapassou o campo musical e se tornou um estilo de vida que você não quer que sua filha tenha. E hoje venho aqui para pedir que seja adicionada nessa lista de músicas que atingiram corações e mentes, mudando o mundo e a forma como nós o vemos, uma simpática canção chamada “Copo de Vinho”, do lendário funkeiro Robinho da Prata. Me deixem explicar por quê.

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Novas aventuras em lo-fi #9

Uma coisa que acontece com freqüência quando a gente é garoto, não sabe falar inglês direito ou apenas ouve as músicas de relance é não sacar muito bem qual que era o exato conceito da canção e acabar vivendo a vida tranqüilo, de boa, mas com uma visão distorcida do que está rolando naquela faixa 4. Pensamos que “Santeria” era uma música romântica sobre Miami e não sobre como queremos matar um cara chamado Sancho; confundimos hinos de solteironas com canções sobre tempo virando; pensamos que o Billy Idol queria mesmo ajudar o peixe e ficamos horas nos perguntando porque nas festas do Cláudio Zoli rolava intercâmbio de biquínis. E uma dessas canções que eu conhecia desde moleque mas cujo sentido eu realmente nunca tinha alcançado até um dado momento no metrô carioca – coração batendo forte sentido zona norte – é “Quase um Segundo”, dos Paralamas do Sucesso.

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Novas aventuras em lo-fi #3

Eu não curto muito hip-hop americano*. Nada pessoal, nada contra, apenas não rola aquela identificação conceitual (eles são grandes, eles falam sobre prostitutas e brigas de gangues e, no caso do Eminem, querem matar a própria mãe, ou seja, realmente não faz sentido pra mim) e muito menos aquela compreensão da letra (se eu não agüento um amigo meu falando durante 5 minutos sobre como é mau, fodão e transa com todo mundo, porque eu agüentaria um desconhecido, certo?), o que faz com que o hip-hop seja possivelmente um dos ritmos pelos quais eu demonstre menos interesse (ainda que eu ache o Snoopy Dogg engraçado e sempre tente me manter atualizado quanto ao nome atual do P. Diddy e coisas do tipo)

Por isso quando eu domingo passado na sala, meio gripado, despenteado e abraçado a um edredon como se fosse o Linus em Peanuts, apenas a inércia me fez manter a TV no Multishow durante uma daquelas intermináveis e dolorosas sessões de clipes que eles têm, que deveriam servir pra mostrar o que faz sucesso hoje em dia mas na maior parte do tempo só servem pra nos lembrar de que sim, o mundo merece acabar numa imensa bola incandescente e isso vai acontecer ao som de Jonas Brothers e Cine.

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A arte perdida das poucas expectativas (ou minha resenha do show do Franz Ferdinand e do filme do Paulo Halm)

Uma das coisas que me pai me ensinou quando criança e que eu guardei pra vida inteira é que não devemos criar grandes expectativas, porque quando maior a expectativa maior a possível frustração. Eu sei, eu sei, é uma postura de vida meio defensiva demais, mas com o tempo eu fui aprendendo que é o tipo de coisa que acaba fazendo sentido, já que quase sempre nos momentos em que eu saio de casa pra algum evento, programa ou qualquer coisa do tipo com grandes expectativas (e talvez até algumas citações de Charles Dickens) eu volto profundamente frustrado (ainda mais porque as minhas grandes expectativas quase sempre são muito, mas muito grandes e envolvem Ellen Page, anéis energéticos do Lanterna Verdes, shows particulares do Wilco na beira de uma piscina e cachoeiras de iogurte de côco) e quando eu saio com expectativas baixas (baixas mesmo, do tipo “não morrer hoje”) eu acabo me divertindo muito mais. E foi isso que aconteceu na última terça com o filme “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” e nesse sábado com o show do Franz Ferdinand.

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Music Review #2

Weezer – Raditude

Cotação: Inaplicável

Bem, como eu sempre disse pra quem quisesse ouvir e nunca fiz questão de esconder, existem algumas definições bem claras na minha vida de quais são as minhas verdades imutáveis, eternas e que nunca irão nem passar perto de mudar. São coisas que me acompanham desde sempre e formam os cinco vértices da minha definição de quem eu sou. E uma dessas pontas é a certeza de que a melhor banda do universo se chama Weezer.

Por isso eu gostaria de deixar claro, assim como fiz na resenha de “Zack and Miri make a porno” que a avaliação feita aqui foge totalmente de qualquer critério racional ou analítico no sentido estrito da palavra e que a imparcialidade passou longe sem deixar recado ou mesmo uma mensagem offline no MSN. Ou seja, perguntar se esse cd é ruim é basicamente como perguntar se minha mãe é feia ou meu pai usa calcinha: não vai levar à nada além de brigas ou a algum tipo de diálogo constrangedor entre eu e meu pai. Dito isso vamos em frente analisando o disco faixa à faixa.

“Raditude” abre com “(If You’re Wondering If I Want You To) I Want You To”, primeiro single do disco e que até já tem clipe nas interwebs. É um pop rock “weezer style”, daqueles pra tocar em rádio e fazer a galerinha cantar junto em ritmo de azaração e descontração total. Na sequência vem “I’m your daddy”, outra canção que já nasce clássica, falando sobre aquele climinha de “vou conhecer a garota da minha vida nessa pista de dança”, o que seria realmente possível se alguém aqui soubesse dançar. Aí entra a faixa 3, “The girl got hot”, mais uma daquelas músicas que te fazem pensar que Rivers Cuomo anda saindo muito, provavelmente mais do que você e isso é preocupante. Então vem “Can’t Stop Partying” e você tem certeza que realmente alguém anda se divertindo e saindo com companhias erradas, fora que existe o choque de saber que Lil’ Wayne não é o filho do Batman, como você tinha pensado, e sim um rapper. E assim termina o que eu chamo de lado “solteirão nerd pegador” do CD, perfeito pra ouvir enquanto você se arruma pra sair numa sexta à noite ou enquanto você se arruma pra ficar em casa numa sexta à noite.

Na faixa 5 o Weezer traz à tona seu repertório de canções um pouco mais sentimentais, com “Put Me Back Together”, já citada aqui no blog como representante das súplicas de retorno de ex-namorada (além de uma das melhores do CD), algo parecido com a intenção de “Trippin’ Down the Freeway”, bem mais animadinha e um pouco mais preventiva: ao invés de pedir pra você voltar eu não vou deixar você terminar. “Love Is the Answer” é a prova de que até mesmo o Weezer pode errar e de que nada é tão complicado que uma cítara mal colocada não possa complicar mais, por isso pode ser legal pular para “Let It All Hang Out”, uma música de sábado à noite bem melhor do que qualquer coisa que o Black Eyed Peas jamais possa conseguir fazer, cheia de energia, vida, coragem, alegria e outras coisas que você teria que beber para conseguir. Na versão normal o disco iria então continuar com “In the mall”, um rock simples e sem grandes pretensões fechando com “”I Don’t Want to Let You Go”, a balada final do disco, outra bela canção sobre o porque de não ser legal você me chutar ainda mais agora…

Mas claro, existe a versão Deluxe, e nela existem mais 4 músicas: “Get me some”, uma das mais pesadas do disco, com os “instrumentos moendo” e uma letra que, vá lá, é rebelde sem deixar sua mãe preocupada; “Run Over by a Truck”, que te faz assobiar no metrô e ficar estalando os dedos; “The Prettiest Girl in the Whole Wide World”, uma música lentinha que já tinha saído no segundo disco solo do Rivers e “The Underdogs” , provavelmente o mais próximo de um “We’re the world” que o Weezer algum dia vai chegar.

Numa análise geral a banda basicamente oferece mais do mesmo com algumas boas variações, o que vai ser muito interessante se você for fã e não vai te impressionar taaaanto assim se você não for. Muito da vibração adolescente dos discos antigos e que estava ausente no “Red Album” retorna, assim como uma certa vocação para o pop rock com mais cara de “música pra tocar na rádio” (se as rádios fossem legais, coisa que não são). E não se deixe assustar por participações de rappers ou pelo cachorro na capa (mas tipo, se você se assustar com o cachorro você é meio hiper-sensível, eu acho): é apenas o bom e velho Weezer de sempre. E cara, é bom saber que algumas coisas não mudam tanto assim nesse mundo estranho, frio e cruel que existe aí fora.

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Music Review #1

The Cardigans Acoustic

Gravado em 2006

Cotação 6/8

Existem discos que acabam ganhando uma função importante na vida de quem ouve. Discos que simbolizam momentos, que curam depressões, que te animam nos piores momentos. Mas esse definitivamente não é o caso do acústico do Cardigans, uma gravação que, pelo menos na minha opinião, foi feita apenas para tornar mais torturantes os momentos de fossa e levar pessoas mais mentalmente frágeis ao alcoolismo.

São apenas seis faixas, gravadas durante uma participação em um programa de rádio, mas que parecem ter sido pensadas e selecionadas com o claro intuito de me deixar profundamente deprimido, principalmente quando utilizadas no combo “comédia romântica boba/audição de CD do Cardigans/noite de sono pensando em como o dia de trabalho vai ser uma droga”, o que tornam o disco um sério candidato ao título de “o mais triste do mundo”.

Começamos com a faixa 1, uma introdução triste feita por um locutor que parece ter perdido a mulher para o melhor amigo exatamente naquela manhã. Ele apresenta a banda, num tom compungido, e então o grupo começa a segunda faixa, “And then you kissed”, sobre amores complicados, cruéis e cheios de sofrimento.

and it hit me that love is a game/like in war no one can be blamed/yes, it struck me that love is a sport/so i pushed you a little bit more”

Então vem “Erase and Rewind”, uma espécie de pedido de “volta pra mim”, cheio de arrpendimento. Você começa a achar que X&Y do Coldplay era uma trilha sonora de festa junina. Infantil.

A primeira metade termina com “You’re the storm”, a clássica canção de desistência, com aquela mensagem de “finge que eu sou Vladivostok e me invade com 6 exércitos.” Ou algo assim, eu sou péssimo com analogias.

“I’m an angel bored like hell/And you’re a devil meaning well/You steal my lines and you strike me down/Come raise your flag upon me/And if you want me, I’m your country/If you win me I’m forever, oh yeah”

A faixa 5 é uma faixa de entrevista, em que todos eles contam histórias tristes sobre a morte de pessoas próximas e discutem imagens de foquinhas e pingüins molhados de óleo. Ok, não é sobre isso que eles falam e sim sobre a carreira da banda, mas não é pelo tom de voz que você nota a diferença entre os assuntos…

Surge então um dos hits da banda, “For what is worth”, uma das músicas do meu top 100 das canções fofinhas/depressivas, com o clássico refrão “For what it’s worth, I love you/And what is worst, I really do”. Nesse momento você deve pedir pra que alguém de confiança esconda as facas e garfos. E também as colheres, se você for do tipo que come demais quando fica triste.

A faixa 7, “Communication”, que já é triste até pra quem não entende a letra ou não compreende o contexto (acho que pessoas surdas ficariam tristes apenas com as vibrações da música), ganhou um grau de tristeza toda especial pra mim após algumas experiências pessoais recentes. Parabéns pra mim, né? Uhu…

“And I saw you/But that’s not an invitation/That’s all I get/If this is communication/I disconnect/I’ve seen you, I know you/But I don’t know/How to connect, so I disconnect”

Então, como que numa tentativa de se redimir e reduzir as estatísticas de suicídio na área de cobertura da rádio, a banda fecha o mini-show com “My favourite game”, uma das mais animadinhas deles. Que ainda é bastante triste, se você for pensar…

Em suma, um CD perfeito pra momentos de fossa, tristeza, ou pra quando você precisa chorar no funeral de uma pessoa da qual você não gosta e está difícil encontrar motivação.

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