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Viagem na hiper-realidade cotidiana

Como eu li, aos 17 anos, naquele livro do Baudrillard dentro do qual o Neo esconde o disquinho no primeiro Matrix, um dos conceitos mais instigantes da semiótica (e da filosofia) pós-moderna é a hiper-realidade. E o que seria a hiper-realidade? Explicando a grosso, rústico e pedreiro modo, a hiper-realidade é a perda da capacidade, por parte da consciência, de distinguir a diferença entre a fantasia e a realidade devido à exposição a simulacros dessa realidade, versões alteradas, aperfeiçoadas e produzidas de uma realidade existente ou não. Ou seja, é quando de tanto conviver com uma versão alterada da realidade você acaba perdendo totalmente a noção do que é a realidade “real”, vivendo dentro dos conceitos apreendidos nessa realidade “aperfeiçoada”.

Eu, numa apropriação muito…humm…imprópria, das teorias do querido Bodinha (e também de outros caras divertidões, como o Umberto Eco) sempre me interessei pelos aspectos da hiper-realidade presentes nos diversos gêneros do cinema. Afinal, todo mundo fala que a pornografia é um simulacro aprimorado da vida sexual real e tem a capacidade de distorcer os conceitos que as pessoas têm sobre o sexo de verdade. Isso é óbvio. (Afinal, poucas pessoas no mundo têm uma vida sexual que consista na seqüência: 1-Chegar trazendo a pizza, 2-Ser apalpado, 3-Sexo oral, 4-Sexo vaginal, 5-Sexo anal, 6-Ejaculação no rosto, 7-Tchauzinho pra câmera).

Também é fácil citar a ficção científica como ambiente “gerador” de hiper-realidade, já que ela extrapola a realidade científica e o próprio progresso científico, dando uma falsa idéia de evolução linear rumo a um futuro de satisfação dos desejos e felicidade gerada pelo progresso técnico. Ou seja, ela te dá a impressão de que, pelo menos tecnicamente a sociedade evolui e essa evolução se encaminha para um ponto interessante, produtivo e divertido, onde iremos nos teleportar e todo mundo vai ter um amigo de camisa azul e orelhas pontudas que diz que nossas atitudes são “ilógicas”. (eu tenho um amigo que faz isso, mas ele é gordo e barbudo, nada de orelhas pontudas…frustante…)

Mas esse são alvos fáceis, coisa pra amadores, por isso que Albert Borgmann e Daniel Boorstin nunca são chamados pras nossas peladas de terça e nem pras nossas rodas de pôquer de quinta. O verdadeiro elo perdido do hiper-realismo no cinema é, como eu já disse em vários artigos anteriores, a comédia romântica. A comédia romântica, assim como a pornografia e a ficção científica, pega elementos do real (no caso da pornografia o sexo, no caso da FC a ciência e no caso da comédia romântica os relacionamentos, a convivência de casal, o flerte) e os extrapola e distorce para criar uma nova realidade simulada, que pra muitas pessoas acaba substituindo o universo real, já que seus conceitos se sobrepõem aos conceitos que a “realidade não simulada” gerariam.

Exemplos clássicos disso que podemos citar vão desde a forma como o flerte é representado na comédia romântica, sempre mais elaborado, inteligente e funcional do que realmente é (numa comédia romântica a aproximação do homem sempre ocorre com alguma frase bem-humorada, absurdamente espontânea, na qual 3 roteiristas passaram 2 meses pensando, enquanto no mundo real quase sempre a cantada é alguma forma nada criativa de começar um assunto que é apenas um preâmbulo obrigatório para que o contato físico ocorra. Isso caso não se trate de uma micareta. Numa micareta não existem preâmbulos, acho que nem se o Durval Lélis pedir pra todo mundo repetir a palavra); até o conceito de uma felicidade pessoal e de uma recompensa emocional que nenhum relacionamento real efetivamente oferece (afinal, todo mundo tem seus dias bons e ruins, e enquanto relacionamentos reais são feitos de conflitos e fases, relacionamentos de comédia romântica são feitos de busca de parceiro ideal seguido de… nada. A história sempre acaba aí, como se encontrar o parceiro certo encerrasse todo o processo de romance e construção de vida a dois).

E a difusão, através do cinema (e de outras mídias, já que os conceitos básicos da comédia romântica também se reproduzem em livros, séries e novelas) dessas idéias, que substituem as idéias que embasariam um relacionamento real, levam a expectativas e atitudes distorcidas no campo do “romance/flerte/relacionamento”, o que causa a ruína de boa parte dos relacionamentos inter-pessoais no mundo pós-moderno.

Em suma, resumindo a grossíssimo modo, sua avó e seu avô conseguiram passar 70 anos casados porque eles não esperavam grande coisa um do outro. No máximo refeições quentes e reprodução da espécie. Os namoros de hoje não duram seis meses porque se espera compreensão mútua e magia romântica freestyle sem fim, o que é bem mais complicado e irreal. Mais fácil acreditar no cara de azul com orelhas pontudas. “Você está agindo de forma ilógica, James”.

Nas próximas semanas: “Pornô: uma análise semiótica de roteiro”.

Bônus track: “How to Recognize a Porn Movie“, o artigo do Umberto Eco em que ele resume a identificação de um filme pornô na fórmula “…se para ir de A até B os personagens gastarem mais tempo do que você gostaria, então o filme que você está assistindo é pornográfico”.

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