Arquivo da categoria: teorias

Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

jammed

#o solução retroativa: e aconteceu um problema. é daquele problema que fica na zona cinza entre o problema grave, a perda pessoal, e o problema pequeno, a inconveniência da vida. o tipo de problema que poderíamos caracterizar como “problema meio foda”. seu computador pifou com a sua monografia dentro, perderam sua mala no aeroporto com suas roupas, estourou feio o cano do seu banheiro, chegou na cidade e o hotel alega que sua reserva não tá constando. você tá baqueado, tá chateado, destino te estapeou com a luva áspera da mágoa surpresa, mas você ainda acredita no semelhante e, visando obter o máximo de retorno possível, faz aquele post no facebook. “alguém sabe de um cara que recupera hd?”, “alguém já passou por isso com a tam?”, “conhecem encanador bom na zona sul?”. é um pedido de coração aberto, é uma solicitação focando nos amigos, é aquela mão de bytes estendida no cyberespaço em busca de um braço forte e ombro amigo que indique alguém que não cobra 300 reais só pela visita na zona sul, você compra as peças. surgem os amigos. um diz que vai ver com um primo que passou a mesma coisa, outro te recomenda um links, vários apertam no botão “solidário com sua dor ainda que não possa ajudar” do facebook.

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Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

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Uma coisa comum de ouvir por aí é que vivemos numa cultura da mediocridade. As pessoas não querem ver arte, as pessoas querem ver Big Brother, as pessoas não querem ouvir boa música, as pessoas querem Justin Bieber, as pessoas não querem grandes filmes, elas querem imensas franquias com carros que viram robôs. E ainda que existam ótimos argumentos tanto para questionar se não estamos realmente nos aproximando de um menor denominador comum cultural quanto para defender a graça de carros que viram robôs – sério, são carros, que viram robôs, você precisa admitir que isso é legal, vai – um aspecto dessa sensação geral de irritação sempre me pareceu muito curioso e ao mesmo tempo pouco abordado. O motivo disso nos irritar tanto.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXV

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Poucas coisas são mais complicadas quando se trata de relacionamentos humanos do que conseguir dimensionar corretamente a impressão que você deixou em alguém. Não existem indicadores claros, não existem regras de proporcionalidade, não existe nenhuma sistemática que oriente ou regule o quanto você lembra de alguém em relação ao quanto essa pessoa se lembra de você.

Pessoas que você se esforçou por anos pra esquecer em quinze dias nem lembravam mais o seu nome, aquele telefonema que você lutou contra si mesmo durante meses para não fazer mas acabou realizando num momento de bebida e fraqueza é respondido com um “mas marcos? qual deles? o da academia?” e você ficou sabendo através de amigos que aquela garota que na sua cabeça está indexada como “a garota que foi embora” se refere a você em eventos sociais como “o carequinha que falava engraçado”.

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Pequenas neuroses instáveis de relacionamentos de maior estabilidade

troy

o problema da divisão de problemas – e ela é a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, e isso inclui seus problemas. mas ao mesmo tempo, por ela ser a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, você sente um certo ímpeto de não gastar o tempo de vocês dois – que poderia ser gasto falando sobre toda e qualquer coisa – falando sobre os seus problemas. mas uma parte importante de ter alguém com quem você quer falar sobre toda e qualquer coisa é dividir os problemas, e se você não falar pra ela sobre esses problemas, se você omitir essa parte, ela deixa de ser a pessoa com quem você pode e quer falar sobre toda e qualquer coisa. e ela provavelmente vai ficar chateada contigo. e aí nessa divisão entre a vontade de falar com ela sobre as coisas que te matam de raiva mas não querer jogar em cima dela as coisas negativas da sua vida, você acaba criando frases como “hoje eu tive o dia mais merda de bosta que um maldito de um corno mal-pago pode ter naquela caralha daquela empresa de merda que só tem filho da puta…” e quando ouve o silêncio preocupado do outro lado da linha, complementando com “…mas de um jeito legal, sabe? tipo, não tão ruim e tal. e quando eu disse caralha eu queria dizer ambiente propenso ao crescimento, eu sempre me confundo com essas palavras”.

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Sobre o terror primitivo do falo conceitual voador

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Ainda que poucas pessoas costumem notar, de todos os xingamentos e praguejares existentes na língua portuguesa – uma língua rica em possibilidades de ofensas, que vão desde menções a genitais peludos como forma de extravasar raiva até informações sobre as opções vocacionais da mãe do outro como meio de ofensa – um dos mais graves, aterrorizantes e sinistros é o interiorano, comum e primariamente inocente “caralho de asa”.

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Algumas grandes pessoas imaginárias que em algum dado momento você inventou para fugir de algum compromisso, convenção social ou evento familiar, devido ao fato de que você é muito tímido para dizer não e inseguro demais para contrariar abertamente seus amigos e conhecidos

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a garota muito gata em quem você tava chegando: eles insistiram demais. você disse que não no bar, mas ele perguntaram de novo no outro dia, você falou que não podia pelo facebook mas te mandaram mensagem no whatsapp, você desligou o celular mas telefonaram no fixo, você tirou o fixo do gancho e no mesmo instante a campainha tocou e era só o cara do delivery mas mesmo assim. ficou o susto e a comidinha chinesa desceu com gosto de terror. você já tinha tentado ser sincero antes mas não tinha rolado – “quem fica em casa vendo buffy num sábado a noite, cara, que isso”. você já tinha tentado mentiras mais sutis mas não tinha rolado – “a gente não se importa se o campeonatinho do modo ultimate do fifa que vale mais pontos acaba em doze horas, fera”. você já tinha apelado até mesmo para desculpas que numa época mais antiga tinham dado certo, mas sem sucesso – “tu disse que sua mãe tava doente mas ela tá postando no facebook foto na praia, joão, que doença é essa?”. mas nada disso funcionou e você decidiu apelar. “cara, não posso, vou sair com uma gostosa” – “opa, a gente conhece?” – “não…não conhece…ela…ela…é de macapá. tá no rio de passagem, tem que ser hoje” – “e tem amiga?” – “não tem, nunca teve…quer dizer, veio sozinha” – “que beleza, se rolar depois encontra com a gente então”. você fica em casa mas gasta 2 horas da sua noite escrevendo uma espécie de bio da menina imaginária, envolvendo interesses (“gosta de cinema europeu, cachaça da roça, programa roletrando”), passado (“trancou a faculdade de sociologia no meio pra mochilar pelo estado de goiás”) e hábitos (“uma vez ela quis chutar um chihuahua e eu tive que impedir”). no dia seguinte ninguém te pergunta nada sobre o encontro imaginário e você se sente um pouco rejeitado.

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Por uma curta categorização das amizades e derivados com os quais a gente meio que não sabe lidar direito

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a garota de quem você ficou amigo com a intenção de “pegar” mas acabou nunca “pegando” e agora tem namorada e não vai mais “pegar” – no começo era tudo físico. o bar era lotado, era amiga do amigo de uma amiga, os olhares se encontraram, aquela troca de palavras que fingia simpatia e interesses em comum mas era na verdade apenas a versão conversinha da introdução instrumental de uma música do r. kelly. um precisou sair mais cedo, o outro disse pra procurar no facebook. se adicionaram, trocaram uma ou outra mensagem, agendas não batiam, datas nunca coincidiram e no meio dessa adorável confusão você conheceu sua namorada. bang. interesses repensados, atenção total e completamente redirecionada e nos últimos anos você apenas não deletou a menina no facebook e no twitter por um certo senso de culpa e uma ideia de que seria meio canalha descartar uma pessoa apenas porque não tem mais intenção de fazer sexo com ela. nesse instante ela está postando um texto sobre como votar 0000 nas eleições vai obrigar o brasil a voltar pra monarquia e você está se perguntando como tem gente que reclama da monogamia.

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Tipos #12, #13, #14 e #15 de brigas de casal

paulofoul

#12 – O você tá levando isso muito a sério : Vocês se apaixonaram exatamente por causa das suas diferenças. O jeito sério dela complementa a sua fanfarronice, a sua paciência a ajuda a lidar com o próprio nervosismo, você gosta só de creme, ela adora chocolate e morango, ela precisa de dois travesseiros, você desde garoto dorme sem nada debaixo da cabeça. E isso seria lindo não fosse o fato de que você considera entrar no cinema depois que a sessão começa um sacrilégio, ela considera uma possibilidade, você considera uma toalha molhada debaixo da cama um descuido, ela considera um ato contra a pátria e a família, você considera brigar por causa disso bobagem, ela quer saber quem foi que você chamou de bobo, você diz que ela tá levando isso muito a sério, ela pergunta se então as coisas importantes pra ela são brincadeira pra você, a última coisa de que você se lembra antes de perder a consciência é de ver aquele joystick de xbox voando na sua direção.

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Registros de uma vida na sociedade do fail

lasier

Como qualquer um sabe, nunca antes a humanidade viveu num ambiente em que é tão fácil deixar para trás registros e memórias de si mesmo. Se os homens pré-históricos deixavam pinturas em cavernas, os povos antigos desenvolveram alfabetos e criaram os primeiros registros literários, e na era moderna chegamos a produção em larga escala de livros, ao registro em filme e foto, a acumulação de dados, hoje vivemos num período em que uma pessoa média pode fazer uso de um sem número de formatos para registrar seus atos. Temos fotos no instagram, temos vídeos no youtube, temos redes sociais onde podemos narrar cada passo do nosso dia, sendo limitados apenas pelo nosso próprio senso de constrangimento e pela volume de pessoas replicando “jovem, qual é a necessidade disso?” na nossa timeline. Continuar lendo

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Primeira lei termodinâmica da zoeira

neildegrasse

Quando é iniciada a escalada da zoeira, por mais que um fator externo tente interrompê-la, ela só chegará ao final quando todo o seu processo lógico for concluído e ela tiver atingido todas as suas conseqüências naturais. Ou seja: é impossível parar a zoeira, ela só acaba quando termina.

Resultado de observações práticas da zoeira no cotidiano, a primeira lei da zoeira trata da impossibilidade da zoeira de ser contida, controlada ou mesmo interrompida eficazmente. Além disso, a zoeira, diante de qualquer tentativa de interrupção, tende a não apenas retomar seu curso na maior velocidade possível como também a retornar com força proporcional a que havia sido usada para contê-la em primeiro lugar.

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