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Quando pequeno a gente sempre imagina como vai ser quando crescer. Pensa em como vai ficar, se vamos ser altos, se vamos continuar gordinhos, se vamos melhorar com as garotas, se vamos poder ter um cachorro, se vamos dormir depois das 22:00, se vamos parar de ter pesadelos depois de ver filmes de terror. Se vamos crescer pra ser astronautas, se vamos conseguir morar na beira da praia, se vamos continuar jogando futebol todo dia, se vamos ter os mesmos amigos, se a gagueira vai passar,se vamos poder beber mais de um yakult por vez. E projetamos coisas, e estipulamos algumas metas infantis, alguns objetivos de criança, e ficamos imaginando que é assim que a vida adulta deveria ser, dentro da nossa visão de garotinhos do que a vida adulta é e de como um adulto deve se comportar. Continuar lendo

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Pequenas lembranças esquisitas da minha infância

A metáfora do galo

Não sei se vocês se lembram, mas existia um desenho um tanto quanto antigo, que passava na Globo, eu acho (ainda que os desenhos hoje em dia mudem de canal na TV aberta o tempo todo, o que me faz admitir abertamente que o Frangolino tem uma vida mais movimentada do que a minha, mas tudo bem) e que tinha como personagem principal um galo. Esse galo era física e intelectualmente um galo (ele fazia “cororicó, por exemplo. Não, não o programa cocoricó, o som cocoricó, cara…) mas as pessoas, no começo do desenho o tratavam como se ele fosse um humano, uma pessoa de verdade, e lhe davam algum tipo de função ou designação tipicamente humana. A de atuar, dirigir, trabalhar como vendedor, motociclista, alguma coisa assim. E diante desse tipo de pressão o galo fica o tempo todo tentando explicar de alguma forma que ele não poderia fazer aquilo porque é um galo e galos não fazem esse tipo de coisa (ou ao menos não deveriam fazer). E ele insiste e insiste, mas as pessoas continuam acreditando piamente que ele é uma pessoa e deve continuar fazendo aquilo que foi pedido pra ele, o que faz com que ele, quase no final do desenho, aceite que realmente é uma pessoa e comece a agir como se fosse uma, aceitando sua nova condição de ser humano. Aí alguém aponta pra ele, grita “um galo!” e todos os outros personagens começam a dar porrada nele.

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Problemas práticos do romantismo teórico – II

Bunny_Girl

 

Acho que quase todo mundo, quando é mais novo, mais inocente, acredita no conceito de que existe uma “pessoa certa” pra cada um. De que existe, em algum lugar, de bobeira por aí, aquela pessoa que foi feita exata e especialmente sob medida pra você, como uma bicicleta pedida pela internet em uma daquelas fábricas japonesas ou uma camisa customizada. Eu mesmo, quando mais novo, garotinho romântico, crédulo e que passava muito pouco tempo fora de casa, tinha esse tipo de expectativa, de que iria achar alguém algum dia que suprisse todas as minhas exigências, necessidades, carências. E cara, eram muitas. Lá pelos meus, não sei, quatorze, quinze anos, eu tinha, em relação ao conceito de “garota certa”, mais exigências do que um terrorista em “24 Horas” para libertar reféns: ela teria que ser linda, engraçada, inteligente, entender tudo sobre quadrinhos, jogar vídeo-game, gostar das mesmas músicas que eu, ter um gosto decente pra filmes, e mais um monte de coisas que excluíam basicamente todas as mulheres reais do planeta. (E talvez metade das mulheres imaginárias também, eu desconfio.)

Mas claro, a gente vai amadurecendo e aprendendo algumas coisas, principalmente com as experiências prévias. Aprendendo que não existe isso de “pessoa certa” e sim pessoas com variados graus de afinidade e funcionalidade, indo desde aquela garota que você acha que fica sexy até desentupindo a pia mas com quem não consegue manter um diálogo por 30 segundos, passando por aquela que você gostaria que criasse seus filhos mas cuja risada você simplesmente não consegue suportar e chegando naquela com quem você poderia passar todas as tardes chuvosas da sua vida, mas iria querer te obrigar a tratar todos os dias como se fossem tardes chuvosas. Fora que você aprende que num relacionamento existem outras exigências além das suas, como por exemplo, as dela. E isso é chato, claro. Afinal, é ótimo querer que alguém se ajuste pra combinar com a gente, mas é um saco quando a pessoa pede que você se ajuste também.

E então as exigências mudam. OK, ela não precisa ser liiiiinda, afinal, eu não sou lá essa Itu-Cola toda. Também não vamos pegar tão pesado nessa coisa de quadrinhos, cinema e música: é só ela ser relativamente nerd e ter um gosto legalzinho pra cultura pop em geral que já está valendo. E bem, ajuda se ela for paciente, engraçada e não tiver porte de armas. É, isso já seria legal o bastante.

Mas as coisas não param de mudar. Você vai tendo relacionamentos sérios, vai aprendendo sobre responsabilidade, convivência, o funcionamento da interação pessoal a longo prazo e seus conceitos se alteram ainda mais. O nível de compatibilidade que você espera das pessoas muda, os seus objetivos numa relação mudam, o seu crescimento pessoal altera a sua visão do que seja uma parceira ideal. Afinal, mesmo quando você encontra uma pessoa que bate com as suas expectativas, às vezes as coisas saem bizarramente errado sem um motivo aparente, enquanto outras vezes você encontra uma pessoa que evidentemente não tem nada a ver contigo e…as coisas saem bizarramente errado por motivos claramente óbvios. O conceito de princesa encantada ficou totalmente pra trás e você começa a notar que seu foco é, sei lá, uma camareira do castelo, quem sabe até uma das moças da cozinha, e alguns amigos seus até descobrem que preferem é um guerreiro bááááárbaro mesmo.

E ali pelos vinte e cinco, se aproximando da casa dos trinta, você vai assumindo posições mais sólidas em relação ao que você quer e espera de uma mulher. Eu mesmo, depois de ter namorado quatro anos e meio, assistido todas as comédias românticas da Meg Ryan, dado consultoria sentimental pra vários amigos e assistido a um programa de calouros em que o David Hasselhoff era um dos jurados e havia uma candidata que era uma arqueira contorcionista (esse último item não tem nada a ver com o assunto, mas eu quis compartilhar isso com vocês), mudei bastante meus conceitos sobre mulheres. Se antes eu esperava a mulher perfeita, hoje, levando em conta as minhas experiências anteriores e a minha cotação atual no mercado de solteiros, o meu conceito de mulher ideal pode ser resumido assim: uma mulher com senso de humor e que aceite, uma vez por ano, talvez no dia dos namorados, aniversário de namoro algo assim, usar orelhas de coelhinha durante alguns momentos íntimos. É, acho que essas são exigências honestas. Mas sei lá, pra não dizerem que eu sou intransigente, eu posso abrir mão do senso de humor. Isso é amadurecimento, pessoal.

P.S:  Obrigado a todo mundo pela força no post anterior. Eu ainda seria capaz de abraçar todos vocês! Deus do céu…

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