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Vietnã, 1968, visualizada mas não respondida

texting

justificativas aceitáveis pra que você tenha visualizado aquela mensagem e não respondido: estava ocupado; estava no trânsito; estava tendo um dia ruim; esqueceu; o 3g estava falhando; problemas no aplicativo; estava envolvido em uma partida especificamente competitiva de war e quando começou a digitar alguém gritou SEM CELULAR SEM CELULAR; achou que tinha mandado mas nunca tinha clicado enviar; “puuutz, eu queria responder mas aconteceu um negócio”; não pensou numa boa resposta na hora; estava tentando indicar de maneira sutil que não havia interesse em continuar a conversa sem necessariamente causar o pequeno drama de explicar isso com palavras achando que um gesto vagamente cruel mas direto poderia realizar essa função; “meu cachorro comeu meu celular”; estava com uma certa birra porque ela demorou demais na mensagem anterior.

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Arquivado em é como as coisas são, referências, situações limite, Vida Pessoal

Mini-conto #22 – “Quatro momentos em que Adolfo queria dizer alguma coisa para Patrícia e acabou não dizendo, porque vocês sabem como são essas coisas″

capa blog
era novembro, era o segundo encontro, era ela rindo com o copo de cerveja na frente do rosto. ela era linda, o sorriso era lindo, a cerveja parecia mais gostosa, o bar parecia melhor, as buzinas do trânsito pareciam tocar uma canção, a vida era tão parecida com uma produção da disney que ele estava surpreso de nem ele e nem ela terem como amigo um animal falante. ela ajeitou o cabelo, olhou pra ele, perguntou se estava tudo bem. ele queria dizer que estava tudo ótimo. ele queria dizer que tudo estava muito ótimo. ele queria dizer que na verdade ele nem tinha ideia do quão não-ótimas as coisas estavam antes porque ela tinha criado pra ele um novo referencial de ótimo, e agora ele teria que recalcular tudo que ele já havia considerado ótimo baseado no quão ótimo aquele momento era e ele desconfiava que nenhum outro momento já havia sido tão ótimo porque nenhum outro momento tinha tido ela, tinha tido aquele sorriso, tinha tido aquela ajeitada de cabelo, tinha tido aquele nariz tão pertinho do dele. ela perguntou de novo. “tá tudo bem?”. ele respondeu “opa, sim, tinha engasgado aqui com a espinha do peixinho”. eles tavam comendo batata frita.

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Arquivado em contos, Ficção, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, situações limite

Mais dois momentos de saturação das redes sociais que testam um pouquinho demais o nosso caráter

dinesh

o elogio negativo: você tava até com uma certa vontade de assistir o filme. tinha visto o trailer, achado bacana, pinta de ser interessante. quando o primeiro amigo falou bem, você pensou aquele “ah, é bom mesmo então, né?” mas naquele sábado tava ocupado, não deu pra ver. na semana seguinte mais amigos elogiaram, cada vez com mais ênfase e você ficou “eita, mas deve ser top demais nesse caso”. mas os compromissos foram se emendando, o tempo foi escasseando, e os elogios tomaram também as redes sociais, cada vez com mais intensidade. “um filme que todo mundo devia ver”, “o melhor filme do ano”, “muito melhor que o filme x ou y”. você, que gostava do filme x ou y, que acha que o ano ainda tá muito no começo, começa a pensar que “ok, não tem como ser tão bom assim”. quando alguém diz que é um filme “obrigatório” e que “se você não gostar você não sabe o que é cinema”, você sente a sua curiosidade rapidamente se transformando num napolitano emocional com os sabores birra, antipatia e desconfiança, tudo servido numa taça com confeitos e até mesmo calda quente. quando começam a sair os textões no facebook, as resenhas emocionadas, as pessoas no twitter trocando o user delas pra nome de personagens do filme, você já está tão contra o filme que quando finalmente vai ao cinema pra assistir precisa comprar duas entradas, uma pra você e outra pra sua má vontade, que já assumiu um corpo sólido e ainda come quase toda a pipoca. você, claro, gosta do filme, era bom mesmo, mas nunca admite abertamente e evita discussões sobre o assunto por uns dois anos.

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Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Desocupações

Mais dois intensos adendos ao intenso catálogo pessoal de momentos de frustração intensa

bruce

# na linha das grandes palavras de consolo que não servem exatamente pra te consolar, junto com “gosto de você, mas como amigo” e “poderia ter sido nos dois braços, né?”, o famoso “o senhor tem razão mas não podemos fazer nada” tem a intenção de atenuar uma verdade profundamente negativa – não poderem fazer nada – com uma informação que em tese deveria ser positiva – você ter razão. o problema principal com essa lógica, a de que você se sentiria menos chateado de ter ido ao banco pra nada/pago em dia e ainda assim cobrarem juros/ter ficado uma hora no telefone pra não resolver seu problema, é que nesse tipo de situação ter razão não é um atenuante mas sim um agravante para o quão louco das calças você vai ficar com essa palhaçada. 

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Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, Sem Categoria

Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

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Uma coisa que aconteceu comigo semana passada no metrô e que, se eu fosse convidado pra participar de uma dessas coletâneas do tipo “I love rio” seria a trama do meu segmento

city of god

daí que eu tinha saído do futebol lá na tijuca e entrei no metrô. no rosto aquele cansaço e aquele desespero que apenas o atleta de meio de semana e o jogador profissional márcio araújo conseguem demonstrar, o corpo como uma imensa pokebóla contendo dentro dela um pokemon chamado “dor” que falaria apenas “dor dor dor dor…arrependimento!”.

por ser a primeira estação as cadeiras tão vazias, sem aquele dilema moral de sentar ou não, então pego uma cadeira perto do final do vagão, me sento, coloco minha mochila do lado, vou dar aquela respirada funda que apenas pessoas cansadas e psicopatas de filme dão, e o metrô vai chegando na segunda estação. logo após ele chegar, eu, já respirando normalmente, decido pegar um livro na mochila e começo um elaborado processo de busca arqueológica porque apenas vou jogando as coisas lá dentro, sem muito critério. Continuar lendo

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Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Rio, Sem Categoria, situações limite

3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

Parksandrec_Bendisaster

#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

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Pequenos e breves momentos de intensa comunhão espiritual com pessoas que você não conhece e provavelmente nunca mais vai ver

winston

#

você tava voltando do almoço, passando ali perto da catedral, o sol do inverno carioca na sua cabeça, aquele passo acelerado de quem já estourou a hora, tá preocupado com o ponto, não quer compensar, os dilemas do capitalismo por todo o seu corpo como um hidratante monange na pele da xuxa. mais a sua frente dois japoneses caminham, um ritmo mais tranquilo, os dois conversam em japonês enquanto apontam as plantas, a catedral, os prédios do outro lado da rua. um deles para para amarrar o cadarço e você ultrapassa, vai se aproximando do outro, num dado momento vocês tão emparelhados, você e o japonês, você nota que o japonês continua falando, ele não notou que o outro tinha parado. até que ele se vira e ele te olha. e você nota a testa do japonês franzindo, e você nota os olhos do japonês se apertando e ele vira e te diz uma palavra que você acredita ser “Tesuo?” e você consegue notar, pela reação dele, pela linguagem corporal, pela expressão, que ele não tá achando que você é um ladrão, que ele não tá achando que o amigo dele sumiu, que ele não tá achando que ele se perdeu. por um segundo tu vê nos olhos daquele japonês que, por uma fração ínfima de tempo, por um momento breve mas significativo, a primeira ideia que passou pela cabeça dele foi “porra, meu bróder japonês virou um homem latino barbudo”. e você, enquanto cara que ouve um “vai ver se a pizza tá queimada” e volta dizendo “tá sim” sem ter tirado do forno, enquanto homem que ouve um “sabe a chave que tá em cima da tv? traz ela pra mim” e responde com “a chave ou a tv?” reconhece ali o momento de espasmo mental alheio e abre aquele sorriso solidário que aí sim faz o cara pensar que você é um assaltante mas aí o amigo japonês já acelerou o passo e tu passa rápido pelos dois e já dispara pela reta pro seu trabalho e sim, atrasou mais de meia hora, vai precisar compensar mesmo, é foda demais a vida de vez em quando.

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Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #73

manseekingwoman_finale

#o arquivo confidencial: quase sempre se trata de uma amizade de intensidade baixa pra média, vamos dizer assim. uma pessoa que você conheceu sim, conheceu até bastante, e com quem viveu algumas situações, criou até uma boa intimidade, mas durante um período relativamente limitado de tempo, o que faz com que vocês tenham histórias mas não exatamente um vasto repertório delas. é aquele colega de trabalho de quem você foi muito amigo por seis meses mas depois foi transferido, é aquela menina da turma de inglês com quem você andou direto durante um ano mas depois trocou de cidade, é aquele bróder gente boa da pelada de terça que teve filho e aí não apareceu mais pra jogar.

aí um dia você encontra ele ou ela no facebook. já é amigo de um amigo comum, tá numa foto com alguém de lá da sua cidade, foi marcado num daqueles posts de “e a galera nunca mais, né?” e você tem uma vaga lembrança dos momentos, da amizade legal, e ainda que saiba que dificilmente ela vai ser retomada, é alguém gente boa do seu passado que você gostaria de saber como tá, o que virou, pra onde foi. adiciona, trocam umas mensagens, rola aquela eterna falsa promessa de tomar um chopp juntos quando estiverem na mesma cidade (“se vier no rio me liga”, mas você não deu seu telefone, não atende números que não conhece, na verdade se mudou do rio em 2005)

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Sobre facebook, eleições e a nefasta ascensão do amigo do seu amigo

amigo do amigo

Todos nós sabemos, desde pequenos, que a discussão política pode trazer à tona o que existe de pior no ser humano. Um assunto claramente racional e merecedor de profunda reflexão analítica, mas que é sempre abordado da maneira mais passional e pessoal possível – “enfia o crescimento lento do pib no seu cu, aqui é dilma, porra!!!!” – a discussão política padrão costuma servir menos para trocar opiniões, enriquecer debates, ajudar a formar posições, do que para gerar brigas na mesa de jantar, garantir constrangimentos no trabalho, separar casais antes apaixonados (“sem sexo até você entender que apenas o psdb pode e vai resolver os problemas do brasil”).

E outra coisa que temos certeza faz um certo tempo é do poder da internet para potencializar as coisas. Seja pornografia, seja o acesso a livros clássicos, seja o conceito de lip sync, não há nada que a internet não consiga tocar e elevar até a sua enésima potência, explorando as qualidades, agravando os defeitos, tornando muito melhor ou muito pior do que poderia ser.

Portanto não foi surpresa pra ninguém o resultado da combinação entre uma eleição disputada como a que passou e um período de grande participação das redes sociais como temos hoje. O resultado foi muito chato. Assim, bem chato mesmo.

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