Arquivo da tag: contos

Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

woody

Começou como uma brincadeira. Estavam na festa de aniversário dos avós dela e depois da sétima ou oitava vez que perguntaram como tinham se conhecido ele viu que não queria mais contar a história de como tinha atropelado o pug dela no parque. E pro primo dela disse que tinham se conhecido num show, ela estava caindo da grade, ia ser pisoteada pela multidão insana, e ele esticou a mão pra ajudar. Pra uma tia falou que tinham se encontrado na saída de uma livraria, ele carregava uns livros, ela segurou a porta, tomaram um café. Pra avó falou que era um segredo, nem a Lu sabia, mas eles tinham estudado no mesmo colégio, ele duas turmas acima, e sempre tinha sido apaixonado por ela, mas só agora tinha se declarado. Pra empregada falou que tinha sido pela internet, pro cara do churrasco disse que tinha sido uma amiga em comum. Pro tio Rubem falou que ela tinha ganho ele da ex-namorada, numa partida de pôquer, mas ele não se sentia objetificado porque era um homem moderno.

Continuar lendo

23 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, romantismo desperdiçado

Mini-conto #6: “Para uma namorada ausente”

A verdade é que eu estou sentindo sua falta. Eu queria achar uma forma mais madura, mais sutil e possivelmente menos carente de dizer isso, mas acho que não tem como. Eu sinto sua falta, eu estou com saudades e eu gostaria que você estivesse aqui comigo, porque sem você está sendo complicado. Sério, muito complicado. Assim, foda mesmo.

Sabe essa coisa toda de quando a pessoa está longe você entender que está amando, o tempo demorar pra passar, a comida não ter mais o mesmo gosto e você se pegar citando involuntariamente um dueto entre Bryan Adams e Mel C. e ficar muito envergonhado tanto por uma coisa quanto pela outra? Bem, é assim que eu estou me sentindo. Sem você as coisas não tem tanta graça, o mundo não é tão divertido e eu viro um cara que é mais atento a carreira solo de ex-Spice Girls do que deveria. É apenas errado, sabe?

Continuar lendo

13 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, contos, romantismo desperdiçado, situações limite, Vida Pessoal

Mini-conto #5: “Mary Marvel”

mary marvel

Nós dois estávamos deitados na cama e ela tinha acabado de contar uma história. Coberta até o pescoço, se ajeitava no travesseiro enquanto eu encostava as pontas dos meus dedos descalços na sola do pé gelado dela, meio fazendo carinho, meio fazendo cócegas, meio fazendo nada. Ela pegou alguma coisa no criado mudo e virou pra mim, sorrindo. Eu sorri de volta e ela, encostando uma perna na minha, me perguntou “o quê?”.

Minha primeira reação foi dizer um “você é linda, sabia?”. Primeiro porque era verdade, ela era sim linda. Os olhos dela me desarmavam, o sorriso dela me deixava a 5 cm do chão, o jeito como o cabelo dela caia na testa mexia com sentimentos que eu nem sabia que tinha e possivelmente relacionamentos duradouros já tinham começado baseados em menos afeto e atração do que eu sentia pelo lóbulo esquerdo da orelha dela, num dia em que ela achava que estava “desarrumada e sem graça”, chegando do trabalho ou coisa assim.

Continuar lendo

10 Comentários

Arquivado em contos, Ficção

As novas aventuras de Sherlock Holmes e Dr. Washington

Capítulo 1 – Uma introdução

Maria entrou pé ante pé no quarto silencioso e escuro, tentando não tropeçar em meio ao caos de livros, móveis e jornais espalhados. Havia batido na porta mais de uma vez sem resposta, mas depois dos dois dias sem nenhum sinal de vida no quarto, achou que seria, se não uma prova de cuidado com seu inquilino, uma atitude precavida, descobrir se algo havia acontecido. Não precisou de mais do que dois passos para ouvir primeiro a tosse e depois a voz características de Holmes.

“A que devo a honra dessa visita, Sra. Ferreira?”

Ela olhou hesitante para os lados por alguns instantes, até conseguir localizar a origem da voz, ou ao menos o pequeno brilho gerado pelo cachimbo de Holmes, cujo cheiro de fumaça chegava indistinto até Maria. Respirou fundo e respondeu.

Continuar lendo

14 Comentários

Arquivado em contos, Ficção

Mini-conto #4: "Berinjela à milanesa"

A verdade é que sempre tinha gostado mais de frango. Desde garoto, desde pequeno. Não que não gostasse de um churrasco ou deixasse de ver graça quando o avô cozinhava carne de porco no sítio, mas sempre teve uma predileção pela carne de aves que ia desde a mais rústica galinha ao molho pardo até o mais industrializado e nada sadio frango frito, desses que dá pra pedir em baldes nos fast foods, passando pelos chesters anabolizados e as codornas que seu pai havia aprendido a fazer naqueles programas da TV.

Continuar lendo

10 Comentários

Arquivado em contos, Sem Categoria

Crônicas da ex-adolescência #5 – Flauta andina

Nós vivemos em mundo cheio de mistérios. O mistério da vida. O mistério do amor. O mistério da fé. O mistério do Cinco Estrelas. O mistério da Libélula (com Kevin Costner). E claro, o mistério da flauta andina. Sim, ela, a flauta andina, aquele instrumento musical que representa tudo de pior que a cultura dos Andes tem a nos oferecer (“ponchos? maneiro! lhamas? cooool! futebol na altitude? eu topo, mas vou precisar de um tubo de oxigênio e liberação da Conmebol”) e quase sempre, quando é encontrado por qualquer um de nós tendo suas gravações vendidas por homens vestidos como o Steven Seagal numa praça do centro da cidade desperta a mesma velha questão: quem diabos compra uma coisa dessas? Esta é a história de como eu descobri isso.

Continuar lendo

8 Comentários

Arquivado em contos, Crônicas, crise de meia meia idade, Mundo (Su)Real, Vida Pessoal

Pequenos trechos de um conto de Natal

“Era uma manhã nevada no norte do Maine quando Joe chegou com Maggie até a soleira da casa dos pais para passar o Natal. O vento forte havia castigado o casal na pequena distância entre o carro e a porta, e esses haviam sido os únicos momentos da viagem nos quais Joe não estava sorrindo. Ele queria que Maggie se sentisse o mais querida possível, que sentisse que a família dele era um pouco dela, que ali ela poderia estar em casa. O fato do Tio Oswald estar tentando colocar o pênis dentro do tanque de combustível do carro não parecia estar ajudando.”

Continuar lendo

11 Comentários

Arquivado em contos, Mundo (Su)Real

Publieditorial #13: Um apelo pessoal

Devido a alguns problemas de comunicação com a editora, parece que tem sido bem complicado obter cópias dos dois volumes das coletâneas de contos das quais eu participei e que saíram pela Belacop no decorrer deste ano (e eu fico muito grato mesmo aos que tentaram). Então, ainda que eu sinceramente ache que poderia ser mais interessante manter um baixo número de exemplares no mercado para que o livro algum dia se torne cult, tomei a atitude de conseguir mais algumas cópias para que eu mesmo possa realizar a venda direta, na base da amizade e da parceria, sem abuso, sem abuso, como diria Leandro Lehart.

Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Book Review, Milton Neves, vida profissional

Mini-Conto #2: “Depois de ter vivido o óbvio utópico…”

Separou o rosto do dela e viu que ela ainda estava de olhos fechados. Havia claramente dois sorrisos bobos pairando no ar e ele sabia que possivelmente era o dono de um deles. Aquele era um primeiro beijo e ele já tinha aprendido com o tempo que primeiros beijos davam uma das melhores sensações que ele tinha na vida (e isso num universo pessoal de competição muito complexo e que envolvia sensações tão díspares quanto pizza de pepperone recém-saída do forno, almoço de família, gol de bicicleta em campo molhado, elogio de chefe do chefe e reencontro de amigos da faculdade).

Continuar lendo

23 Comentários

Arquivado em contos, Sem Categoria

Sobre o livro

E o livro chegou. Foi numa quinta-feira insólita, em que eu tinha feito coisas tão esquisitas quanto malhar sem me sentir miserável depois, assistir duas aulas da auto-escola, ser produtivo e pró-ativo no trabalho e cantar Accidentally in Love no centro do Rio junto com um cara usando um nariz e uma peruca de palhaço (sim, eu sei, é estranho. como assim eu fui na academia sem sentir dor, certo?). E aí quando eu cheguei em casa dois pacotes me esperavam: um era o “Story”, do Robert Mackee, um livrão sobre roteiro que eu comprei (porque um dia, sim, amigos, um dia, eu ainda irei escrever o roteiro da adaptação do Besouro Azul para os cinemas) e o outro era um pacote maior e mais simpático, com a editora de São Paulo como remetente. E lá estavam eles (mas também, o que mais poderia estar? um falcão maltês? um dos muppets?). Verdinhos, simpáticos, com meu nome na última capa e dois contos meus dentro. E admito, foi uma sensação muito boa.

Mas vou poupar vocês da longa digressão que resumiria os grandes momentos legais da minha vida (mesmo porque ainda que eu ache divertido falar com vocês da minha primeira HQ ou do meu primeiro curta exibido num festival, acho que a gente realmente não quer discutir a minha primeira vez ou entrar de novo no lance da corrida nudista coberto pela pele de capivara) e ir logo para os aspectos mais…práticos da coisa, abrindo apenas um colchete de duas linhas pra expressar a minha felicidade neste momento.

Continuar lendo

12 Comentários

Arquivado em Good News, Milton Neves, No News, Sem Categoria, vida profissional