Arquivo da categoria: séries canceladas

Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país por causa de trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois conhecidos foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

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Algumas grandes pessoas imaginárias que em algum dado momento você inventou para fugir de algum compromisso, convenção social ou evento familiar, devido ao fato de que você é muito tímido para dizer não e inseguro demais para contrariar abertamente seus amigos e conhecidos

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a garota muito gata em quem você tava chegando: eles insistiram demais. você disse que não no bar, mas ele perguntaram de novo no outro dia, você falou que não podia pelo facebook mas te mandaram mensagem no whatsapp, você desligou o celular mas telefonaram no fixo, você tirou o fixo do gancho e no mesmo instante a campainha tocou e era só o cara do delivery mas mesmo assim. ficou o susto e a comidinha chinesa desceu com gosto de terror. você já tinha tentado ser sincero antes mas não tinha rolado – “quem fica em casa vendo buffy num sábado a noite, cara, que isso”. você já tinha tentado mentiras mais sutis mas não tinha rolado – “a gente não se importa se o campeonatinho do modo ultimate do fifa que vale mais pontos acaba em doze horas, fera”. você já tinha apelado até mesmo para desculpas que numa época mais antiga tinham dado certo, mas sem sucesso – “tu disse que sua mãe tava doente mas ela tá postando no facebook foto na praia, joão, que doença é essa?”. mas nada disso funcionou e você decidiu apelar. “cara, não posso, vou sair com uma gostosa” – “opa, a gente conhece?” – “não…não conhece…ela…ela…é de macapá. tá no rio de passagem, tem que ser hoje” – “e tem amiga?” – “não tem, nunca teve…quer dizer, veio sozinha” – “que beleza, se rolar depois encontra com a gente então”. você fica em casa mas gasta 2 horas da sua noite escrevendo uma espécie de bio da menina imaginária, envolvendo interesses (“gosta de cinema europeu, cachaça da roça, programa roletrando”), passado (“trancou a faculdade de sociologia no meio pra mochilar pelo estado de goiás”) e hábitos (“uma vez ela quis chutar um chihuahua e eu tive que impedir”). no dia seguinte ninguém te pergunta nada sobre o encontro imaginário e você se sente um pouco rejeitado.

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Grandes pequenos momentos conversacionais presenciados em aeroportos #67, #68 e #69

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#67 – o  telefonema ostentação:  quase sempre acontece numa fila. Pode ser a fila do embarque, poder ser a fila pra despachar mala, pode ser a fila pro detector de metais. Alguém na sua frente, ou atrás de você está falando ao celular. Mas não falando ao celular como você costuma estar num aeroporto, se despedindo da sua mãe, avisando pra namorada que vai chegar mais tarde. Não, essa pessoa está falando ao celular coisas importantes, ela está decidindo problemas, ela está tomando decisões. E ela está fazendo isso num volume muito alto, quase sempre mencionando o quão importantes são essas decisões, o quão críticos são esses problemas, o quão importantes são essas coisas importantes, além de sempre destacar, num volume mais alto ainda, o destino da viagem e quanto tempo ela vai ficar nesse lugar. Exemplo ilustrativo do telefonema ostentação: “Não, Selma, DIRETORA DE ESTRATÉGIA, eu não posso falar agora porque O PRESIDENTE me mandou nessa VIAGEM PARA MILÃO, onde estarei COMANDANDO A NEGOCIAÇÃO com os italianos, DURANTE SETE DIAS. E não, meu telefone IPHONE BEM CARO não tá com problemas de volume, por que você tá perguntando isso?”

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3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

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O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continuar lendo

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Isso é o que está acontecendo na minha vida agora

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Essa terça-feira, eu estava no trabalho. Um pouco cansado, um bocado chateado, meu dia estava sendo ruim. Aí o telefone tocou.

“Alô, boa tarde”

“Boa tarde, tô falando com o João?”

“Sim, é o João. Em que eu posso ajudar?”

“Aqui é o Joaquim, do projeto. Tá sabendo da reunião?”

“Opa. Que reunião? Que projeto?”

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Mini-conto #15 – Diabolyn

wildfireEm minha defesa eu preciso dizer que fui pego de surpresa.

Era uma viagem de reconciliação, sabe? Eu tinha pisado na bola, ela tinha sido muito dura, passamos uns dias sem se falar. Eu telefonei primeiro, ela me ignorou, eu tive que telefonar de novo, mandei mensagens. Ela não queria me ver, eu tive que telefonar pra uma amiga, descobri que não era tão minha amiga. Tive que esperar na porta da casa dela, levei flores, estava chovendo, elas chegaram amassadas. Ela demorou pra voltar e eu peguei no sono na porta, só acordei com ela tentando entrar sem eu perceber.

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Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

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#Você organiza pelada e pelada é só amigos, pelada é só alegria. Futebol society, campinho gramado, barzinho do lado. Dois timinhos de seis, espaço pra trabalhar a bola, pensar na tranqüilidade, tocar pra quem tá mais bem posicionado, desenvolver a malícia desportiva. Timinho de fora pra manter competitividade, mas não completo, rola par ou ímpar pra ver quem fica. Durante dois meses tá de boa. Mês seguinte não tem timinho de fora, mas tá tranqüilo,corre mais, ainda que com menos seriedade porque sem sair você sabe como malandro fica. Um mês depois começa a ficar complicado de dar doze, tem que chamar galera da pelada anterior pra completar, mas tá de boa, é coisa do momento, janeiro é foda, geral de férias. Aí na outra semana só tem dez, maior correria, mas a pelada rola. Aí numa quarta chove e só tem seis, seis é foda. Na outra vão cinco, cinco é sacanagem. Falta dinheiro pra quadra, pelada mia, você fica puto. Manda email reclamando e pedindo pra cada um levar um amigo, pra pelada não morrer, email emocionado, usa a palavra “comprometimento” em itálico sublinhado. Chega quarta, cada um leva seis amigos. Pelada lotada, oito times de fora. Você pensa que agora tá bacana. Galera sai puta porque tinha gente demais e não rolava de jogar. Você pede pra galera confirmar no site antes de ir, pra isso não acontecer mais. Na outra semana tem seis pessoas. Depois tem cinco. Cinco é sacanagem. Você acaba com pelada. Organiza outra pelada. Outra pelada é só amigos, outra pelada é só alegria. Um dia você chega lá e só tem seis caras. Seis é foda.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

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Como todos nós sabemos, o processo de comunicação humana é sempre algo de tortuoso. Entonações mudam o sentido de frases, sensações são as vezes complicadas demais para descrever, palavras podem ter um valor simbólico absolutamente diverso entre duas pessoas diferentes. Às vezes não sabemos o que queremos dizer, às vezes não conseguimos entender o que os outros dizem, às vezes sabemos o que queremos dizer mas não podemos, às vezes começamos uma frase e a pessoa completa mas ela não completa o que nós queríamos dizer e então tentamos corrigir mas ela completa errado de novo e aí completamos a frase dela e então viramos o cão do porta-mala. Como eu disse, é um processo complicado.

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Mini-conto #14 – “Pilates”

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Eu gosto de pensar que era uma noite chuvosa. Que você me esperou dormir e me deu um beijo na testa antes de pegar as suas coisas. Separou algumas roupas às pressas se aproveitando do meu sono pesado, não achou sua mala, pegou uma das minhas. Lá fora fazia frio. Você hesitou antes de abrir o portão e enquanto parava um táxi pensou em voltar. Mas vendo as luzes se aproximarem teve certeza que era a decisão certa. Enquanto ele colocava suas coisas no porta-malas você olhou uma última vez pra luz acesa na sala do nosso apartamento e timidamente sorriu. Então você foi embora.

Gosto de acreditar que foi aos poucos. Não acho que nenhum amor comece com um estalo ou algum romance termine com uma explosão. Sempre duvidei de big bangs emocionais e achei que essas coisas acontecessem aos poucos. Da mesma forma que a gente começou durante semanas, em cada encontro, em cada beijo, em cada noite em claro na sala, a gente deve ter terminado durante meses. Em cada telefonema curto, em cada data esquecida, em cada manhã sem tempo, eu devo ter te perdido um pouquinho sem nem perceber. Acho que não foi você que terminou, nós já tínhamos terminado sozinhos. Você só foi a primeira a perceber.

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Recentes adendos ao pequeno dicionário de frustrações cognitivas

benwyat

#a empolgação não contagiante – e você descobriu algum seriado/livro/filme e ele é espetacular. é a série que superará sopranos, é o livro que te fez achar guerra e paz uma bula de remédio, é o filme que fez cidadão kane pagar comédia. e você está absolutamente empolgado, desproporcionalmente fascinado, anormalmente intoxicado de alegria, de maneira que você gostaria de dormir com aquele livro, casar com aquele filme, oferecer orgasmos múltiplos para aquele box de dvd sem nem mesmo precisar daqueles 20 minutinhos dormindo no meio porque ninguém é de ferro e você fica todo suado também então daí é sempre bacana tomar um banho. e claro, você também quer espalhar essa boa nova para o máximo de pessoas possível, sejam eles amigos, familiares, colegas de trabalho ou apenas estranhos que porventura tiverem mantido contato visual contigo no metrô por mais de 3 segundos.

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