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De la gente que habla sola

“Y un ejército de gente balbuceando su verdad,
de cosas estancadas que quedaron por hablar,
Historias de no correspondidos, y de amigos que no están,
de gente que habla sola y sus palabras abortadas de no hablar
Historias de no correspondidos, y de amigos que no están,
de al menos encontrar un mail que diga: hola, como estas?”

Ataque 77


Uma coisa que eu aprendi nessas semanas no Rio é que apenas quando você fica doente ou se machuca é que você entende o que é ser um cara novo e solteiro numa cidade estranha onde você não conhece ninguém. Porque se você está bem, animadão, com sua camisa de listrinhas mais bonita e pronto pra ir numa boate você vai achar amigos e ter companhia, seja onde for.Mas se você está gripado, perdendo sangue ou apenas com um calombo na perna do tamanho de um melão, aí meu amigo, você está por sua conta e risco, e tomara que o taxista esteja mesmo te levando pra onde ele disse, porque tudo que você vê são luzes piscando e tudo que você consegue dizer é “Ronaldo brilha muitcho no Corinthians”. É só quando você realmente precisa de alguém em quem confiar que toda a sua independência, a sua invulnerabilidade e a sua confiança em resolver tudo são colocadas a prova e você descobre não só do que é realmente feito como também quais programas de televisão mais te causaram dano cerebral.

Mas ok, esse texto não é sobre isso (ainda que eu ache que um dia deveria falar sobre danos cerebrais auto-infligidos aqui no blog) e sim sobre uma bela história real sobre como achar companhia na solidão da cidade. Preparem seus lencinhos e vamos lá.

Bem, estava eu indo jantar sozinho no KFC nessa noite logo após precisar ir a um médico, fazendo meu clássico pedido de frango frito com salada no qual a salada evidentemente vai me causar muito mais danos do que o frango frito, quando notei uma triste senhora idosa sentada em uma das mesas, comendo tristemente o seu pedido de um balde de frango frito.

Sinceramente eu não sei qual é a opinião de vocês, mas pra mim comer sozinho num restaurante fast food é uma das coisas mais tristes do mundo, e eu conheço um pouco sobre ver coisas tristes, afinal eu assisti Elektra, Mulher-Gato, A Experiência 4 e todos esses filmes sobre pessoas com doenças estranhas que superam todas as dificuldades mas acabam morrendo no final, logo depois de encontrar o amor verdadeiro. Mas ainda assim comer sozinho num fast food tem um lugar todo especial no meu ranking de coisas muito tristes (perto da minha vida pessoal na adolescência e da trajetória do Barrichello na fórmula 1). E foi pensando em toda essa tristeza que eu me lembrei que aquela velhinha não só estava lá, sentada solitária naquele mesmo lugar quase todas as noites como também tinha o não tão saudável hábito de falar sozinha (ou costumava se sentar com uma pessoa invisível, o que você achar mais provável).

Nessas horas é claro que existe apenas uma coisa que um adulto sensível e gentil como eu poderia fazer: procurar uma mesa bem longe da dela, se sentar no canto e manter uma faca de plástico ao alcance da mão. A decisão que eu tomei porém foi outra. Imbuído de um espírito de companheirismo com aquela outra alma solitária perdida na multidão carioca, tomado pela necessidade de criar novas pontes para romper o isolamento, possuído pela necessidade de oferecer conforto e um pouco de contato humano para uma pessoa que talvez tivesse perdido todos os seus entes queridos e, é claro, sempre disposto a construir frases muito, mais muito grandes e compostas por várias orações, eu me dirigi até a idosa mulher e, usando meu melhor sorriso, minha melhor postura, meu jeitinho mais simpático, perguntei para ela “posso me sentar com a senhora?”

E aquela senhora, sim, aquela solitária e triste senhora respondeu, com todo o carinho do mundo: “Sai de perto de mim, seu pivete”. True story.

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