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Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país por causa de trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois conhecidos foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

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Mini-conto #16 – A nossa sexta última vez

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Da primeira vez ela foi embora por dois dias. Na sexta à noite ela disse que as coisas estavam indo rápido demais, que precisava pensar, mas que achava que a resposta era não. Me telefonou enquanto eu cochilava no sofá da minha mãe pra dizer que na verdade era um talvez, se eu ainda quisesse. Eu disse que queria.

Da segunda vez ela foi embora por quase uma semana. Disse que tinha sido um erro, que não queria assim. Não atendia o telefone, não descia na portaria. Apareceu na frente do meu trabalho e disse que a gente deveria beber um café, mas eu nunca bebi café. Falou que as vezes ela duvidava e eu disse que todo mundo duvida às vezes, o que era mentira, porque eu sempre tive certeza.

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Mini-conto #14 – “Pilates”

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Eu gosto de pensar que era uma noite chuvosa. Que você me esperou dormir e me deu um beijo na testa antes de pegar as suas coisas. Separou algumas roupas às pressas se aproveitando do meu sono pesado, não achou sua mala, pegou uma das minhas. Lá fora fazia frio. Você hesitou antes de abrir o portão e enquanto parava um táxi pensou em voltar. Mas vendo as luzes se aproximarem teve certeza que era a decisão certa. Enquanto ele colocava suas coisas no porta-malas você olhou uma última vez pra luz acesa na sala do nosso apartamento e timidamente sorriu. Então você foi embora.

Gosto de acreditar que foi aos poucos. Não acho que nenhum amor comece com um estalo ou algum romance termine com uma explosão. Sempre duvidei de big bangs emocionais e achei que essas coisas acontecessem aos poucos. Da mesma forma que a gente começou durante semanas, em cada encontro, em cada beijo, em cada noite em claro na sala, a gente deve ter terminado durante meses. Em cada telefonema curto, em cada data esquecida, em cada manhã sem tempo, eu devo ter te perdido um pouquinho sem nem perceber. Acho que não foi você que terminou, nós já tínhamos terminado sozinhos. Você só foi a primeira a perceber.

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Grande mito lendário da masculinidade #56

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A história quase sempre é contada num bar, boteco ou churrasco, ali por aquela altura em que o volume de álcool consumido já foi alto o bastante para maximizar amizades, potencializar vínculos, gerar promessas de mudanças de vida e ao menos seis gritos de “porra, cara, a gente precisa se ver mais” mas ainda não atingiu o nível necessário pros abraços emocionados, as versões chorosas de canções sertanejas e as revelações de caráter duvidoso – “assim, não que eu seja gay, mas se eu fosse, sabe? se eu fosse, e tivesse que me vestir de mulher, tipo, sendo obrigado mesmo, eu me chamaria etyenne. com y. acho bonito, não sei”.

A fonte tem sempre uma relação indefinível e vaga com o protagonista, como sói acontecer em todos os mitos urbanos de tradição oral. Às vezes é o primo de um amigo, de vez em quando é o chegado de um colega de serviço, de vez em quando é o cunhado de um cara que jogava bola com você em humaitá, não sei se você lembra, era o da cabeça raspada, o que foi pra belém por causa do trabalho, não sei como você não tá lembrando. Quase sempre a trama começa numa despedida de solteiro de um outro amigo, também desconhecido.

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Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

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Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

Cíntia disse que estava tudo bem e no meio da noite foi embora levando roupas, discos, livros, anseios, sonhos e minha única mala de rodinhas. Que ela nunca devolveu. Jéssica me deixou pra trás numa fila de cinema, com um imenso medo de me envolver e dois ingressos pra sessão das nove de “A casa do Lago”, perdas que ninguém nunca vai poder me ressarcir. Carina me trocou por um colega de trabalho que era mais alto e ainda comentou com as amigas que agora poderia voltar a usar salto.

Letícia me pediu pra não ligar mais e prometeu mandar minhas coisas pelo correio, mas nunca fez questão de confirmar meu endereço ou mesmo de fazer comigo um checklist pra saber quais seriam as minhas coisas. Clara me chamou de infantil e foi embora, Lisandra mudou de telefone, Cecília mudou de cidade, Mariana mudou de país. Paula alegou ter mudado de país, mas dois meses depois alugou um apartamento no mesmo andar que eu e numa manhã de sábado ainda bateu na minha porta pedindo açúcar. Não que com isso eu tenha algum problema, apenas achei grosseiro ela reclamar quando viu que eu só tinha cristal. Fernanda mudou de opção sexual e agora sai com garotas, mas eu não gosto de falar sobre isso porque meu apelido na faculdade era Ross e sempre dá trabalho explicar que não é porque eu gosto de dinossauros.

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Mini-conto #9: “O eterno não dá”

Da primeira vez ele reparou nela, assim que chegou no bar. Ele estava voltando do trabalho, com três amigos e ela estava comemorando o aniversário da irmã. Ele gostou do jeito como ela sorria, achou bonitinha a forma como ela mexia no cabelo, sorriu quando viu que ela era a única bebendo coca-cola numa mesa cheia de tequilas. Ela nunca ficou sabendo, mas foi o melhor amigo dele que vomitou no pé dela naquela noite, logo na saída do banheiro.

Na segunda vez ela reparou nele. Era uma festa, e os dois estavam na fila do bar, ela queria uma cerveja e ele estava planejando pedir um mojito. Quando chegou a vez dele, olhou pra trás, viu a garota e perguntou se ela queria pedir primeiro. Ela aceitou e saiu achando que ele era um cara estranhamente educado, mas bem bonitinho. Ele respirou aliviado porque sempre ficava sem graça de pedir mojitos na frente de garotas. Mojito era meio bebida de veadinho.

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Duas pequenas fábulas ouvidas durante o workshop corporativo dessa semana

A fábula dos cegos e do elefante – Índia antiga. Terra de tradições, terra de magia, terra de interpretações questionáveis de Tony Ramos e Márcio Garcia. Um jovem rei, desrespeitando não apenas as regras de segurança do governo, mas também qualquer resquício de bom-senso no trato com pessoas portadores de necessidades especiais, convoca cinco cegos do reino, os coloca em torno de um elefante e pede que eles descrevam como é o animal. Todo mundo acha bacana.

O primeiro cego, que havia apalpado a barriga do animal, descreveu que ele parecia uma panela. O segundo, localizado perto da orelha, considerou que o animal parecia um leque. O terceiro, perto da tromba, alegou que a semelhança era com uma mangueira. O quarto, que apalpara a perna, disse que a criatura lembrava um poste e o último, que havia ficado perto do rabo, após mencionar que aquilo era uma das maiores babaquices já feitas e que o rei deveria se envergonhar, mencionou que o animal lembrava uma vassoura. Continuar lendo

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Crônicas da ex-adolescência #5 – Flauta andina

Nós vivemos em mundo cheio de mistérios. O mistério da vida. O mistério do amor. O mistério da fé. O mistério do Cinco Estrelas. O mistério da Libélula (com Kevin Costner). E claro, o mistério da flauta andina. Sim, ela, a flauta andina, aquele instrumento musical que representa tudo de pior que a cultura dos Andes tem a nos oferecer (“ponchos? maneiro! lhamas? cooool! futebol na altitude? eu topo, mas vou precisar de um tubo de oxigênio e liberação da Conmebol”) e quase sempre, quando é encontrado por qualquer um de nós tendo suas gravações vendidas por homens vestidos como o Steven Seagal numa praça do centro da cidade desperta a mesma velha questão: quem diabos compra uma coisa dessas? Esta é a história de como eu descobri isso.

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Pequenos trechos de um conto de Natal

“Era uma manhã nevada no norte do Maine quando Joe chegou com Maggie até a soleira da casa dos pais para passar o Natal. O vento forte havia castigado o casal na pequena distância entre o carro e a porta, e esses haviam sido os únicos momentos da viagem nos quais Joe não estava sorrindo. Ele queria que Maggie se sentisse o mais querida possível, que sentisse que a família dele era um pouco dela, que ali ela poderia estar em casa. O fato do Tio Oswald estar tentando colocar o pênis dentro do tanque de combustível do carro não parecia estar ajudando.”

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