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Mini-conto #4: "Berinjela à milanesa"

A verdade é que sempre tinha gostado mais de frango. Desde garoto, desde pequeno. Não que não gostasse de um churrasco ou deixasse de ver graça quando o avô cozinhava carne de porco no sítio, mas sempre teve uma predileção pela carne de aves que ia desde a mais rústica galinha ao molho pardo até o mais industrializado e nada sadio frango frito, desses que dá pra pedir em baldes nos fast foods, passando pelos chesters anabolizados e as codornas que seu pai havia aprendido a fazer naqueles programas da TV.

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Pequenos trechos de um conto de Natal

“Era uma manhã nevada no norte do Maine quando Joe chegou com Maggie até a soleira da casa dos pais para passar o Natal. O vento forte havia castigado o casal na pequena distância entre o carro e a porta, e esses haviam sido os únicos momentos da viagem nos quais Joe não estava sorrindo. Ele queria que Maggie se sentisse o mais querida possível, que sentisse que a família dele era um pouco dela, que ali ela poderia estar em casa. O fato do Tio Oswald estar tentando colocar o pênis dentro do tanque de combustível do carro não parecia estar ajudando.”

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Mini-Conto #2: “Depois de ter vivido o óbvio utópico…”

Separou o rosto do dela e viu que ela ainda estava de olhos fechados. Havia claramente dois sorrisos bobos pairando no ar e ele sabia que possivelmente era o dono de um deles. Aquele era um primeiro beijo e ele já tinha aprendido com o tempo que primeiros beijos davam uma das melhores sensações que ele tinha na vida (e isso num universo pessoal de competição muito complexo e que envolvia sensações tão díspares quanto pizza de pepperone recém-saída do forno, almoço de família, gol de bicicleta em campo molhado, elogio de chefe do chefe e reencontro de amigos da faculdade).

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Mais outra pequena história romântica

Chegou em casa molhado, a camisa pingando, o sapato pisoteando a barra da calça e a mochila, que estava cheia de livros, aparentando ter sido usada como dublê do Kevin Costner para cenas perigosas em “Waterworld”. Quando começou a tirar a roupa e entrar no quarto notou que a carteira havia sumido e o celular parecia ter bebido mais água do que o recomendado para o modelo e marca dele.O que tornou menor a surpresa com o fato da lâmpada ter apenas piscado e queimado quando ele tentou acendê-la. Tropeçou na cama e ainda teve tempo de, antes de cair no chão, ser atingido pela estante, que, mesmo sem nenhum razão aparente, achou que seria uma boa hora pra cair também. Deitado no chão respirou fundo e começou a acreditar que aquele não era um dia bom.

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Mini-Conto #1: “Bestiário”

bestiario

Existe o trânsito, certo? E existe o trabalho, e existem as horas extras, e existem os chefes irritantes que não te deixam pedir transferência mesmo quando está óbvio que você não está produzindo nada. E como eu disse, existe o trânsito, barulhento, os táxis que não param, o ônibus que você não conseguiu pegar e as vans que atrapalham tudo, sem falar nos caras malucos de moto. E existem os telefonemas incômodos, os trotes de madrugada, as falhas de comunicação, as zonas sem sinal, as contas. E existem os problemas de família, as broncas de pai, os pedidos da sua mãe pra que você leve um casaco, a sua irmã que arranhou seu CD do Smashing Pumpkins, o seu cachorro que sumiu e só apareceu dois dias depois.

Existe o seu professor de mestrado, a sua tese, a minha cara de quem não entendeu a sua tese, o seu time que perdeu ontem e a sua amiga que nem gosta de futebol (como se você gostasse) mas te ligou pra comentar. E existem os seus ex-namorados, as minhas ex-namoradas, aquela garçonete que mexeu comigo aquele dia (mas eu realmente juro que nunca tinha visto aquela garota antes), e todo o resto. Mas também existe o aquecimento global, a possibilidade de guerra nuclear, a Coréia do Norte, o Irã, o seu medo de asiáticos, o vulcão da Finlândia que pode atrapalhar as nossas férias, o meu chefe, que também pode atrapalhar as nossas férias (e que eu gostaria que estivesse dentro de um vulcão, possivelmente na Finlândia).

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Cenas pouco prováveis com finais um tanto quanto súbitos (#4 de 4)

#4: Eu não estava preparado para ser pai. Na verdade eu nem sei dizer se eu saberia se estivesse preparado, porque tudo era, não sei, surreal demais. No começo de um ano você é um cara solteiro, tranqüilo, que mora sozinho e tem como maior preocupação descobrir se uma mesa de bilhar profissional cabe ou não na sua sala (“e por sinal, quanto custaria pra ter um fliperama feito esse no quarto?”) e se aquela garota de azul vai topar ir pra casa contigo. Já no meio do outro ano aquela garota de azul não só mora contigo como vetou a mesa de sinuca, iria rir diante da possibilidade de uma máquina de fliperama e não cabe mais naquele vestidinho azul porque está grávida de oito meses de um filho seu, que você desconfia que não faz a menor idéia de como criar. Não que eu não quisesse ser pai ou não planejasse fazer isso um dia. Claro, eu sempre sonhei em ter meus filhos, em criar pequenos garotos ouvindo Beatles e jogando vídeo-game na sala (ainda que eu fosse precisar pensar bem se seria uma boa deixar os dvds do GTA ao alcance deles) mas era o tipo da idéia que eu pensava em postergar ao máximo, mais ou menos como as consultas ao dentista e as viagens pra visitar minhas avós. Mas não, simplesmente aconteceu, do nada, quando eu menos esperava. Ok, talvez não “do nada”, porque não tínhamos recebido nenhuma visita de nenhum anjo e nem eu trabalhava com carpintaria, mas vocês entendem o que eu quero dizer. Tinha sido inesperado, pra dizer o mínimo. Eu amava a Julia, mas daí a ter um filho com ela depois de menos de um ano de namoro ia uma distância bem grande, do tipo que você não iria superar com um salto. Mas eu era pai e tudo que eu podia fazer era lidar com isso da melhor maneira possível: comprei livros, vi filmes, fui em aulas de ioga para gestantes (o que teria sido menos constrangedor se Julia estivesse junto comigo, mas ela simplesmente não conseguia parar de trabalhar), me envolvi em tudo, desde a escolha das roupinhas até a definição do padre para o batizado do garoto. Julia, é claro, me deixou de fora da escolha do nome (Lucca definitivamente não era minha primeira opção) mas consegui vetar o nome do pai dela (Demóstenes) e do avô dela (Temístocles), o que ao menos faria com que eu sempre pudesse ter uma forma fácil de cobrar gratidão do garoto. No dia do parto eu estava nervoso como se eu fosse dar a luz e tudo em que eu tinha conseguido pensar para marcar a data foi em comprar charutos para mim e todos os parentes e amigos (o que teria saído muito caro se eu tivesse comprado charutos decentes e quase me fez pensar em oferecer um Derby suave pra cada um e deixar pra lá) além de deixar crescer um bigode que só depois eu notei que ficaria ridículo nas fotos. Mas tudo com que eu conseguia me preocupar era com o meu garoto. Na sala do parto eu estava mais nervoso do que Julia e desconfio que apertava a mão dela mais do que ela apertava a minha enquanto o médico tentava fazer sabe-se lá o que ele fazia para que ela desse a luz (eu estava olhando apenas pra ela, o que evidentemente a deixava mais irritada ainda, mas ao menos evitava que eu desmaiasse na sala). E foi então que eu ouvi um som de choro e vi o médico levantar o bebê em seus braços. Quase comecei a chorar. Ainda não tinha visto o rosto do meu filho, mas o médico já havia cortado o cordão e o enrolava em uma manta, colocando-o no colo de Júlia. Só então pude ver que meu filho tinha olhos puxados. Sim, eu sou negro, Júlia é morena e eu tinha um filho japonês. Mas antes mesmo que eu pudesse fazer qualquer menção de gritar um “mas que porra é essa?!” o médico ficou de frente pra mim e abaixou sua máscara cirúrgica. E então eu pude ver quem era o médico: Mário Jorge Lobo Zagallo. Nesse momento ele me olhou nos olhos, apontou o dedo para meu rosto e gritou, quase com as veias do pescoço saltando: “Aí sim, fomos surpreendidos novamente!”

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Cenas pouco prováveis com finais um tanto quanto súbitos (#2 e #3 de 4)

#2 : Eu cheguei no escritório e encontrei a porta arrombada. Nenhuma luz acesa e o único ruído que eu conseguia identificar era do vento fazendo com que a janela batesse ritmadamente contra a parede. Ouvia ao fundo um barulho que eu pensava ser de folhas caindo, mas não conseguia ter certeza se era realmente isso ou eu ainda estava de ressaca. Saquei minha arma e me preparei para entrar. Naquela sala estava o cofre com os diamantes da condessa e se alguém ainda estivesse ali dentro não iria sair sem luta ou pelo menos uma farta distribuição de tiros. Tentei entrar silenciosamente pela porta entreaberta, caminhando da forma mais lenta que eu conseguisse. Passei pela porta e tentei fazer com quem meus olhos de acostumasse a escuridão, ainda segurando a arma em frente ao meu corpo. Nenhum som. Nenhum ruído. Nenhum movimento. Aproximei lentamente minha mão do interruptor e com um rápido movimento acendi a luz, o que apenas confirmou minhas duas suspeitas: a primeira de que quem quer que tivesse entrado ali já havia saído e de que eu nunca mais faria uma frase com tantos “que” seguidos. Tirei o sobretudo e me sentei, esticando os pés por cima da mesa e jogando meu chapéu em direção a uma arara abandonada no canto. O pássaro reclamou, como sempre. Decidi primeiro relaxar a tensão antes de conferir se o conteúdo do cofre ainda estava lá. Não seriam cinco minutos que me fariam reencontrar os diamantes, se eles realmente tivessem sumido. Tirei um cigarro do maço em cima da mesa e acendi um deles, porque acender todos ao mesmo tempo não faria sentido nenhum. Fumei tranquilamente por 30 segundos e caminhei em direção ao outro extremo da sala, para abrir o cofre. “16-22-8-12”. Mas antes que eu pudesse terminar de abrir a pequena porta metálica eu vi sair, detrás de um arbusto, Hebe Camargo segurando um sabre de luz vermelho. Ela veio saltando em minha direção e tudo que eu tive tempo de pensar antes de sentir o choque da lâmina laser trespassando meu peito foi desde quando eu tinha uma porra de um arbusto dentro do meu escritório.

#3: Você não sabe o que é estar no meu lugar. Você pode pensar que sabe, você pode achar que viveu algo parecido, você pode tentar imaginar como é, claro, mas você não sabe, não entende realmente. Meu amigo, você não faz idéia. Você não sabe como é a pressão, como é a sensação, como é passar por aquilo. Você não compreende a concentração, não imagina o que é prender a respiração com medo de errar. Você nem mesmo concebe o que é o peso de todas as esperanças, de todos os amigos que dependem de você, de todas as pessoas que estão esperando pela sua reação e que precisam daquilo. Você pode imaginar, mas você não sabe o que são os gritos, a dor, a expectativa, o fato de saber que em algum dado momento tudo vai se reduzir a você e um alvo e é dali que você vai sair, ou como herói ou como o grande fracassado. E tudo isso pra que? Apenas para, em um dado momento ouvir aquela voz dizendo “e com os pontos da prova final a equipe azul é a vencedora dessa semana do Curtindo uma Viagem!”

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Cenas pouco prováveis com finais um tanto quanto súbitos (#1 de 4)

#1: Eu finalmente tinha conseguido convencer Mariana a passar uma noite na minha casa. Horas de papo, dias de torcida, semanas de planejamento até que ela finalmente topasse e meus pais tivessem o bom senso de viajar, facilitando as coisas. Era a minha primeira vez e eu admito que estava mais nervoso do que jamais poderia imaginar. Ou isso ou eu era o caso mais precoce de Parkinson já registrado pela medicina, do tipo que faria Michael J. Fox me dizer pra relaxar e roubaria o título de tremendão do Erasmo Carlos. Tentei preparar o cenário da melhor maneira possível: um vinho, porque eu queria ela relaxada e não bêbada, uma meia luz, porque eu sabia que se acendesse velas ia dar merda e a casa ia pegar fogo (você não conhece a minha sorte), e um Maroon 5 tocando ao fundo, porque ela gostava e eu não queria nem colocar um Coldplay, que faria ela desistir de transar e resolver cortar os pulsos e nem um Barry White, que deixaria claro que alguém naquela casa iria ter que fazer sexo naquela noite nem que fosse a empregada com o vigia e que haviam camisinhas escondidas até na saladeira. Ela chegou e começamos a nos abraçar (bom), nos beijar (muito bom) e ela começou a me dar um pouco de liberdade de ação pelo corpo dela (ótimo, ótimo). Consegui em poucos minutos tirar a blusinha dela (vibra, torcida brasileira) e antes que eu pudesse dizer “obrigado Senhor por ter matado minha tia e feito meus pais irem pra São Paulo” ela já estava só de calcinha e sutiã no meu sofá (um pequeno passo para o homem mas um grande salto pra mim). A vitória era iminente, a glória me aguardava e com sorte eu nem precisaria gastar o vinho do meu pai. Me deitei por cima dela, já me preparando pra tirar aquelas duas peças de roupa que naquele momento seriam como a faixa de chegada da maratona da virgindade em direção ao pódio das pessoas que transam, quando ela virou e me disse “Caio, tenho que te contar uma coisa”. Bem, naquele momento nada, mas nada, nem mesmo o décimo quarto segredo de Fátima teria importância pra mim, mesmo que ele envolvesse os números da mega-sena, o final de Lost e porque o Sílvio Santos começou a exibir “Reunião” mesmo sabendo que a série estava cancelada, então eu continuei o que eu estava fazendo. “Não, Caio, pára, sério mesmo…Deixa eu te falar…”. Parei e olhei pra ela com aquela cara de Cléber Machado dizendo “hoje não, hoje não” e ela disse que tinha que me contar uma coisa muito importante e que eu precisava saber disso antes da gente transar. Na minha mente eu fiquei mezzo feliz por ter certeza que ia transar (aeeeeee) e mezzo triste por imaginar que tinha alguma merda acontecendo (herpes? gonorréia? ebola?), mas continuei prestando atenção. “Então, Caio…eu disse que era virgem…mas eu não sou…”. Na minha mente surgiu a seguinte série de pensamentos “aí não-vacilo-como assim-então porque demorou tanto pra topar” mas tentei fazer a minha cara mais compreensiva, ou ao menos a mais compreensiva que eu conseguia fazer enquanto tirava a cueca. “Ah, tudo bem, eu te amo, eu não me importo com isso…agora vem cá?”. “Não, mas tem outra coisa…a minha primeira vez…bem…ela foi com o Jorge Vercilo”. E nesse momento meu pai entrou pela porta da sala.

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