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Novas aventuras em lo-fi #9

Uma coisa que acontece com freqüência quando a gente é garoto, não sabe falar inglês direito ou apenas ouve as músicas de relance é não sacar muito bem qual que era o exato conceito da canção e acabar vivendo a vida tranqüilo, de boa, mas com uma visão distorcida do que está rolando naquela faixa 4. Pensamos que “Santeria” era uma música romântica sobre Miami e não sobre como queremos matar um cara chamado Sancho; confundimos hinos de solteironas com canções sobre tempo virando; pensamos que o Billy Idol queria mesmo ajudar o peixe e ficamos horas nos perguntando porque nas festas do Cláudio Zoli rolava intercâmbio de biquínis. E uma dessas canções que eu conhecia desde moleque mas cujo sentido eu realmente nunca tinha alcançado até um dado momento no metrô carioca – coração batendo forte sentido zona norte – é “Quase um Segundo”, dos Paralamas do Sucesso.

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Contos morais de moral duvidosa #1

Era uma vez um rapaz chamado Adolfo. Apesar de ser querido pelos amigos e pelos familiares (ainda que sua avó dissesse em público que ele era feio, o que não era muito legal) e de ter uma vida relativamente tranqüila e confortável, Adolfo tinha alguns problemas de auto-estima. Não que ele não tivesse conquistado certas coisas na vida e não acreditasse que tinha um certo potencial, mas o rapaz simplesmente não conseguia esperar muito de si mesmo, confiar no seu taco, acreditar na sua luz interior, essas coisas todas. Em suma, se o ego e autoconfiança das pessoas normais fossem representados por árvores, enquanto alguns teriam coqueiros, outros teriam mangueiras e vários possuiriam verdadeiras palmeiras-imperiais ou jequitibás, Adolfo teria um bonsai bebê com nanismo.

“Lavar primeiro, ter auto-estima depois…”

Apesar disso o nosso protagonista até conseguia demonstrar confiança em certos campos de sua vida. No trabalho, em seus hobbies, na prática de esportes, o jovem até tinha uma certa capacidade de acreditar que poderia alcançar seus objetivos, assim como a capacidade de brigar por eles. Porém, no que tangia a sua vida pessoal, principalmente quanto ao relacionamento com pessoas do outro sexo, ele já não conseguia superar suas desconfianças. Diante de uma mulher Adolfo passava a dedicar a si mesmo o nível de confiança que daria a um cirurgião cerebral com Parkinson, um terapeuta que atende os pacientes vestido de Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo ou um evangelho apócrifo escrito pelo Evanílson, ex-lateral do Cruzeiro.

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“A boa notícia é que Jesus nasceu…A ruim é que eu não sei cruzar…”

Então era muito raro que ele tentasse qualquer tipo de abordagem diante do gênero feminino, porque acreditava que as suas chances de sucesso eram as mesmas de uma continuação para o filme Jimmy Bolha. Porém, haviam momentos de exceção, quase sempre quando ele bebia. Muito. E por muito quero dizer, pra caramba mesmo. E em um desses dias ele, bêbado, mas muito bêbado, quero dizer, bêbado pra caramba mesmo, puxou conversa com uma garota muito bonita. Ele se sentou na mesa dela, começou a conversar e pediu o telefone dela. E ela, pra surpresa dele, passou o telefone.

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“Humm…errr…agora eu faço o que? Ligo pro Batman?”

No dia seguinte, ainda de ressaca, mas muito de ressaca, quero dizer de ressaca pra caramba mesmo, Adolfo acordou e pegou o número de telefone no bolso do casaco. Ficou olhando pro número e pensando. Bem, era uma garota linda. E se era linda porque tinha passado o número pra ele? Provavelmente nem era o número certo. E se fosse, ela provavelmente tinha passado só pra ele sair do pé dela. E mesmo se não fosse, ele iria dizer o que? Que ele era o bêbado da noite anterior? Seria ridículo. Decidiu então não ligar e se poupar de uma situação que pra ele parecia ter tantas chances de dar certo quanto um foguete espacial construído com chiclete e papel molhado.

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“Não acho que vá funcionar, sei lá…”

E Adolfo seguiu sua vida, basicamente deixando o episódio de lado, esquecido como um guarda-chuva num dia de sol ou um DVD do grupo Copacabana Beat numa livraria megastore. Até que um dia ele estava em uma comic-shop folheando algumas revistas e decidindo se deveria ou não comprar um encadernado do Starman quando acabou trombando com um rapaz carregando uma pilha enorme de mangás. Educado, ajudou o rapaz a se levantar e encetou com ele uma breve conversa, na qual notou alguns aspectos da personalidade do rapaz, como uma nerdice elevada até mesmo para os padrões adolfianos, assim como um traquejo social menor até do que o de Adolfo e o fato de que, bem o rapaz era esquisito, até mesmo em comparação com Adolfo, que não era exatamente normal.

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“Mais estranho do que a ficção. E mais estranho do que Adolfo também.”

Durante a conversa ele também ouviu entusiasmados comentários do rapaz sobre sua namorado, que era linda, compreensiva, carinhosa, divertida e, olha só que coisa engraçada, eles tinham se conhecido num dia em que ele, tímido, havia enchido a cara e pedido o telefone dela. Aí eles saíram, se apaixonaram e estavam muito felizes, fazendo dois meses de namoro. Adolfo ouviu a história com o mesmo nível de ceticismo que São Tomé e o Padre Quevedo teriam se fossem comprar um carro usado do Pastor Silas Malafaia, mas deu parabéns para o amigo recém-conhecido e o ajudou a carregar sua carga de mangás até o estacionamento, onde a namorada dele estaria esperando. Chegando lá, eles encontram a garota do viciado em mangás, que evidentemente era a garota de quem Adolfo tinha pedido o telefone meses atrás.

Moral da história: Nunca puxe papo com leitores de mangá.

(Este post teve seu formato baseado no post “Bibliotecário desaparecido“, do Blog da Elisa )

(Obrigado ao pessoal de Goiânia e ao Zé pela divulgação do blog e pela estranha sensação de ter mais leitores em Goiânia do que em qualquer lugar do planeta [incluindo a amada Cataguases]. Valeu, gente!)

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