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Top 5 – Pagodes significativamente canalhas*

Inimigos da HP** – Que situação: A dramática história de um cara que saiu pra noite pensando apenas em zoar e chegando na noitada descobriu que lá estavam não só a garota com quem ele estava ficando como o namorado dela. Indignado com essa falta de consideração e respeito da parte deles, ele sugere a ela que agrida e xingue o namorado, pra que eles possam passar a noite juntos. Sério, é basicamente isso, só que rimando. Coisa de tocar o coração mesmo.

Exaltasamba – Livre pra voar: Música que caminha no estreito limite entre a cafajestagem e o telefonema ameaçador no meio da madrugada (“quando eu te pegar você tá perdida/vai se arrepender de um dia/ter me tirado do meu lugar”), defende o direito natural do homem (ou apenas do vocalista Thiaguinho) de desenvolver o pega-pega freestyle com carinho mas sem compromisso, numa espécie de consignação emocional. Com essa canção o Exaltasamba sedimentou no pagode brasileiro as bases do movimento da canalhice consciente, versão malandrona e não monárquica do despostismo esclarecido, tão em voga na Europa do século XVIII.

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Top 5 – Canções mais bonitas de Alexandre Pires

Mineirinho: Alexandre Pires, como todo grande artista, sempre gostou de desde o começo da carreira, flertar com o complexo, o criativo, o paradoxal. E quer coisa mais paradoxal do que um mineiro fazendo uma música pra falar pra todo mundo que o mineiro é de fazer e não de falar? Com essa canção que é a versão musical de começar a gritar dentro de uma biblioteca para pedir silêncio, o Só Pra Contrariar não só fez self-marketing (e espero que todos eles tenham conseguido pegar alguém graças a isso) como alcançaram as paradas de sucesso e lançaram Alexandre como um sex symbol para o novo milênio.

Interfone: É até um pouco complicado pra mim falar dessa música pelo tanto que ela me emociona. Afinal, eu imagino Alexandre Pires sentado em casa, sozinho, solitário. Ele viu o Jô, ele viu o Intercine (no qual ele tinha votado em “Simples como amar” mas acabou tendo que ver “Fuga de Absolon”) e depois, no auge da derrota, ele viu o Amaury Junior. Aí ele ficou chateado, até eu ficaria. Então ele saiu, entrou no carro e foi, a duzentos por hora, até a frente do prédio da amada. Chegando lá ele foi barrado pelo porteiro que, recém-contratado e nada afeito as revistas de fofoca, ainda acha que Alexandre namora com uma das Scheilas e não entende o que a voz máxima do pagode mineiro está fazendo ali. E então, num gesto de supremo amor e desespero, Alexandre pega o celular, abre seu coração e manda, de lá de dentro, do seu âmago mais recôndito um “mas o porteiro é novo, ele não me conhece, tá cheio de suspeitas, tá desconfiaaaaaaaaado”. Cara, eu estou chorando aqui. É foda.

A barata : Nunca é demais dizer que Alexandre Pires é acima de tudo um pioneiro. Muito antes da Wired, muito antes do Steve Jobs, muito antes dos caras do Google, do Facebook, do Twitter, o ex-vocalista do SPC já trabalhava na música interativa, no pagode 2.0, no partido-alto colaborativo, no samba wiki. Sim, ou o que mais você pode dizer de um samba em que Alexandre lança as bases rítmicas e você mesmo pode continuar a letra de acordo com sua vontade, oferecendo uma colaboração pessoal e inovadora como letrista? Afinal, a barata era da vizinha do Alexandre, mas quem decidia o que fazer com ela era você! Pistolada, sapatada, cabeçada, desintegrada, o poder era todo seu, meu amigo.


Essa tal liberdade:
Nessa música Alexandre propõe uma das grandes questões da humanidade, tão complexa quanto o paradoxo do gato de Schrödinger, o “ser ou não ser?” de Hamlet ou o “should i stay or should i go?” do The Clash. Afinal, o que que eu vou fazer com essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você? Eu andei errado, eu pisei na bola, troquei quem mais amava por uma ilusão, mas a gente aprende, a vida é uma escola. Não é assim que acaba uma grande paixão. E ainda virou música-tema de propaganda da Malwee, lembra? Gênio, gênio.

Depois do Prazer: Primeira coisa a ser dita sobre “Depois do prazer” é que apenas um campeão, um gênio, um macho-alfa, um predador emocional, é capaz de começar uma declaração de amor com as palavras “tô fazendo amor com outra pessoa” e ainda se dar bem. Mas para Alexandre Pires, um conquistador que ganha pela confusão e dissuasão da mulher amada, isso é pouco, claro. Depois dessa ele ainda manda um verso de extrema complexidade como “a verdade é que eu minto” e a mulher, que não sabia se ele estava indo ou vindo, começa a se questionar que raios está acontecendo ali. E aí, pra fechar, ele manda o “posso até gostar de alguém, mas é você que eu amo”, o que faz com que a mulher perceba que as emoções de Xandeco são tão complexas que Stephen Hakwings era o amigão com quem ele desabafava durante os namoricos de colégio e que resistir é inútil, tem mais é que voltar com o cara antes que ele diga qualquer outra coisa desse tipo e ninguém entenda mais nada. (E claro, não podemos deixar de lembrar mais duas frases épicas dessa canção: “o que o corpo faz a alma perdoa”, um belo verso sobre traição e “emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr” que é evidentemente sobre a incapacidade de Alexandre de achar algo para fazer durante as 7 horas e meia que sobraram na suíte do motel após pegar aquela promoção de pernoite)

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Famas auto-sustentáveis: “Mineiro que come quieto”

Uma coisa muito importante na vida de muita gente é a reputação. Sim, a reputação, a fama, a imagem, aquilo que as pessoas vêem, esperam e consideram em uma pessoa. Fama de mau, fama de pegador, fama de violento, fama de sensível, fama de gay, fama, como um todo. E claro, quando você consegue uma fama ou quer conseguir uma fama você precisa fazer por onde, precisa tomar atitudes que justifiquem essa fama ou que pelo menos te ajudem a manter essa fama depois que você já conseguiu justificá-la. E depois de vir morar no Rio eu descobri que nós de Minas somos agraciados com uma das famas mais fáceis de manter que existem: a fama de come quieto.

A fama de “come-quieto” nasceu basicamente de alguma idéia distorcida que cariocas, paulistas, gaúchos ou seja lá quem for em algum estado que não Minas, teve de que os mineiros são discretos, pacatos e não costumam fazer alarde de seus feitos e conquistas. O que bem, como eu disse, é uma idéia distorcida. Mineiros são tão ou mais exibicionistas do que os habitantes de qualquer outro estado, com o agravante de terem um espírito de competitividade bem mais aguçado (se os gaúchos querem se separar do resto do Brasil porque se acham melhores, os mineiros querem o resto do país bem pertinho pra que todo mundo veja o quanto eles são melhores e eles ainda possam gritar “na sua cara!na sua cara!”) e eu realmente nunca reparei no homem mineiro nenhum tipo de discrição que superasse a média dos outros estados. Ou seja, é uma dessas generalizações que poderiam fazer sentido antigamente mas hoje não querem dizer mais nada, basicamente como a idéia de que todo paulista trabalha ou todo acreano é um personagem de ficção.

Mas por alguma razão que eu não entendo esse conceito de que “mineiro come quieto” ainda existe no Rio e eu, sendo teoricamente mineiro (eu vim de Minas, logo sou mineiro. É como acreditar que o leite é feito de papelão porque você viu ele saindo da caixinha, mas tudo bem) e sendo, ao menos em boa parte das situações de trabalho, quieto, acabei me enquadrando na situação. E foi só aí que eu descobri que essa fama é não só de fácil obtenção e manutenção como praticamente se alimenta sozinha, se nutrindo dos próprios pressupostos.

Vamos lá: eu sou mineiro e eu sou quieto. Logo as pessoas supõem que eu estou fazendo alguma coisa de muito impressionante, porém sem divulgar ou mencionar. E quanto mais eu fico quieto mais elas começam a concluir que eu estou realmente fazendo alguma coisa, afinal, se quando eu fico quieto é porque eu estou fazendo alguma coisa, quando eu ficar muito quieto é porque eu devo estar realmente fazendo alguma coisa, e uma coisa sórdida. Por exemplo, se alguém vem e pergunta o que eu fiz e eu digo que, sei lá, fiquei em casa lendo, a pessoa concluí que eu fui a uma orgia com virgens, iogurte de morango e um bode. Se eu digo que fiz uma maratona de Heroes em casa a pessoa concluí que eu desvirtuei 36 moças e voltei pra casa fantasiado de panda. Eu apenas tenho que ficar quieto e a própria pessoa, baseada na fama que ela mesma me deu, inventa toda uma gama de coisas. Fácil, não?

Mas vamos supor que, ok, eu resolvi falar alguma coisa, visando perder essa fama. Rodinha do pessoal, todo mundo resumindo o final de semana e eu digo que saí. Saí, fui numa festinha, bebi um bocado, me diverti. Isso acaba com a fama? Não, nada disso! A frase que vai seguir a minha é um “não falei, não falei? Esse cara não presta, mineiro é tudo assim mesmo, deve arrumar um monte e nunca conta nada pra ninguém!”. Sim, isso é retroalimentação argumentativa e sim, acontece mais do que você imagina.

E daí surge toda a facilidade da construção da idéia de “mineiro come quieto”: se eu fico quieto  estou aprontando sem contar, destruindo o mundo de dentro da moita; e se eu falo alguma coisa eu estou apenas confirmando aquilo que todo mundo já imaginava, que eu estou envolvido em altas confusões em clima de muita azaração e nunca conto nada pra ninguém, só deixando escapar alguma coisinha de vez em quando. Sim , é fácil aqui no Rio ter fama de mineiro que come quieto. O foda é aguentar as piadas sobre queijo. Sim, isso acontece mais do que você imagina.

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