Arquivo da tag: aí não

Pequenos e breves momentos de intensa comunhão espiritual com pessoas que você não conhece e provavelmente nunca mais vai ver

winston

#

você tava voltando do almoço, passando ali perto da catedral, o sol do inverno carioca na sua cabeça, aquele passo acelerado de quem já estourou a hora, tá preocupado com o ponto, não quer compensar, os dilemas do capitalismo por todo o seu corpo como um hidratante monange na pele da xuxa. mais a sua frente dois japoneses caminham, um ritmo mais tranquilo, os dois conversam em japonês enquanto apontam as plantas, a catedral, os prédios do outro lado da rua. um deles para para amarrar o cadarço e você ultrapassa, vai se aproximando do outro, num dado momento vocês tão emparelhados, você e o japonês, você nota que o japonês continua falando, ele não notou que o outro tinha parado. até que ele se vira e ele te olha. e você nota a testa do japonês franzindo, e você nota os olhos do japonês se apertando e ele vira e te diz uma palavra que você acredita ser “Tesuo?” e você consegue notar, pela reação dele, pela linguagem corporal, pela expressão, que ele não tá achando que você é um ladrão, que ele não tá achando que o amigo dele sumiu, que ele não tá achando que ele se perdeu. por um segundo tu vê nos olhos daquele japonês que, por uma fração ínfima de tempo, por um momento breve mas significativo, a primeira ideia que passou pela cabeça dele foi “porra, meu bróder japonês virou um homem latino barbudo”. e você, enquanto cara que ouve um “vai ver se a pizza tá queimada” e volta dizendo “tá sim” sem ter tirado do forno, enquanto homem que ouve um “sabe a chave que tá em cima da tv? traz ela pra mim” e responde com “a chave ou a tv?” reconhece ali o momento de espasmo mental alheio e abre aquele sorriso solidário que aí sim faz o cara pensar que você é um assaltante mas aí o amigo japonês já acelerou o passo e tu passa rápido pelos dois e já dispara pela reta pro seu trabalho e sim, atrasou mais de meia hora, vai precisar compensar mesmo, é foda demais a vida de vez em quando.

Continuar lendo

Anúncios

1 comentário

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, situações limite, Vida Pessoal

4 sinopses para filmes de ficção científica meio realistas

pet me i are cute

#um grupo de cientistas acredita ter descoberto sinais de vida em um planeta muito distante e inicia um processo de décadas para permitir que a humanidade alcance esse canto ainda inexplorado do espaço. são obtidos avanços científicos, são realizados testes em busca da tripulação perfeita, até que num dia de muito júbilo para a espécie humana, e com transmissão para todos os países da terra, a nave “perseus” é lançada em direção ao espaço em sua missão de dez anos para finalmente confirmar a existência de vida fora do sistema solar. durante essa missão alguns astronautas enlouquecem, outros morrem, alguns são vítimas de doenças desconhecidas, pois nunca os seres humanos haviam sido expostos durante tanto tempo ao ambiente espacial. chegando no planeta, batizado de “terra 2”, o único cientista sobrevivente descobre que é um alarme falso, vida não é bagunça, não vai sair aparecendo assim, não vamos encontrar logo de primeira, o que vocês tavam pensando. agora ele precisa voltar pra terra sozinho e a viagem parece que vai ser longa porque ele viu todos os dvds bons já na ida.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em cinema, Desocupações, Ficção, Nerdices, referências

Novas aventuras em lo-fi #21

travolta

[este texto pode conter spoilers para aqueles que ainda não assistiram o filme “garota exemplar”. sério, pode mesmo. não é uma ameaça vazia. ainda que, num certo grau, todo texto pode conter spoiles pra “garota exemplar”, né? assim, falando em termos de possibilidades e tal]

Uma coisa que eu sempre gostei, desde moleque, é a chamada “música com historinha”. Sim, é bacana aquela canção num esquema mais lírico, é fera um verso mais livre, é bonito quando a coerência vai pro espaço e tão ali apenas umas palavras legais e a pessoa tá gritando que quando ela se sente metal pesado e mente e é fácil o tempo todo, mas um lado meu sempre admirou demais o esforço necessário pra contar, de maneira rimada, uma historinha, seja essa uma trama em que você descobre que o chico mineiro era [spoilers] seu legítimo irmão ou uma em que um bróder conta que ele conheceu a menina, escreveu o nome dela na mão, a chuva apagou como numa propaganda de corsa. Em suma, historinhas.

E de todas as músicas com historinha poucas até hoje me fascinaram mais do que “Escape”, ou “The Pina Colada Song”, do artista Rupert Holmes. Isso porque, ainda que à média distância ela possa parecer apenas uma canção setentista sobre drinks exóticos ela é, na verdade, uma das mais perturbadoras e tensas narrativas sobre infidelidade, crise nos relacionamentos e o fardo do eterno romance que o ocidente já chegou a produzir. Acompanhem comigo.

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, homens trabalhando, Music Review, Sem Categoria, situações limite, Vacilo

Sobre facebook, eleições e a nefasta ascensão do amigo do seu amigo

amigo do amigo

Todos nós sabemos, desde pequenos, que a discussão política pode trazer à tona o que existe de pior no ser humano. Um assunto claramente racional e merecedor de profunda reflexão analítica, mas que é sempre abordado da maneira mais passional e pessoal possível – “enfia o crescimento lento do pib no seu cu, aqui é dilma, porra!!!!” – a discussão política padrão costuma servir menos para trocar opiniões, enriquecer debates, ajudar a formar posições, do que para gerar brigas na mesa de jantar, garantir constrangimentos no trabalho, separar casais antes apaixonados (“sem sexo até você entender que apenas o psdb pode e vai resolver os problemas do brasil”).

E outra coisa que temos certeza faz um certo tempo é do poder da internet para potencializar as coisas. Seja pornografia, seja o acesso a livros clássicos, seja o conceito de lip sync, não há nada que a internet não consiga tocar e elevar até a sua enésima potência, explorando as qualidades, agravando os defeitos, tornando muito melhor ou muito pior do que poderia ser.

Portanto não foi surpresa pra ninguém o resultado da combinação entre uma eleição disputada como a que passou e um período de grande participação das redes sociais como temos hoje. O resultado foi muito chato. Assim, bem chato mesmo.

Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, Internet, Sem Categoria, Vida Pessoal

Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

jammed

#o solução retroativa: e aconteceu um problema. é daquele problema que fica na zona cinza entre o problema grave, a perda pessoal, e o problema pequeno, a inconveniência da vida. o tipo de problema que poderíamos caracterizar como “problema meio foda”. seu computador pifou com a sua monografia dentro, perderam sua mala no aeroporto com suas roupas, estourou feio o cano do seu banheiro, chegou na cidade e o hotel alega que sua reserva não tá constando. você tá baqueado, tá chateado, destino te estapeou com a luva áspera da mágoa surpresa, mas você ainda acredita no semelhante e, visando obter o máximo de retorno possível, faz aquele post no facebook. “alguém sabe de um cara que recupera hd?”, “alguém já passou por isso com a tam?”, “conhecem encanador bom na zona sul?”. é um pedido de coração aberto, é uma solicitação focando nos amigos, é aquela mão de bytes estendida no cyberespaço em busca de um braço forte e ombro amigo que indique alguém que não cobra 300 reais só pela visita na zona sul, você compra as peças. surgem os amigos. um diz que vai ver com um primo que passou a mesma coisa, outro te recomenda um links, vários apertam no botão “solidário com sua dor ainda que não possa ajudar” do facebook.

Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Internet, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal

Mais duas breves inseguranças causadas por filmes que eu vi faz um tempinho

ben affleck

# começou quando você viu aquela comédia romântica com o rapaz de harry potter. comédia romântica só fofura, comédia romântica só carinho, comédia romântica é mocinha e mocinho, aquela torcida, não tem grande surpresas. quinze minutos e você não tá curtindo o mocinho, meia hora e você tá simpatizando com o namorado da mocinha, uma hora de filme e você tá torcendo contra o casal, manifestando em voz alta que romance é mais que momento, que é fácil ser romântico sem as contas pra pagar, que estabilidade também é importante na vida. e aí você nota que na comédia romântica da vida você claramente não é o mocinho mas sim o namorado da mocinha. você não faz grandes gestos, você pede comida em casa, você defende rotina, você gosta do restaurante de sempre, você não é do tipo que leva flores mas sim do tipo que diz pra não esquecer a notinha fiscal do outback porque depois dá pra pegar petisco grátis da próxima vez (se possível as asinhas porque você curte asinha). você fica bem pensativo. você não gosta de imaginar sua namorada perto de caras parecidos com o adam sandler agora. você tá preocupado. comédia romântica com o rapaz de harry potter te deixou preocupado.

Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, cinema, crise de meia meia idade, Internet, referências, Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

Bambam-e-Dhomini-no-BBB-13-size-598

Uma coisa comum de ouvir por aí é que vivemos numa cultura da mediocridade. As pessoas não querem ver arte, as pessoas querem ver Big Brother, as pessoas não querem ouvir boa música, as pessoas querem Justin Bieber, as pessoas não querem grandes filmes, elas querem imensas franquias com carros que viram robôs. E ainda que existam ótimos argumentos tanto para questionar se não estamos realmente nos aproximando de um menor denominador comum cultural quanto para defender a graça de carros que viram robôs – sério, são carros, que viram robôs, você precisa admitir que isso é legal, vai – um aspecto dessa sensação geral de irritação sempre me pareceu muito curioso e ao mesmo tempo pouco abordado. O motivo disso nos irritar tanto.

Continuar lendo

10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, Internet, Sem Categoria, situações limite, teorias

Doenças da modernidade: caso #3, a “lesão físico-cognitiva”

contemplative jazz music

A lesão físico-cognitiva: Nome dado a um grupo de lesões de pequena e média gravidade que tem como principais traços em comum o fato de que a) são infligidas pela vítima a si mesma, de maneira involuntária e b) o dano psicológico gerado por elas é sempre tão ou mais sério do que o dano físico. Isso acontece porque sendo quase sempre a lesão resultado de um descuido ou distração, a vítima sofre tanto com a dor física da contusão quanto com a humilhação de saber que é ela mesma a responsável direta ou indireta pelo ferimento, levando a momentos de desequilíbrio emocional, auto-recriminação ou apenas de questionar a própria capacidade de residir sozinha em um ambiente onde também estão presentes lâminas afiadas e caixas metálicas de onde sai fogo.

Abaixo seguem alguns dos mais comuns exemplos de lesão físico-cognitiva:

Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Desocupações, Sem Categoria, Vacilo, Vida Pessoal

Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

in-the-line-of-duty-5-middleman-screenshot

E tinha um casal brigando no mercado. Ela dizia que ele era um canalha, ele falava que ela estava sendo uma vaca, ela tentava pegar o celular da mão dele, ele se defendia com o que parecia ser um pacote amassado de pão integral, o carrinho balançando perigosamente entre os dois, uma bandeja de ovos vermelhos ali prestes a cair.

No entorno o clima era de constrangimento. Idosos desviavam o olhar, mães puxavam seus filhos para o lado, outros casais pareciam estranhamente mais interessados do que de costume no processo de escolha de congelados pro jantar – “mas amor, olha esse aqui, esse tem brócolis também” – e eu perguntava para um repositor por que não tinha mais maçã da turma da mônica no que poderia parecer uma tática de distração mas era uma dúvida genuína, já que eu sou péssimo escolhendo fruta, as maçãzinhas da turma da mônica sempre vinham muito gostosas e ensacadinhas, era bem prático, fiquei chateado de não achar.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Desocupações, Gente bizarra, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, Vacilo

Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

r-FRINGE-JOSHUA-JACKSON-large570

Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país a trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois caras foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, séries canceladas, Sem Categoria, situações limite