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3 tópicos para um recesso de carnaval

#Um projeto antigo que foi repaginado e transformado em tumblr apenas porque tive uma tarde realmente muito parada aqui no trabalho, o “Amar é…os proibidões”

#Um conto que menciona carnaval apenas de leve e não tem nada a ver com esse post, mas que eu não lia faz um tempo e do qual eu gosto um bocado, então é a vida

#Um texto sobre o carnaval do ano passado, que posso afirmar, com 90% de certeza, vai descrever exatamente o carnaval desse ano, trocando “aí sim, fomos surpreendidos novamente” por qualquer frase bacana do Charlie Sheen e alterando “Olimpíadas de Inverno” por “Campeonato Carioca”

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Santo post pago, Batman!

capa

Ele voltou, o boêmio voltou. E junto ele trouxe a edição número 13 do Farrazine, com Legião, uma HQ de Ricardo Andrade e Snuckbinds, e Albaria, do Wilton Pacheco (que também é o entrevistado da edição. Nós adoramos esse cara. Só não pusemos um pôster dele no meio da revista porque bem…a gente gosta do cara, mas não desse jeito esquisito…). Também temos Batman, censura, quadrinhos bíblicos e inflamáveis, Raul, blues, nostalgia, Star Warghs, trave na treva, Bar do Limbo, sombras vivas e o keyboard cat. Ok, não temos o keyboard cat, mas temos “37 dias”, um conto meu, ilustrado pelo Greati, que é quase tão legal quanto. Play them off, Farrazine.

Você pode baixar o Farrazine aqui em versão RAR. Ou aqui em versão PDF. Ou você pode deixar isso tudo de lado e entrar no blog do Darth Vader, mas eu gostaria que você baixasse o zine antes, ok?

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37 dias

Eu sinceramente não sei como te contar isso. Provavelmente você não vai acreditar, mas eu tenho que contar para o seu bem. Espero que você entenda. Se você não entender vai me magoar bastante, mas eu também vou compreender. Começou quando eu era criança.

O nome dela era Carla. Carlinha. Eu tinha sete anos, ela oito, mas sempre brincávamos juntos no pátio. Era naquela escola perto da minha casa, eu provavelmente já te mostrei quando passamos de carro por lá. Bem, foi com ela que eu dei meu primeiro beijo. Eu sei, é engraçado, mas eu ainda me lembro bem, foi atrás da casa da tia dela, Dona Lalá, provavelmente a senhora idosa mais chata que já pisou na face da Terra…Mas agora não é hora pra pensar na Dona Lalá.

Nós nos beijamos, beijo de criança. Selinho. Mas o primeiro beijo é sempre o primeiro beijo. Passamos a nos considerar namorados, graças às piadas do pai dela, que sempre tinha sido amigo do meu. E bem, era um namorinho, passeávamos de mãos dadas, dávamos um beijinho de vez em quando, brincávamos todo dia um na casa do outro. Isso durou um mês, até o pai dela ser transferido. Eu lembro dela chorando pra me contar, o rostinho ficando vermelho, o abraço apertado. Éramos muito colados, sempre fomos, desde ser vizinhos até colegas e depois…namorar…

Minha família ajudou a empacotar a mudança junto com os pais dela e trocamos um beijo no vidro, enquanto o pai dela se preparava pra sair com o carro. Na Serra de Petrópolis eles foram jogados pra fora da pista por uma carreta. Todos saíram com ferimentos leves, menos a Carla. Carlinha. Saiu pelo vidro e bateu com a cabeça. Nem teve tempo de chegar até o hospital. Meu primeiro velório. Minha mãe ainda tem o terninho preto que eu usei.

Depois, quando eu já tinha 14, veio a Flaviana. Colega de sala, sempre falante, bem mais alta que eu. Já tinha ficado com o Gabriel, o babaca da oitava série, mas terminou com ele pra ficar comigo. Eu diria que foi a minha primeira conquista em termos de…romance, posso dizer assim. Nos beijávamos no fundo da sala durante as aulas do Professor Sobral, aquele carequinha que meu pai te apresentou outro dia. Meus primeiros amassos. Desculpa, estou dando detalhes demais, não? É que as lembranças voltam…Mas então…Um dia nós brigamos e ela foi pra casa dos avós. Passaram-se duas semanas e eu não soube dela. Não telefonei por birra, achei que ela estava me evitando.

Na semana seguinte falaram na escola que ela tinha tido um caso súbito de hepatite. A doença atacou rapidamente o fígado e ela não resistiu. Não tive coragem de ir ao enterro. Meus pais me trocaram de colégio depois disso.

Aos 17 foi a Larissa. Colega da minha irmã mais nova, se você procurar bem no mural da Cristiana acho que ainda tem uma foto dela por lá. Sempre foi doidinha em mim, mas eu só fui reparar nela quando a Teresa me deu um fora totalmente degradante na festa de Halloween do curso de inglês. Era engraçadinha, ainda que meio chata. Mas era novinha, muito bonita e carente. Admito que me aproveitei disso pra tirar a virgindade dela.

Começamos a namorar e eu vi que não ia agüentar muito tempo a garota, afinal, além de sexo eu podia ter o que com ela? E ela ficava mais e mais grudenta à cada dia que passava. Decidi terminar e fui até a casa dela. Quando cheguei lá tinha uma ambulância na porta. O pai dela tinha bebido e matado ela e a mãe, pra depois se matar. Me lembro que foi notícia no país todo. Problemas na empresa, algo assim. E ele sempre tinha sido um alcoólatra, ela passava todo aquele tempo lá em casa exatamente pra fugir dele.

Para esquecer disso meus pais me mandaram pra Espanha, visitar meus avós. Lá conheci Sofia, que foi minha professora no curso de espanhol da embaixada. Morena, elétrica, filha de bascos. Eu ia ficar só um mês lá, mas quis mais uma semana pra poder me despedir melhor dela. Um namoro de verão, desses sem compromisso, com uma mulher mais velha, que tenta te ensinar o que você não sabe e acha graça nisso.

No dia do meu embarque ela não foi se despedir. Pelos monitores de TV do aeroporto de Madri eu vi o nome dela na lista de terroristas mortos pela polícia num atentado do ETA à Barcelona. Um pouco do meu coração ficou em Madri naquele dia.

Com 20 eu fui reencontrar Luana, uma prima de segundo grau, que eu não via desde pequeno. Nos aproximamos muito, mas basicamente como amigos. Ela não era exatamente bonita e eu não me sentia preparado pra ficar com alguém de novo.

Mas um dia acabamos nos beijando, os dois bêbados. Tentamos não deixar que isso atrapalhasse a amizade nem fazer daquilo nada de mais. Ela era jogadora de handebol, fazia parte da seleção estadual até, aquela medalha no meu armário é dela, você pode reparar. E fui num jogo de handebol que aconteceu. Ela estava marcando uma garota enorme, praticamente um tanque de guerra panzer nazista, chamada Popota, me lembro até hoje. O jogo estava 17 a 17 e a Popota recebeu a bola na ponta direita da quadra. Fez o movimento de cortar para o meio e arremessou. Luana se jogou para defender, mas não se protegeu do jeito certo e a bola bateu na cabeça. Era uma bola dura e como eu disse…Popota era um monstro.

Lu caiu inconsciente ali mesmo. No hospital descobriram que uma artéria havia se rompido no cérebro. Ela entrou em coma. Acho que nem os médicos entenderam direito o que aconteceu. O pai dela ameaçou Popota de morte, mas ela deu uma surra nele e ele viu que não adiantava culpar ninguém além do destino. Uma semana depois do acidente ela ainda estava em coma e eu, chorando, disse, sentado na beira da cama, que ela sempre seria minha namorada. 37 dias depois a atividade cerebral cessou. Ela ficaria feliz de saber que os órgãos dela foram sido doados.

Tranquei a faculdade. Meus pais me mandaram pra uma espécie de clínica/spa na Bahia. Eu sentia que de alguma forma aquilo tudo era culpa minha e não queria nunca mais ficar com ninguém. Passei a temer as mulheres, pelo mal que eu podia fazer a elas. Simplesmente havia alguma coisa em mim que causava dor às pessoas que eu amava. Mas Clarice não acreditou em mim.

Ela cantava num trio e sonhava em um dia ir pra Salvador cantar num grande bloco. Era simples, divertida, tinha toda aquela calma que se supõe que uma baiana deva ter e mais um jeito de criança, uma inocência impressionante mesmo. Insistiu tanto em mim, confiou tanto em mim, que nós ficamos, com a condição de que ela nunca considerasse aquilo um namoro. E fomos ficando. Passamos 8 meses juntos, até chegar o carnaval.

Estávamos em janeiro, mas as coisas já tinham começado a ficar movimentadas por lá. Fomos pra Salvador, onde ela tinha começado a cantar num bloco pequeno, mas que já era, pelo menos em parte, a realização de um sonho pra ela. Num dia, começo de janeiro, ela dedicou, de cima do palco, uma música pra mim, durante uma festa. “Essa é pro meu namorado, Ricardo!”. Provável que você nunca tenha ouvido a música… É aquela “sou um peixinho fora da água sem você, e não demore volte logo, bem querer”. É, você nunca ouviu.

Depois disso nós brigamos, claro. Eu tinha feito ela prometer que nunca ia dizer aquilo. Mas ela sorriu e aquele sorriso me desarmou. Eu deveria saber que não ia dar certo, mas eu acreditei que poderia. Eu sou culpado por acreditar? Provavelmente sim.

Na terça-feira de carnaval daquele ano, quando ela cantava no alto do trio, alguém lançou uma garrafa de água mineral pra que ela pegasse, afinal, todos suavam absurdamente no calor da Bahia. Ela se esticou para alcançar e o fio do microfone se enrolou nos seus pés. Ela tropeçou e caiu do alto do trio, sendo logo depois esmagada pelas rodas. Você deve ter reparado que eu choro sempre que ouço “Água Mineral” ser cantada. Espero que você entenda agora.

Depois disso eu vi que teria que me afastar, definitivamente, de qualquer mulher. Fui para o monastério da ordem Franciscana, no interior de Minas. Era uma vida simples, mas tranqüila. Eu me sentia satisfeito, finalmente podia viver em paz. Ou pelo menos eu pensava assim. Até que fomos fazer uma visita a uma comunidade carente numa cidade próxima. O lugar era triste, desolado, pobre. Lá eu conheci Lucinda, a professora da única escola do lugar. Idealista, recém-formada, estava tentando melhorar a qualidade da educação das crianças e pediu ajuda aos monges. Eu, por ser o mais novo do mosteiro, além de ser articulado e gostar de crianças, fui indicado pra ajudar a professora no que ela precisasse.

Não demorou muito para que um sentimento nascesse entre nós. Mas eu fiz questão de contar a minha história toda, para que ela visse como nada de bom poderia surgir daquela idéia. Mas ela era cabeça-dura e eu, fraco e carente após três anos sem contato com nenhuma mulher, aceitei. Abandonei a ordem e fui viver com ela. Decidimos ficar logo noivos, talvez fosse apenas o namoro a causa de tudo. 3 dias antes do casamento ela fugiu com um ex-namorado. Confesso que até certo ponto eu respirei aliviado, afinal, as coisas haviam terminado bem.

Mas não terminaram, é exatamente por isso que eu estou contando isso tudo pra você agora. Eu soube ontem que Lucinda morreu dois dias depois do dia que seria o do casamento, esmagada por um porco caído de uma sacada em Caxambu. Sim, uma senhora idosa criava porcos em seu apartamento, talvez por saudades de sua vida na fazenda. Sim, porcos. É, complicado de entender.

E quando eu soube disso eu tive que te contar. Porque quer dizer que a maldição não acabou…Eu queria te dizer que só aceitei começar esse namoro porque achei que tudo já tinha passado, mas agora…Lucinda morreu porque não me deu tempo de terminar com ela, então teoricamente ainda era minha namorada. E todas as minhas namoradas morrem 37 dias depois que começam a namorar comigo, desde a Carla até hoje…E eu não quero isso pra você…Por isso que hoje, quando nós completamos 36 dias de namoro, eu vim aqui terminar tudo. Porque eu te amo e não quero que nada de ruim aconteça com você. Se eu faço isso é pra te proteger. Você entende? Eu espero que entenda…Isso dói em mim tanto ou mais do que dói em você, porque você pode achar outro cara, mas eu sei que você era minha última chance de felicidade. Mas eu vou aprender a viver sozinho.

Não vou mais poder te ver, porque não ia conseguir suportar você levando sua vida em frente, sabendo que eu nunca vou poder fazer a mesma coisa. Mas saiba que eu te amo. Seja feliz.

“E aí? Ela acreditou?”

“Não sei bem…ela estava tão chocada que mal disse uma palavra…Só foi embora…mas pelo olhar, parecia ter pena de mim…Então deve ter funcionado, eu acho.”

“Mas você forçou a barra dessa vez, você sabe…”

“Você acha?”

“Porra, Ricardo, Popota? Popota matando a menina com bolada foi dose…E aquela do trio eu não sei como você falou sem rir.”

“No começo foi fácil, mas do meio pra frente ficou complicado inventar…O porco caindo da sacada eu sinceramente não sei de onde saiu…”

“Mas sério, precisava disso tudo? Maldição dos 37 dias, inventar gente morta…”

“Queria que eu fizesse o que? Fosse sincero e dissesse que é porque ela ronca na cama? Eu sou um cavalheiro, pô!”

“É, nisso você tem razão…Mas a Popota foi sacanagem…”

“Ok, a Popota eu admito que foi forçada…”

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