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Crônicas #1

Poucas coisas são mais difíceis do que contar uma boa notícia. Sério. Principalmente se for boa só pra você, ainda que não cause nada de ruim pros outros. Afinal, todo mundo está preparado pra te ouvir dizendo algo como “Cara, meu pai morreu!”, “Cara, peguei AIDS”, “Cara, roubaram meu carro” ou mesmo “Cara, roubaram meu carro e mataram meu pai com ele, e quando eu fui no hospital ver o corpo alguém me contaminou com o vírus da AIDS”. É simples, você faz uma cara compungida, pensa bem no problema que a pessoa teve e diz algo como “Porra, cara, que foda, hein? Vem cá, vou te pagar uma bebida e um AZT”. Simples, até mesmo pra um desconhecido. É significativamente fácil se comover com o sofrimento das pessoas que você não conhece ou conhece pouco e ter uma atitude simpática e acolhedora. Mas complicado é ouvir alguém falando sobre algo legal que aconteceu com ela.

Claro, se for um amigo ou uma pessoa de quem você gosta é fácil. Por exemplo, eu comemoro cada vitória de um amigo, familiar ou mesmo de um conhecido de quem eu gosto como se fosse algo meu também. Yuri ficou com uma mulher gata? Ueba! Meu irmão ganhou o campeonato da faculdade? Yeah, baby! Angélica e Thiago (duas das pessoas mais legais que eu conheço) acharam parceiros à altura? Pô, já mereciam faz tempo. Mas claro, nem sempre é assim. Exemplo clássico é quando chega aquela pessoa de quem você evidentemente não gosta e te conta que arrumou um emprego melhor que o seu e está pegando a morena do outro setor que você queria chamar pra sair. Você rosna baixo, sorri, diz parabéns e pensa “FDP maldito do inferno, tomara que um cachorro leproso te lamba a cara, babaca…”.

É inerentemente complicado para o ser humano ficar feliz com a felicidade dos outros. É sempre mais divertido ser solidário com o problema, com a desgraça, com a destruição total da vida do outro. Eu descobri isso esses dias, quando recebi uma torrente de boas notícias (na verdade foram duas, mas pros meus padrões dois é praticamente um zilhão. Afinal, como disse meu avô certa vez “os homens nessa família só dão uma boa notícia…quando o médico diz que nasceram com saúde…depois é só problema”) e vi que eu não sentia vontade de contar pras pessoas. Eu estava feliz, animado, mas me sentia absurdamente chato contando pras pessoas. Afinal, era uma boa notícia. Bem mais fácil e legal falar de problemas do que contar que algumas coisas legais estavam acontecendo, porque falar das coisas legais me dava vergonha. Eu quase dizia algo como “Bem, aconteceu isso, que foi bom…Mas tenho certeza que daqui a uns dias eu vou ser atropelado ou ter uma daquelas reações alérgicas que me fazem parecer um peixe! Legal, não?”

No final acabei contando apenas pras pessoas que perguntaram, ainda que eu planeje contar pra mais algumas pessoas selecionadas (basicamente “vocês”). Mas sério, dar boas notícias dá um baita peso na consciência. Ainda bem que em breve eu vou quebrar um braço ou coisa assim.

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