Arquivo da tag: dramas da vida real

Breves soquinhos que a vida dá na sua autoestima enquanto ela está distraída: casos #55 e #56

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a moça hostil do caixa: quase sempre tudo começa com alguém trabalhando muito feliz. é a moça do caixa, é a recepcionista do médico, é a vendedora da loja, é a garçonete do bar. ela atende animada o velhinho que tem cachorro, ela fala que não tem problema nenhum o rapaz ter vindo sem a carteirinha, ela garante que vai achar o tamanho certo do calçado, ela serve o suco de laranja com carinho e ainda oferece chorinho – “bebe rápido que tá transbordando e ainda tem mais aqui na jarra”. você nota que ali tá uma pessoa que tá tendo um dia bacana, que tá feliz de trabalhar, que tira satisfação da sua atividade, que mesmo na dureza do capitalismo ainda rima mais valia com alegria. a fila vai indo, os clientes vão passando, mas a felicidade continua, o ânimo persiste, o clima é de alto astral e parece que nada vai abalar a paz de espírito daquela pessoa no trato com os clientes naquele dia. até, é claro, que chega a sua vez.

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Breve adendo ao dicionário de situações chatas que a gente vive por tabela

todd bojack

sempre acontece de madrugada. você tá ali no intervalo de um filme triste da sandra bullock, na pausa de um momento triste do desenho bojack horseman, no final de uma partida triste do pes 2015 (como são ruins os gráficos do pes 2015, meu deus do céu). tira o celular do bolso casualmente enquanto pega uma água, dá aquela conferida no instagram, passada de olhos no facebook, desiste do whatsapp porque no grupo da pelada ressuscitaram o vídeo em que um peixe pratica sexo oral num cara e você não tá vivendo um momento emocional que te permita assistir essas imagens outra vez. chega no twitter, puxa a barrinha pra baixo, e lá está, aquela cena que é tão clássica pra virada de sexta pra sábado na internet quanto a origem do batman é pra uma hq da dc, quanto o “ganhar da argentina é sempre mais gostoso” está pras eliminatórias sulamericanas: a gatinha pagando de carente na rede social.

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Sobre duas lições aprendidas em um voo da Tam, o pior ser humano do mundo e a webcelebridade Inês Brasil

old plane

lição #1: nunca acredite que ja viu de tudo sobre um certo tema, conceito ou situação.

daí que você viaja bastante de avião. tem namoro à distância, tem viagem de trabalho, tem parente fora, tem férias, graças a deus que tem férias, tem bastante viagem. e daí você acha que já acostumou com aeroporto, já pegou as manhas do avião, já se ligou no mistério no que tange ao transporte aéreo no brasil. só vai pra perto do portão quando o voo tá confirmado, tem malinha do tamanho exato do bagageiro, sabe que a pressão funciona tanto com um funcionário da gol quanto propostas de acordo do prometor funcionam com um integrante da cosa nostra.

ao mesmo tempo, pelo tanto de viagens que já fez, você também começa a achar que já viu tudo de escroto que pode acontecer num aeroporto. o cara tentando entrar no avião com uma pizza pronta, o cidadão fumando na poltrona, a senhora que vomitou do seu lado, mudou de poltrona, você tentou mudar de poltrona, a comissária não deixou, você viajou cheirando vomitinho, o campeão tentando colocar uma prancha de surfe no compartimento de bagagem, o passageiro que incentivava o filho a chutar mais forte a poltrona da senhora da frente. na sua cabeça filhadaputice era cambalhota e você era o cinegrafista do cirque du soleil. não tinha como te impressionar. Continuar lendo

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Mais dois intensos adendos ao intenso catálogo pessoal de momentos de frustração intensa

bruce

# na linha das grandes palavras de consolo que não servem exatamente pra te consolar, junto com “gosto de você, mas como amigo” e “poderia ter sido nos dois braços, né?”, o famoso “o senhor tem razão mas não podemos fazer nada” tem a intenção de atenuar uma verdade profundamente negativa – não poderem fazer nada – com uma informação que em tese deveria ser positiva – você ter razão. o problema principal com essa lógica, a de que você se sentiria menos chateado de ter ido ao banco pra nada/pago em dia e ainda assim cobrarem juros/ter ficado uma hora no telefone pra não resolver seu problema, é que nesse tipo de situação ter razão não é um atenuante mas sim um agravante para o quão louco das calças você vai ficar com essa palhaçada. 

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Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

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3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

Parksandrec_Bendisaster

#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

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Três coisas que aconteceram comigo nesses meus seis anos no Rio de Janeiro e que talvez não tenham ligação direta com o fato de eu estar no Rio de Janeiro mas eu vou sempre associar com o fato de que eu tava no Rio de Janeiro

evandro mesquita
o ano era 2009, eu era apenas um garoto de óculos recém-chegado do interior e, após me apresentar no meu emprego novo, ali na região da cidade nova, fui pegar, sozinho,meu primeiro ônibus em direção à rodoviária, na intenção de voltar pra juiz de fora e dizer pra minha mãe que tava tudo bem, confirmado, eu ia mudar de cidade, o beliche era todo do julio agora. “é muito fácil”, me disseram. “o ônibus pra rodoviária tá escrito rodoviária nele, ele vai te deixar na rodoviária”, me disseram. veio o ônibus, nele tava escrito rodoviária. eu entrei. munido daquela desconfiança praticamente genética que habita o corpo do cidadão mineiro, eu, mesmo vendo que na frente dizia rodoviária, mesmo vendo que do lado dizia rodoviária, mesmo vendo que dentro dizia rodoviária, perguntei pro motorista “esse ônibus vai pra rodoviária?”. ele falou “não”. eu imaginei que fosse ironia, mas na cara dele não se lia ironia, e ele tava me esperando descer. aí eu falei “não? mas aqui diz rodoviária”. aí ele falou “tá falando sério?”. eu falei “tô”. aí ele saiu do ônibus, olhou lá fora e falou “PUTAQUEPARIU, CARALHO” e voltou pra dentro do ônibus. “PUTA MERDA, ele repetiu”. e aí ele gritou lá pra trás “AGORA TAMOS INDO PRA RODOVIÁRIA, PRA RODOVIÁRIA”. no caminho pra rodoviária o ônibus bateu de leve numa kombi mas chegamos bem. eu até hoje prefiro andar de metrô no rio de janeiro.

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Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

jammed

#o solução retroativa: e aconteceu um problema. é daquele problema que fica na zona cinza entre o problema grave, a perda pessoal, e o problema pequeno, a inconveniência da vida. o tipo de problema que poderíamos caracterizar como “problema meio foda”. seu computador pifou com a sua monografia dentro, perderam sua mala no aeroporto com suas roupas, estourou feio o cano do seu banheiro, chegou na cidade e o hotel alega que sua reserva não tá constando. você tá baqueado, tá chateado, destino te estapeou com a luva áspera da mágoa surpresa, mas você ainda acredita no semelhante e, visando obter o máximo de retorno possível, faz aquele post no facebook. “alguém sabe de um cara que recupera hd?”, “alguém já passou por isso com a tam?”, “conhecem encanador bom na zona sul?”. é um pedido de coração aberto, é uma solicitação focando nos amigos, é aquela mão de bytes estendida no cyberespaço em busca de um braço forte e ombro amigo que indique alguém que não cobra 300 reais só pela visita na zona sul, você compra as peças. surgem os amigos. um diz que vai ver com um primo que passou a mesma coisa, outro te recomenda um links, vários apertam no botão “solidário com sua dor ainda que não possa ajudar” do facebook.

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Mais duas breves inseguranças causadas por filmes que eu vi faz um tempinho

ben affleck

# começou quando você viu aquela comédia romântica com o rapaz de harry potter. comédia romântica só fofura, comédia romântica só carinho, comédia romântica é mocinha e mocinho, aquela torcida, não tem grande surpresas. quinze minutos e você não tá curtindo o mocinho, meia hora e você tá simpatizando com o namorado da mocinha, uma hora de filme e você tá torcendo contra o casal, manifestando em voz alta que romance é mais que momento, que é fácil ser romântico sem as contas pra pagar, que estabilidade também é importante na vida. e aí você nota que na comédia romântica da vida você claramente não é o mocinho mas sim o namorado da mocinha. você não faz grandes gestos, você pede comida em casa, você defende rotina, você gosta do restaurante de sempre, você não é do tipo que leva flores mas sim do tipo que diz pra não esquecer a notinha fiscal do outback porque depois dá pra pegar petisco grátis da próxima vez (se possível as asinhas porque você curte asinha). você fica bem pensativo. você não gosta de imaginar sua namorada perto de caras parecidos com o adam sandler agora. você tá preocupado. comédia romântica com o rapaz de harry potter te deixou preocupado.

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Doenças da modernidade: caso #3, a “lesão físico-cognitiva”

contemplative jazz music

A lesão físico-cognitiva: Nome dado a um grupo de lesões de pequena e média gravidade que tem como principais traços em comum o fato de que a) são infligidas pela vítima a si mesma, de maneira involuntária e b) o dano psicológico gerado por elas é sempre tão ou mais sério do que o dano físico. Isso acontece porque sendo quase sempre a lesão resultado de um descuido ou distração, a vítima sofre tanto com a dor física da contusão quanto com a humilhação de saber que é ela mesma a responsável direta ou indireta pelo ferimento, levando a momentos de desequilíbrio emocional, auto-recriminação ou apenas de questionar a própria capacidade de residir sozinha em um ambiente onde também estão presentes lâminas afiadas e caixas metálicas de onde sai fogo.

Abaixo seguem alguns dos mais comuns exemplos de lesão físico-cognitiva:

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