Arquivo da categoria: Rio

Uma coisa que aconteceu comigo semana passada no metrô e que, se eu fosse convidado pra participar de uma dessas coletâneas do tipo “I love rio” seria a trama do meu segmento

city of god

daí que eu tinha saído do futebol lá na tijuca e entrei no metrô. no rosto aquele cansaço e aquele desespero que apenas o atleta de meio de semana e o jogador profissional márcio araújo conseguem demonstrar, o corpo como uma imensa pokebóla contendo dentro dela um pokemon chamado “dor” que falaria apenas “dor dor dor dor…arrependimento!”.

por ser a primeira estação as cadeiras tão vazias, sem aquele dilema moral de sentar ou não, então pego uma cadeira perto do final do vagão, me sento, coloco minha mochila do lado, vou dar aquela respirada funda que apenas pessoas cansadas e psicopatas de filme dão, e o metrô vai chegando na segunda estação. logo após ele chegar, eu, já respirando normalmente, decido pegar um livro na mochila e começo um elaborado processo de busca arqueológica porque apenas vou jogando as coisas lá dentro, sem muito critério. Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Rio, Sem Categoria, situações limite

3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

Parksandrec_Bendisaster

#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em Rio, Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Mais algumas recentes adições ao guia cada vez mais pessoal de desconfortos cotidianos

troy-and-abed

#Você não lida bem com elogios, então sua primeira reação é dizer que não foi nada. “Não foi nada, que isso”, você diz. A pessoa insiste e você tenta dizer que não foi algo especial, nada de mais. “Você faria igual, sério, foi bem ok”. A pessoa não deixa quieto e diz que não tem nada de ok, ela nunca faria algo assim, foi bacana mesmo. “Que isso, é você sendo gentil, certeza que tem um monte de gente que faria melhor, claro”. A pessoa definitivamente gostou e diz que não, cara, melhor que ela já viu na vida, foi espetacular mesmo. “Mas foi na sorte, sabe? Tipo, eu não consigo sempre fazer assim, né?”. Mas o cara te acha um gênio, ele gostou mesmo, ele curtiu muito. “Não, mas você não tem ideia, esse saiu bom, você gostou, mas o resto? Pô, faço muita merda, é que você me viu numa hora boa, sabe? Assim, uma em um milhão”. Mas o cara não pára, ele diz que tá lindo, ele fala que tá sensacional, ele quer te dar um abraço. E então você diz que não. Que não é assim. Que você não é tão bom. Que é tudo uma farsa. Que você não faz aquilo tão bem, que você não é um bom profissional, não é um bom filho, que queria ser um namorado melhor, que fez aulas de natação mas não se sente seguro na piscina, que as vezes cospe quando fala, que não consegue mais viver essa mentira e quando você tá começando a mencionar que chorou logo após a sua primeira vez o cara já foi embora e bem, como eu tava dizendo, você não lida bem com elogios.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, homens trabalhando, Rio, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Grandes estilos narrativos de taxistas #78, #79, #80, #81 e #82

taxi

#78 – o taxista interessado: tudo começa como uma viagem normal. primeiro ele pergunta pra onde você vai e você diz pra onde vai. aí ele pergunta qual caminho você prefere. você diz que qualquer um tá ok. aí ele te pergunta se o ar-condicionado tá tranqüilo, você diz que tá bacana. então ele pergunta se o banco tá de boa. você diz que tá susse. aí ele te consulta sobre a velocidade, você diz que tá fera. mas mesmo aí, quando você já está desfalcado de termos de rápida concordância e começa a temer a necessidade de usar expressões menos comuns e mais polêmicas como “da horinha” e “chablim, papito”, ele não para. ele quer saber o porquê da viagem, ele quer saber pra qual bar você vai, te pergunta quem você vai encontrar, o que você espera do final de semana, quanto tempo você tem de namoro. você está acuado, você foi criado por pais rígidos, você deixou o celular em casa, e ele te pergunta se a rádio está do seu agrado, se conhece aquela vizinhança, se tá sabendo das obras do elevado, se acha que a região portuária tem conserto. você sai do taxi exausto, tenso, emocionalmente oprimido, mas com a confusa sensação de que nunca na sua vida encontrou alguém que quisesse a sua opinião tanto assim.

Continuar lendo

9 Comentários

Arquivado em Gente bizarra, homens trabalhando, Rio, Sem Categoria, situações limite, Top, Vacilo

Mais adições ao guia pessoal de desconfortos do cotidiano

funny-movies-with-steve-carell.jpg

#Ser apresentado a uma pessoa, não conseguir guardar o nome dela, não ter mais contato com ela, não se preocupar. Meses depois topar com essa pessoa por acaso, descobrir que ela guardou seu nome, descobrir que ela por alguma razão está interessada em falar contigo. Ter momentos de terror durante uma conversa na qual ela se refere a você pelo nome em toda e cada uma das frases, o que apenas evidencia o quanto você não sabe o nome dela, já que ela se refere a você como joão e você se refere a ela como “cara”, “velho”, “prezado”, “dileto”, “querido” e “bacharel”, o que parece uma referência aos trapalhões mas é apenas um sinal de desespero. Passar o resto da vida evitando essa pessoa em ocasiões profissionais e pessoais mesmo que pra isso você precise atravessar ruas, trocar de vagão no metrô e num dado momento abandonar um prato semi-feito num restaurante self-service.

Continuar lendo

7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, Rio, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal, vida profissional

Possíveis gimmicks que eu considerei utilizar para definir minha personalidade se aquele lance da fonoaudióloga tivesse dado certo e eu tivesse deixado de gaguejar

volchi-positive-day_saulo-fernandes-e-xanddy

E no começo desse ano eu decidi voltar a fazer sessões de fonoaudiologia, visando resolver o meu decrescente, porém constante, problema de dicção. Não foi uma decisão fácil, não foi uma decisão tomada de forma leviana, não foi uma decisão que durou mais de um mês porque eu tinha que acordar muito cedo e aí eu acabei desistindo. Mas durante esse mês em que fiz as sessões um receio passou pela minha mente: o de, me livrando da gagueira, perder aquele que possivelmente é o meu mais definido e claramente perceptível traço de personalidade (“cara, bebi ontem com o joão” – “qual joão?” – “o moreno” – “hummm” – “o barbudo” – “hummm…” – “o jornalista” – “não tá me dizendo nada” – “o que tem as mãos muito pequenas em proporção aos pés e ao resto do corpo, se você reparar bem” – “ainda não” – “o gago, cara, o gago” – “ah, o gago, cara, grande gago”). Diante da necessidade de, nesse tipo de situação, desenvolver um novo traço marcante de personalidade, cheguei nessas, que foram as minhas cinco melhores ideias.

Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, Rio, situações limite, Vida Pessoal

Medo e delírio no elevador da firma

devil-2010-elevator-montage

Era um final de tarde normal, após um dia normal, de trabalho normal, numa empresa normal. Você se encaminha para o elevador, o andar é o 25, a bolsa carteiro pesa nos ombros, a camisa social amarrotada, o ipod com a playlist que sua namorada montou toca aquela versão de skinny love (amor magrinho) que você gosta. Ele para no 24, ele para no 23, quando ele para no 22 entra um grande número de pessoas. Acontece aquela acomodação natural, pessoas se cumprimentam, se apertam, se reorganizam, você olha o celular pra evitar algum conhecido. Uma descida de elevador normal num dia normal.

Uma senhora se acomoda na sua frente, mochilinha nas costas, você nota algo de diferente. No começo não sabe definir, no começo não sabe explicar, no começo é algo que, assim como o amor numa canção do sorriso maroto, é pra sentir, não pra entender. Mas num dado momento você entende. O sentido certo se manifesta e você percebe: o cheiro tá esquisito. Não pouco esquisito, não o esquisito normal, se acreditarmos que existe um padrão normal para a esquisitice, mas um esquisito berrante, um esquisito atípico dentro de sua própria esquisitice. Em suma, a senhorinha na sua frente está fedendo bastante.

Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, Rio, situações limite, Vacilo

Ortobom é a nova Chilli Beans

sleepwalkwithme

E depois de apenas quatro anos se tornou necessário trocar o colchão. Um pouco porque as pernas se quebraram na mudança, um pouco porque o tecido se desgastou após ser sucessivamente banhado por líquidos coloridos das mais diversas origens, um pouco porque as molas se quebraram devido as diversas vezes em que eu me pendurei na janela para regular manualmente o ar condicionado e deixei meu corpo cair de uma altura de cerca de dois metros dizendo “iupiiiii” no meio da cama.

Diante desse contexto e da necessidade de adquirir não apenas um novo colchão como também uma nova cama, comecei as pesquisas preliminares pela internet, descobrindo rapidamente a complexidade do ramo dos acolchoados, um mundo de valores altos, menções a NASA e tipos de espuma cujo nome é mais longo do que o meu. Mas existe um limite para o quão longe você pode ir pesquisando na internet algo que claramente envolve tato e conforto, e num dado momento precisei ir para as ruas em busca das respostas que procurava.

Continuar lendo

27 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, homens trabalhando, Rio, situações limite, Vida Pessoal

Da necessidade de canais incomuns para escape de frustração em situações de irritação repetitiva

tmnt_cowabunga

Daí que você tem um problema. Não é um problema novo, não é um problema grande, não é um problema dramático, não é um problema inédito, é apenas um problema. Ele já vem de algum tempo, ele já vem consumindo algum esforço, ele já foi comunicado a todas as pessoas com quem você tem contato o bastante para comentar sobre algum problema seu. Com algumas você abordou o problema de forma vaga (“ah, sei como é, também tenho esse problema”), com outros de forma pormenorizada (“então, e por causa disso, disso e disso, isso é um problema, me deixa trazer o retroprojetor, eu fiz umas lâminas”), mas nesse meio tempo o problema persistiu, não foi resolvido, e a duração dele não fez diminuir o seu nível de contrariedade em relação ao problema. Na verdade ele apenas vem aumentando.

Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, Rio, Sem Categoria, Vida Pessoal, vida profissional

Sobre a tia dos patins e uma proposta de relativização do estranhamento no ocidente

Weird_alin_and_old_lady

No meu prédio tem uma senhora que costuma ficar andando de patins, segurando sacolas e falando sozinha numa língua desconhecida toda noite, ali entre as 20h e 22h, circulando exclusivamente entre a área do portão e da portaria, sempre apoiada na grade e olhando pra tudo e todos com cara de surpresa. No começo eu tentava achar justificativas racionais para aquele comportamento – a violência no rio, a dificuldade inerente ao processo da patinação, o fenômeno de pentecostes no qual o espírito santo desceu nos apóstolos e os caras saíram por aí falando outras línguas, o que pode parecer forçado pra você mas eu fiz crisma e eu também acreditava no teste de fidelidade do joão kléber, então qual o problema, certo? – mas com o passar o tempo e a repetição constante do ritual eu acabei aceitando a realidade de que, como bem considerou um amigo quando ciente do evento, se tratava apenas de uma tia esquisita pra cacete.

Continuar lendo

7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, Rio, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal