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Sobre facebook, eleições e a nefasta ascensão do amigo do seu amigo

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Todos nós sabemos, desde pequenos, que a discussão política pode trazer à tona o que existe de pior no ser humano. Um assunto claramente racional e merecedor de profunda reflexão analítica, mas que é sempre abordado da maneira mais passional e pessoal possível – “enfia o crescimento lento do pib no seu cu, aqui é dilma, porra!!!!” – a discussão política padrão costuma servir menos para trocar opiniões, enriquecer debates, ajudar a formar posições, do que para gerar brigas na mesa de jantar, garantir constrangimentos no trabalho, separar casais antes apaixonados (“sem sexo até você entender que apenas o psdb pode e vai resolver os problemas do brasil”).

E outra coisa que temos certeza faz um certo tempo é do poder da internet para potencializar as coisas. Seja pornografia, seja o acesso a livros clássicos, seja o conceito de lip sync, não há nada que a internet não consiga tocar e elevar até a sua enésima potência, explorando as qualidades, agravando os defeitos, tornando muito melhor ou muito pior do que poderia ser.

Portanto não foi surpresa pra ninguém o resultado da combinação entre uma eleição disputada como a que passou e um período de grande participação das redes sociais como temos hoje. O resultado foi muito chato. Assim, bem chato mesmo.

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Mais duas breves inseguranças causadas por filmes que eu vi faz um tempinho

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# começou quando você viu aquela comédia romântica com o rapaz de harry potter. comédia romântica só fofura, comédia romântica só carinho, comédia romântica é mocinha e mocinho, aquela torcida, não tem grande surpresas. quinze minutos e você não tá curtindo o mocinho, meia hora e você tá simpatizando com o namorado da mocinha, uma hora de filme e você tá torcendo contra o casal, manifestando em voz alta que romance é mais que momento, que é fácil ser romântico sem as contas pra pagar, que estabilidade também é importante na vida. e aí você nota que na comédia romântica da vida você claramente não é o mocinho mas sim o namorado da mocinha. você não faz grandes gestos, você pede comida em casa, você defende rotina, você gosta do restaurante de sempre, você não é do tipo que leva flores mas sim do tipo que diz pra não esquecer a notinha fiscal do outback porque depois dá pra pegar petisco grátis da próxima vez (se possível as asinhas porque você curte asinha). você fica bem pensativo. você não gosta de imaginar sua namorada perto de caras parecidos com o adam sandler agora. você tá preocupado. comédia romântica com o rapaz de harry potter te deixou preocupado.

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Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

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Uma coisa comum de ouvir por aí é que vivemos numa cultura da mediocridade. As pessoas não querem ver arte, as pessoas querem ver Big Brother, as pessoas não querem ouvir boa música, as pessoas querem Justin Bieber, as pessoas não querem grandes filmes, elas querem imensas franquias com carros que viram robôs. E ainda que existam ótimos argumentos tanto para questionar se não estamos realmente nos aproximando de um menor denominador comum cultural quanto para defender a graça de carros que viram robôs – sério, são carros, que viram robôs, você precisa admitir que isso é legal, vai – um aspecto dessa sensação geral de irritação sempre me pareceu muito curioso e ao mesmo tempo pouco abordado. O motivo disso nos irritar tanto.

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Doenças da modernidade: caso #3, a “lesão físico-cognitiva”

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A lesão físico-cognitiva: Nome dado a um grupo de lesões de pequena e média gravidade que tem como principais traços em comum o fato de que a) são infligidas pela vítima a si mesma, de maneira involuntária e b) o dano psicológico gerado por elas é sempre tão ou mais sério do que o dano físico. Isso acontece porque sendo quase sempre a lesão resultado de um descuido ou distração, a vítima sofre tanto com a dor física da contusão quanto com a humilhação de saber que é ela mesma a responsável direta ou indireta pelo ferimento, levando a momentos de desequilíbrio emocional, auto-recriminação ou apenas de questionar a própria capacidade de residir sozinha em um ambiente onde também estão presentes lâminas afiadas e caixas metálicas de onde sai fogo.

Abaixo seguem alguns dos mais comuns exemplos de lesão físico-cognitiva:

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5 plot twists que temi nos 15 minutos finais do filme “garota exemplar”

Celebrity Sightings In Los Angeles - October 30, 2013

plot twist #78 – O que parecia ser um plano de Nick Dunne para se livrar de Amy Dunne e que depois viemos a saber que era na verdade um plano de Amy Dunne para se livrar de Nick Dunne era na verdade um plano de Nick Dunne para que Amy Dunne achasse que tinha conseguido colocar em prática seu plano para se livrar de Nick Dunne quando na verdade Nick Dunne é que o tempo todo havia planejado se livrar de Amy Dunne fazendo com que ela voltasse com Desi Collings, que estava no plano junto com Nick pois queria Amy Dunne de volta mas não sabia que Nick esperava que ele fosse assassinado por Amy e Amy fosse presa.

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Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

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E tinha um casal brigando no mercado. Ela dizia que ele era um canalha, ele falava que ela estava sendo uma vaca, ela tentava pegar o celular da mão dele, ele se defendia com o que parecia ser um pacote amassado de pão integral, o carrinho balançando perigosamente entre os dois, uma bandeja de ovos vermelhos ali prestes a cair.

No entorno o clima era de constrangimento. Idosos desviavam o olhar, mães puxavam seus filhos para o lado, outros casais pareciam estranhamente mais interessados do que de costume no processo de escolha de congelados pro jantar – “mas amor, olha esse aqui, esse tem brócolis também” – e eu perguntava para um repositor por que não tinha mais maçã da turma da mônica no que poderia parecer uma tática de distração mas era uma dúvida genuína, já que eu sou péssimo escolhendo fruta, as maçãzinhas da turma da mônica sempre vinham muito gostosas e ensacadinhas, era bem prático, fiquei chateado de não achar.

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Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país por causa de trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois conhecidos foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXV

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Poucas coisas são mais complicadas quando se trata de relacionamentos humanos do que conseguir dimensionar corretamente a impressão que você deixou em alguém. Não existem indicadores claros, não existem regras de proporcionalidade, não existe nenhuma sistemática que oriente ou regule o quanto você lembra de alguém em relação ao quanto essa pessoa se lembra de você.

Pessoas que você se esforçou por anos pra esquecer em quinze dias nem lembravam mais o seu nome, aquele telefonema que você lutou contra si mesmo durante meses para não fazer mas acabou realizando num momento de bebida e fraqueza é respondido com um “mas marcos? qual deles? o da academia?” e você ficou sabendo através de amigos que aquela garota que na sua cabeça está indexada como “a garota que foi embora” se refere a você em eventos sociais como “o carequinha que falava engraçado”.

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Três ideias para programas de televisão que eu estou considerando se ofereço ou não para o canal Multishow

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Sentimento e Consideração com João Luis
– Um programa de entrevistas onde eu recebo celebridades para um bate papo descontraído com o plot twist de que meia hora antes das gravações tanto eu quanto a equipe e os entrevistados começamos a beber copos de cerveja e shots de tequila. Com isso o que antes era um papo superficial sobre carreira e o mundo do entretenimento se transforma numa conversa verdadeira sobre sentimentos profundos, amizade, gritos de “te considero pra caralho” e “se eu fosse travesti, eu queria que meu nome fosse joycy, com dois y, porque joy é alegria, sabe?”. No segundo bloco entraríamos numa profunda espiral de sentimentos, que envolveria telefonemas para a ex-namorada do convidado, ideias do tipo “sério, a gente tem que colocar fogo em alguma coisa” e culminaria num quadro externo em que sairíamos do estúdio pra confrontar meu pai sobre meus traumas de infância, talvez gritando com ele pelo interfone e dizendo “você nunca me amou de verdade”. No terceiro bloco retornaríamos ao estúdio, bateria a ressaca, o clima ficaria péssimo, ninguém nunca mais ia se falar. Não sei ainda se teria uma banda acompanhando ou não.

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Pequenas neuroses instáveis de relacionamentos de maior estabilidade

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o problema da divisão de problemas – e ela é a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, e isso inclui seus problemas. mas ao mesmo tempo, por ela ser a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, você sente um certo ímpeto de não gastar o tempo de vocês dois – que poderia ser gasto falando sobre toda e qualquer coisa – falando sobre os seus problemas. mas uma parte importante de ter alguém com quem você quer falar sobre toda e qualquer coisa é dividir os problemas, e se você não falar pra ela sobre esses problemas, se você omitir essa parte, ela deixa de ser a pessoa com quem você pode e quer falar sobre toda e qualquer coisa. e ela provavelmente vai ficar chateada contigo. e aí nessa divisão entre a vontade de falar com ela sobre as coisas que te matam de raiva mas não querer jogar em cima dela as coisas negativas da sua vida, você acaba criando frases como “hoje eu tive o dia mais merda de bosta que um maldito de um corno mal-pago pode ter naquela caralha daquela empresa de merda que só tem filho da puta…” e quando ouve o silêncio preocupado do outro lado da linha, complementando com “…mas de um jeito legal, sabe? tipo, não tão ruim e tal. e quando eu disse caralha eu queria dizer ambiente propenso ao crescimento, eu sempre me confundo com essas palavras”.

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