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3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

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#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

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Arquivado em Rio, Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Três observações sobre meu retorno ao mundo das academias

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# como amigos, namorada e familiares sabem, eu, apesar de ter uma certa habilidade com noções abstratas e discussões conceituais, apresento uma imensa dificuldade para seguir instruções simples ou mesmo me movimentar em espaços físicos menos abertos – “joão, busca o creme na gaveta de cima do armário? não, joão, de cima. do armário, joão. não, o armário do quarto. não, não, armário, você não sabe o que é um armário? o quarto, joão, o quarto. por que…mas…por que você tá me trazendo um sapato da cozinha, e acionou o alarme da garagem, joão?”- e isso claramente vem à tona sempre que eu entro no ambiente da academia, que não apenas possui um volume grande de informações visuais como também algumas músicas contagiantes do gênero dance noventista que reduzem mais ainda minha concentração. somando a isso o fato da academia ser toda espelhada, os aparelhos estarem dispostos de forma irregular e serem completamente ajustáveis, e você tem o ambiente perfeito para que eu bata em paredes, tropece em pessoas, me flagele com barras de ferro ou mesmo fique com o braço preso numa corda metálica e volte pra casa todo coberto de graxa. diante disso não é exatamente uma surpresa que, sempre que eu chego na academia, os professores me olhem com a perplexidade de quem vê um cãozinho voltando com a bola na boca depois deles terem lançado a bola do topo de um penhasco.

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Carta aberta ao cara que faz aula de jumping na academia onde eu malho

Prezado cara que faz aula de jumping na academia onde eu malho,

Eu sei que você não me conhece e que eu, tecnicamente falando, não conheço você, já que a primeira (e quem sabe talvez a última) vez que eu te vi na vida foi hoje cedo. Eu estava no segundo andar da academia, fazendo com grandes dificuldades as minhas séries de abdominais (180 deles, sem peso, enquanto a velhinha ao meu lado fazia 240, com pesinhos), quando, durante uma pausa para água, olhei para a sala de ginástica, onde várias senhoras faziam aula de jumping (ou step. ou yoga. ou aerobahia. ou aerojump. ou aerobahia. ou aeroyoga. ou yogabahia. ok, acho que você entendeu que pra mim é tudo igual) e lá estava você. Sim, você. O único e solitário homem perdido em uma nuvem de mulheres. Deslocado, porém altivo, perdido, mas ainda assim corajoso.

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Pessoa de quem não dá pra gostar #26

#26: O coroa saudável – Você vai pra academia de manhã, antes do trabalho, porque sabe que depois das 17:00 simplesmente vai estar com preguiça demais pra pensar em malhar, e lá está ele. Vinte e cinco anos mais velho, dez quilos mais magro, uma cara de disposição que não tem absolutamente nada a ver com alguém que está levantando peso às 07:15 da manhã. Enquanto você está emburrado num canto, ainda dormindo, seu corpo clamando por café ou red bull (ou café com red bull. e vodka, se possível), se enrolando com a regulagem dos aparelhos, ele está lá, usando aqueles materiais de academia que você não entende, levantando o dobro da sua carga e falando com todo mundo como se fossem velhos conhecidos e academia fosse um local de diversão e amizade ao invés da câmara de tortura que ela evidentemente é.

Na hora em que você sai, cansado, sentindo dores pelo corpo inteiro e maldizendo o maldito metabolismo e a sua coluna, que te fazem se sentir velho menos de 30 anos, ele está fazendo esteira e conversando com uma garota que tem metade da idade dele, usando uma camiseta colada que você não gostaria que seu pai usasse e fazendo gestos que envolvem, ou uma simulação de troca de lâmpada (um tipo de “air lamp change”) ou uma vontade absurda de mostrar que tem bíceps maiores do que os seus.

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