Arquivo da categoria: teorias

Não culpe a internet por não falar mais com a sua tia

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Depois de passarmos um bom tempo defendendo que a tecnologia iria resolver todos os nossos problemas – “viagens espaciais, vida eterna, queijo em spay!”- a tendência mais recente é falar que a informatização, os celulares e a internet são os grandes culpados por tudo. Nossos jovens são violentos por causa dos videogames, nossas famílias são distantes por causa dos celulares, nossos relacionamentos estão em frangalhos por conta dos computadores.

E de todas essas teorias vagamente apocalípticas, uma das que mais me intrigou sempre foi a ideia de que a evolução dos meios de comunicação e o desenvolvimento da internet estariam servindo para nos afastar das pessoas. Por causa do facebook não fazemos amizades, por causa do skype não saímos mais, por causa do twitter não conversamos de verdade, por causa do orkut gastamos nosso dinheiro com moedas para o jogo da fazendinha. E essa teoria sempre me fascinou porque, se você pensar bem, ela obviamente não passa de uma desculpa esfarrapada.

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Das palavras de apoio que numa análise mais fria não te apóiam tanto assim

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Com uma certa freqüência durante nossas vidas nos deparamos com situações em que estamos buscando um objetivo que não é considerado necessariamente fácil ou para o qual não nos sentimos completamente preparados. A carreira que oferece poucas vagas, a garota que nunca deu muita brecha, o apartamento na zona sul carioca cuja fila de visitação é maior do que a do louvre. E nessas horas nossa confiança muitas vezes pode fraquejar. Achamos que não somos bons o bastante pro emprego, que não vamos saber como falar com a garota, que não vamos nunca ser capazes de conseguir os 16 fiadores, pagar os 12 meses de caução e entregar o mapeamento de DNA que a imobiliária pediu (“e é bom trazer rápido porque alguém já fez uma proposta e trouxe a endoscopia em HD pra gente analisar”)

E é nesses momentos que muitas vezes precisamos de uma palavra de estímulo, de um conselho amigo, de uma voz repleta de confiança nos lembrando que sim, é possível, que somos capazes, que vamos conseguir. Aquela frase bem colocada que, mesmo não aumentando nossas chances de solucionar o problema, nos ajuda a acreditar e encontrar dentro de nós mesmos a força necessária para resolver aquilo que antes parecia impossível. E dentre todas as palavras, todas as frases, todas as sentenças que consideramos capazes de realizar essa missão, uma das piores é, sem dúvidas, a clássica “você vai conseguir porque todo mundo consegue”.

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3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

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O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continuar lendo

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Dos robinhos da maldade, dos denílsons da babaquice

denilson

Por mais que nós tenhamos consciência de como o mundo é duro, a realidade é complexa e nem sempre aqueles ideais de amizade, harmonia e um coleguinha emprestando o giz de cera pro outro, que aprendemos em casa e na escola, conseguem ser diretamente aplicados por todos na vida real, é sempre um certo choque quando somos obrigados a aceitar que alguma pessoa, seja ela próxima ou distante, está agindo de forma deliberada visando nos prejudicar. Afinal, na nossa narrativa pessoal nós somos os protagonistas, na nossa visão de mundo nós somos os mocinhos, no star wars de cada um somos todos Luke Skywalker e ninguém quer ser Darth Vader (ainda que eu pessoalmente ache mais bacana ser o Lando por que nada supera o combo capa e bigode).

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Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

marshall

Eu ando tendo uns problemas no trabalho. Desgaste, cansaço, estão me impedindo de sair pra procurar outra vaga, coisas assim, sabe?  Tive uma conversa franca, tentei argumentar, apresentei propostas, mas as coisas não andaram. Aí um dia esperei todo mundo sair e escrevi nas cascas das bananas que eles deixam no cesto de frutas palavras como “morte”, “terror” e “medo”, de maneira que conforme as frutas forem amadurecendo e as letras forem ficando pretas eles imaginem que o nosso andar tem fantasmas.

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Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

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Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

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Sobre sistemas, pessoas e coisas que não têm preço

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Vivemos numa era de sistemas, redes e organizações. Sistemas para transmitir informações, redes para nos socializar, conglomerados que lidam com todo tipo de atividades, desde empresas que te permitem usar o mesmo software em qualquer escritório até marcas que te permitem comer o mesmo prato em qualquer lugar do mundo. E conforme esses sistemas, redes e organizações vão crescendo e se tornando cada vez mais poderosos, essenciais e familiares acabamos perdendo de vista um dado muito importante sobre todos eles: qualquer sistema, rede ou organização é composto, em algum grau, por pessoas.

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Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico. Continuar lendo

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Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

george michael

#Você organiza pelada e pelada é só amigos, pelada é só alegria. Futebol society, campinho gramado, barzinho do lado. Dois timinhos de seis, espaço pra trabalhar a bola, pensar na tranqüilidade, tocar pra quem tá mais bem posicionado, desenvolver a malícia desportiva. Timinho de fora pra manter competitividade, mas não completo, rola par ou ímpar pra ver quem fica. Durante dois meses tá de boa. Mês seguinte não tem timinho de fora, mas tá tranqüilo,corre mais, ainda que com menos seriedade porque sem sair você sabe como malandro fica. Um mês depois começa a ficar complicado de dar doze, tem que chamar galera da pelada anterior pra completar, mas tá de boa, é coisa do momento, janeiro é foda, geral de férias. Aí na outra semana só tem dez, maior correria, mas a pelada rola. Aí numa quarta chove e só tem seis, seis é foda. Na outra vão cinco, cinco é sacanagem. Falta dinheiro pra quadra, pelada mia, você fica puto. Manda email reclamando e pedindo pra cada um levar um amigo, pra pelada não morrer, email emocionado, usa a palavra “comprometimento” em itálico sublinhado. Chega quarta, cada um leva seis amigos. Pelada lotada, oito times de fora. Você pensa que agora tá bacana. Galera sai puta porque tinha gente demais e não rolava de jogar. Você pede pra galera confirmar no site antes de ir, pra isso não acontecer mais. Na outra semana tem seis pessoas. Depois tem cinco. Cinco é sacanagem. Você acaba com pelada. Organiza outra pelada. Outra pelada é só amigos, outra pelada é só alegria. Um dia você chega lá e só tem seis caras. Seis é foda.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

arrested

Como todos nós sabemos, o processo de comunicação humana é sempre algo de tortuoso. Entonações mudam o sentido de frases, sensações são as vezes complicadas demais para descrever, palavras podem ter um valor simbólico absolutamente diverso entre duas pessoas diferentes. Às vezes não sabemos o que queremos dizer, às vezes não conseguimos entender o que os outros dizem, às vezes sabemos o que queremos dizer mas não podemos, às vezes começamos uma frase e a pessoa completa mas ela não completa o que nós queríamos dizer e então tentamos corrigir mas ela completa errado de novo e aí completamos a frase dela e então viramos o cão do porta-mala. Como eu disse, é um processo complicado.

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