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Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

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E tinha um casal brigando no mercado. Ela dizia que ele era um canalha, ele falava que ela estava sendo uma vaca, ela tentava pegar o celular da mão dele, ele se defendia com o que parecia ser um pacote amassado de pão integral, o carrinho balançando perigosamente entre os dois, uma bandeja de ovos vermelhos ali prestes a cair.

No entorno o clima era de constrangimento. Idosos desviavam o olhar, mães puxavam seus filhos para o lado, outros casais pareciam estranhamente mais interessados do que de costume no processo de escolha de congelados pro jantar – “mas amor, olha esse aqui, esse tem brócolis também” – e eu perguntava para um repositor por que não tinha mais maçã da turma da mônica no que poderia parecer uma tática de distração mas era uma dúvida genuína, já que eu sou péssimo escolhendo fruta, as maçãzinhas da turma da mônica sempre vinham muito gostosas e ensacadinhas, era bem prático, fiquei chateado de não achar.

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Meus 4 tipos favoritos de casal – Uma análise antropológica feita por quem está de fora

O casal amigão: Mais do que um casal, eles são seus amigos. É com ele que você bebe e joga bola, é com ela que você fala sobre garotas e pede conselhos de roupa, numa relação que só não pode ser chamada de adoção porque seria muito esquisito dormir na casa deles.  Eles te apresentam garotas, te animam quando você está chateado, dão palpites nos seus possíveis relacionamentos e te ajudam a se sentir menos desconfortável num mundo composto apenas por casais, além de te dar a oportunidade de ver praticamente o making-of de uma relação, com erros de gravação, cenas excluídas e não, nada de cenas picantes porque, como eu disse, isso seria esquisito. Eles são seus futuros padrinho/madrinha de casamento e sim, tomara que eles nunca terminem, porque você não suportaria uma outra disputa pela sua guarda após o divórcio dos seus pais.

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Mais pequenas histórias românticas

Voltando do trabalho de metrô, quase seis da tarde, cansado, mochila nas costas, fones de ouvido no volume máximo, uma música sobre estar esperando por alguém na neve até estar congelado como Walt Disney. Estou eu de pé, meio pendurado, curtindo aquele clima de “rave gospel numa lata de sardinhas” que só o transporte público carioca consegue dar, quando reparo num casal.

Os dois tinham vinte e poucos anos e estavam sentados num banco próximo a mim, ouvindo música juntos, compartilhando os fones de ouvido. Claro, isso por si só já é…sei lá…romântico…(ainda que seu otorrino vá dizer que é pouco higiênico, mas o que otorrinos entendem sobre romance?), mas para eles era pouco. Os dois ainda faziam questão de cantar um pro outro, intercalando beijos com os versos da música, sempre com aquele sorriso de pessoa apaixonada, daqueles que parecem tão grandes que você tem medo que a pessoa engula as próprias orelhas. E durante cinco estações eles ficaram assim, cantando um para o outro, sorrindo e se beijando, até que a garota teve que descer do vagão. Se despediram e ela saiu, caminhou em direção a janela e encostou os lábios no vidro pelo lado de fora, enquanto ele fazia o mesmo pelo lado de dentro (sim, seu médico também dirá que isso não é muito recomendável, ainda mais em tempos de gripe suína e tudo mais). Logo depois disso ela foi embora caminhando saltitante e ele continuou ouvindo música dentro do vagão, sorrindo para o vazio como alguém que tivesse injetado 600 g de açúcar refinado na própria veia.

Vendo aquele casalzinho ali com toda aquela felicidade a primeira coisa em que eu consegui pensar foi em como aquelas duas pessoas conseguiram criar uma pequena bolha em torno delas. Eles estavam ali, juntos, e simplesmente não notavam o resto do mundo, não se incomodavam com nada. O metrô lotado, as pessoas esquisitas travando as portas, o ar-condicionado desregulado, o cara ouvindo pagode no celular como se estivesse num churrasco, a voz metálica assustadora anunciando as estações. Enquanto eles estavam juntos não viam problemas, não sentiam medos, não viam as outras pessoas, não sentiam vergonha de nada que fizessem se fosse um pro outro. Eles tinham, não sei como dizer, a própria bolha pessoal de felicidade.

E estou eu lá ainda olhando meio abobado para o casal  e quase vendo balões em forma de coraçõezinhos quando me viro para o lado e tem uma garota de óculos, mais ou menos da mesma idade que eu, também reparando na cena. Ela nota que estávamos os dois olhando pra mesma direção, dá uma ajeitada na franja  e olhando pra mim, diz com  uma cara irritada e aquele sotaque carioca puxado: “mas cantam mal pra cacete os dois, não? Puta que os pariu…”.

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