Arquivo da categoria: romantismo desperdiçado

Tipos #12, #13, #14 e #15 de brigas de casal

paulofoul

#12 – O você tá levando isso muito a sério : Vocês se apaixonaram exatamente por causa das suas diferenças. O jeito sério dela complementa a sua fanfarronice, a sua paciência a ajuda a lidar com o próprio nervosismo, você gosta só de creme, ela adora chocolate e morango, ela precisa de dois travesseiros, você desde garoto dorme sem nada debaixo da cabeça. E isso seria lindo não fosse o fato de que você considera entrar no cinema depois que a sessão começa um sacrilégio, ela considera uma possibilidade, você considera uma toalha molhada debaixo da cama um descuido, ela considera um ato contra a pátria e a família, você considera brigar por causa disso bobagem, ela quer saber quem foi que você chamou de bobo, você diz que ela tá levando isso muito a sério, ela pergunta se então as coisas importantes pra ela são brincadeira pra você, a última coisa de que você se lembra antes de perder a consciência é de ver aquele joystick de xbox voando na sua direção.

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Simples situações românticas da vida adulta que não são nem tão simples, nem tão românticas e nem tão adultas

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a data é comemorativa, o momento é bonito, a namorada já alertou que a estante está lotada e não parece uma boa ideia você continuar dando livros de presente. ela mencionou que gosta de massagens, você andou lendo sobre o valor das experiências em comparação com os presentes materiais, a clínica de spa parecia bonita no site. você pensou em reservar só pra ela, achou que seria pouco romântico, decidiu reservar pros dois pra não ficar jogando candy crush na sala de espera. fez a pesquisa, envolvia massagens, envolvia banhos relaxantes, envolvia pétalas de rosa, você leu em algum lugar que pétalas de rosa são uma boa, mulheres curtem pétalas de rosa, se por exemplo você matar alguém e chegarem duas policiais femininas você se cobre com pétalas de rosa. telefonou antes perguntando se precisava levar alguma coisa, clínica disse “não precisa levar nada, tá tudo sob controle, apenas pode vir”, chega o dia, você vai. chegando lá o clima é esquisito, você na sala de espera vê um gringo passando de toalha, ele não parece ter nada por baixo, você fica pensativo, você não manja de spa, você deveria ter pesquisado melhor.

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Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico. Continuar lendo

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

arrested

Como todos nós sabemos, o processo de comunicação humana é sempre algo de tortuoso. Entonações mudam o sentido de frases, sensações são as vezes complicadas demais para descrever, palavras podem ter um valor simbólico absolutamente diverso entre duas pessoas diferentes. Às vezes não sabemos o que queremos dizer, às vezes não conseguimos entender o que os outros dizem, às vezes sabemos o que queremos dizer mas não podemos, às vezes começamos uma frase e a pessoa completa mas ela não completa o que nós queríamos dizer e então tentamos corrigir mas ela completa errado de novo e aí completamos a frase dela e então viramos o cão do porta-mala. Como eu disse, é um processo complicado.

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3 situações simples em que o limite de caracteres no sms do seu celular permite que sua namorada te considere um cara bem mais normal e equilibrado do que você efetivamente é

#1

Mensagem que você recebeu: “Ei, tudo bem aí no trabalho?”

Primeiro rascunho mental da mensagem: “Não. Assim, na verdade tá tudo péssimo. Eu apenas não gosto daqui, sabe? As pessoas, o trabalho, as reuniões, os relatórios, a máquina de café que sempre espirra em mim e olha que eu nem bebo café e é como se ela praticamente me perseguisse pelo corredor pra me sujar. Eu apenas odeio isso. Odeio. Na verdade eu não quero mais ficar. Sério, eu decidi, eu vou embora. Eu vou largar essa merda. Eu não preciso disso, certo? Eu posso fazer outras coisas. Foda-se essa porra, eles que se danem. Eu tenho 27 anos, eu tenho talentos, eu posso arrumar outro emprego em outro lugar. Você foge comigo? Eu tava pensando em alguma coisa com praia, um litoral aí mais pro nordeste. Coloca biquínis na mala e leva aqueles vestidinhos que você usou nas férias. Eu juntei algum dinheiro e acho que a gente consegue se ajeitar. Eu apenas não suporto mais um dia aqui nesta porra, sabe? Você acha que consegue pilotar um catamarã? É assim que se chama aquele barco? Eu posso fritar peixes. Eu te amo e quero fugir com você mesmo que seja pra nós dois virarmos representantes jequiti. Sempre gostei daquele programa com o Sílvio Santos e a roda, sabe? – Ps: “Se chama ‘Roda a Roda’ o programa, achei o nome engraçado”.

Mensagem que você envia: “Ah, tá meio chato, e por aí, como ta?”

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Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIII

Dentre todas as vantagens normalmente subestimadas de um relacionamento estável monogâmico, que vão desde ter com quem rachar aquele milk-shake enorme que você pediu por engano e nunca mais precisar entrar numa festa onde toque David Guetta, passando por finalmente saber o que responder quando aquela sua tia chata vem perguntar quando você vai arrumar uma namorada até ter com quem desabafar quando seu trabalho atinge o grau 19 de absurdo e você fica preso até o final da noite no escritório preparando um fluxograma para notas de falecimento, umas das principais é o fato de que um relacionamento te dá direito as pequenas coisas. Sim, elas, as pequenas coisas, os verdadeiros pontos de diferenciação entre um relacionamento e apenas uma série de ficadas constantes com a mesma menina. Mas vamos por partes. Continuar lendo

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Mini-conto #9: “O eterno não dá”

Da primeira vez ele reparou nela, assim que chegou no bar. Ele estava voltando do trabalho, com três amigos e ela estava comemorando o aniversário da irmã. Ele gostou do jeito como ela sorria, achou bonitinha a forma como ela mexia no cabelo, sorriu quando viu que ela era a única bebendo coca-cola numa mesa cheia de tequilas. Ela nunca ficou sabendo, mas foi o melhor amigo dele que vomitou no pé dela naquela noite, logo na saída do banheiro.

Na segunda vez ela reparou nele. Era uma festa, e os dois estavam na fila do bar, ela queria uma cerveja e ele estava planejando pedir um mojito. Quando chegou a vez dele, olhou pra trás, viu a garota e perguntou se ela queria pedir primeiro. Ela aceitou e saiu achando que ele era um cara estranhamente educado, mas bem bonitinho. Ele respirou aliviado porque sempre ficava sem graça de pedir mojitos na frente de garotas. Mojito era meio bebida de veadinho.

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Mini-conto #8: “Aquele que…”

E era um sábado, por volta das oito. Eles estavam na cama, ela encostada no peito dele, ele lendo uma revista antiga do Batman.

“Você sabe que relacionamentos são coisas complexas, certo?”

“Humm…o que?”

“Relacionamentos. Você sabe que são coisas complexas, certo? Cheios de nuances, cheios de detalhes. Certo?”

“Humm…certo…”

“E que, assim, você não pode, sei lá, reduzir, resumir, sintetizar, tudo que acontece dentro de um romance, de um relacionamento, desse evento que é…sei lá…único, numa frase, numa sentença. Não dá pra avaliar, qualificar, descrever toda essa experiência que é estar com alguém com um resumo de duas linhas, não é?” Continuar lendo

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXII

Eu nunca gostei muito de conviver com ex-namorados de atuais namoradas. Não, não que eu seja do tipo ciumento que nem gosta de ouvir uma garota falar de um ex ou se sente inseguro e passivo-agressivo sempre que assuntos do passado vem à tona – eu posso falar dos meus tempos de colégio militar durante horas mas isso não quer dizer que eu vá sair correndo pra comprar uma boina, por exemplo – e também não é o caso de eu ter qualquer problema com a idéia de uma namorada conviver ou ter uma amizade com um ex-namorado, desde que termos como “colorida”, “recaída”, “eu tinha bebido” ou “com esse cabelo novo ele tava parecendo você” não apareçam subitamente na discussão. Been there, done that, sei que não é bacana.

Na verdade o grande problema com os ex-namorados da sua namorada, e que gira num campo totalmente conceitual e quase nada pessoal, é o de que eles te lembram de um fato desagradável, nada animador e no qual você definitivamente não quer pensar quando está com alguém: o de que você provavelmente também vai ser um ex-namorado, mais cedo ou mais tarde.

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