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Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país por causa de trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois conhecidos foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

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Mini-conto #18 – “Questões recorrentes sobre o tema viagem no tempo”

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Nesse dia eu estava esperando um amigo na estação do metrô e perto das catracas estava um casalzinho. Na verdade não exatamente um casal, mais um garoto e uma garota.

Ela parecia ter uns quinze, daquelas meninas que cresceram mais rápido que os meninos da turma e perceberam essa informação ainda de uma maneira meio difusa, como uma mudança de ambiente que ela pressente mas não é capaz de precisar. Ele parecia ser da mesma idade, mas era menor, carregando a mochila dele, dela e um combo de cabelo cortado pela mãe, aparelho ortodôntico fixo e óculos escolhido sem muito critério que claramente pesava na vida dele mais do que todas as mochilas do mundo. Os dois estavam encostados na parede, ela olhando ansiosa pro outro lado da catraca, ele olhando ansioso pra ela, eu olhando ansioso para o candy crush porque sempre fico preso nas fases de transição já que me sinto sem graça de pedir que as pessoas me ajudem a desbloquear as etapas novas.

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Mini-conto #16 – A nossa sexta última vez

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Da primeira vez ela foi embora por dois dias. Na sexta à noite ela disse que as coisas estavam indo rápido demais, que precisava pensar, mas que achava que a resposta era não. Me telefonou enquanto eu cochilava no sofá da minha mãe pra dizer que na verdade era um talvez, se eu ainda quisesse. Eu disse que queria.

Da segunda vez ela foi embora por quase uma semana. Disse que tinha sido um erro, que não queria assim. Não atendia o telefone, não descia na portaria. Apareceu na frente do meu trabalho e disse que a gente deveria beber um café, mas eu nunca bebi café. Falou que as vezes ela duvidava e eu disse que todo mundo duvida às vezes, o que era mentira, porque eu sempre tive certeza.

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Mini-conto #15 – Diabolyn

wildfireEm minha defesa eu preciso dizer que fui pego de surpresa.

Era uma viagem de reconciliação, sabe? Eu tinha pisado na bola, ela tinha sido muito dura, passamos uns dias sem se falar. Eu telefonei primeiro, ela me ignorou, eu tive que telefonar de novo, mandei mensagens. Ela não queria me ver, eu tive que telefonar pra uma amiga, descobri que não era tão minha amiga. Tive que esperar na porta da casa dela, levei flores, estava chovendo, elas chegaram amassadas. Ela demorou pra voltar e eu peguei no sono na porta, só acordei com ela tentando entrar sem eu perceber.

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Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

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Mini-conto #10: “Meg Ryan”

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Eles se esbarraram na saída do trabalho. Os dois estavam parados no único canto do estacionamento onde o celular dava algum sinal, ele tentando confirmar um futebol – “terça, marcelo, eu disse, terça. não, não é sexta, é terça. depois de segunda. não, marcelo, eu disse, segunda, se-gun-da, deixa de ser grosso, velho” – e ela discutindo com alguém, um pouco nervosa, um pouco chorando, o bastante pra ele se sentir meio estranho por estar ali.

Os dois desligaram praticamente ao mesmo tempo e ela se virou, meio tímida, para o lado onde ele estava. “Tudo bem?” ele perguntou e ela respondeu com um meio sorriso “ah, namorado, sabe como é”. Ele tentou fazer uma cara que conciliasse as idéias de “sei como é isso de namorados” e “mas apenas hipoteticamente porque sou um homem hetero e nunca namorei caras”, mas achou que não tinha se saído muito bem. Acenou com a cabeça e foi embora.

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Mini-conto #9: “O eterno não dá”

Da primeira vez ele reparou nela, assim que chegou no bar. Ele estava voltando do trabalho, com três amigos e ela estava comemorando o aniversário da irmã. Ele gostou do jeito como ela sorria, achou bonitinha a forma como ela mexia no cabelo, sorriu quando viu que ela era a única bebendo coca-cola numa mesa cheia de tequilas. Ela nunca ficou sabendo, mas foi o melhor amigo dele que vomitou no pé dela naquela noite, logo na saída do banheiro.

Na segunda vez ela reparou nele. Era uma festa, e os dois estavam na fila do bar, ela queria uma cerveja e ele estava planejando pedir um mojito. Quando chegou a vez dele, olhou pra trás, viu a garota e perguntou se ela queria pedir primeiro. Ela aceitou e saiu achando que ele era um cara estranhamente educado, mas bem bonitinho. Ele respirou aliviado porque sempre ficava sem graça de pedir mojitos na frente de garotas. Mojito era meio bebida de veadinho.

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Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

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Começou como uma brincadeira. Estavam na festa de aniversário dos avós dela e depois da sétima ou oitava vez que perguntaram como tinham se conhecido ele viu que não queria mais contar a história de como tinha atropelado o pug dela no parque. E pro primo dela disse que tinham se conhecido num show, ela estava caindo da grade, ia ser pisoteada pela multidão insana, e ele esticou a mão pra ajudar. Pra uma tia falou que tinham se encontrado na saída de uma livraria, ele carregava uns livros, ela segurou a porta, tomaram um café. Pra avó falou que era um segredo, nem a Lu sabia, mas eles tinham estudado no mesmo colégio, ele duas turmas acima, e sempre tinha sido apaixonado por ela, mas só agora tinha se declarado. Pra empregada falou que tinha sido pela internet, pro cara do churrasco disse que tinha sido uma amiga em comum. Pro tio Rubem falou que ela tinha ganho ele da ex-namorada, numa partida de pôquer, mas ele não se sentia objetificado porque era um homem moderno.

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Mini-conto #6: “Para uma namorada ausente”

A verdade é que eu estou sentindo sua falta. Eu queria achar uma forma mais madura, mais sutil e possivelmente menos carente de dizer isso, mas acho que não tem como. Eu sinto sua falta, eu estou com saudades e eu gostaria que você estivesse aqui comigo, porque sem você está sendo complicado. Sério, muito complicado. Assim, foda mesmo.

Sabe essa coisa toda de quando a pessoa está longe você entender que está amando, o tempo demorar pra passar, a comida não ter mais o mesmo gosto e você se pegar citando involuntariamente um dueto entre Bryan Adams e Mel C. e ficar muito envergonhado tanto por uma coisa quanto pela outra? Bem, é assim que eu estou me sentindo. Sem você as coisas não tem tanta graça, o mundo não é tão divertido e eu viro um cara que é mais atento a carreira solo de ex-Spice Girls do que deveria. É apenas errado, sabe?

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Mini-conto #5: “Mary Marvel”

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Nós dois estávamos deitados na cama e ela tinha acabado de contar uma história. Coberta até o pescoço, se ajeitava no travesseiro enquanto eu encostava as pontas dos meus dedos descalços na sola do pé gelado dela, meio fazendo carinho, meio fazendo cócegas, meio fazendo nada. Ela pegou alguma coisa no criado mudo e virou pra mim, sorrindo. Eu sorri de volta e ela, encostando uma perna na minha, me perguntou “o quê?”.

Minha primeira reação foi dizer um “você é linda, sabia?”. Primeiro porque era verdade, ela era sim linda. Os olhos dela me desarmavam, o sorriso dela me deixava a 5 cm do chão, o jeito como o cabelo dela caia na testa mexia com sentimentos que eu nem sabia que tinha e possivelmente relacionamentos duradouros já tinham começado baseados em menos afeto e atração do que eu sentia pelo lóbulo esquerdo da orelha dela, num dia em que ela achava que estava “desarrumada e sem graça”, chegando do trabalho ou coisa assim.

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