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Breves conceitos para uma análise das sub-amizades

A amizade de ocasião: nascida quase sempre de forma fortuita e majoritariamente derivada da exposição de pessoas a um ambiente hostil e desconhecido, a amizade de ocasião é o melhor exemplo de relacionamento instrumental, no qual duas pessoas desenvolvem um vínculo – tênue ou não – apenas pelo período necessário para que superem uma situação específica ou supram uma necessidade pontual, sem que exista necessariamente o planejamento ou intenção de que essa relação seja mantida fora daquele contexto ou após aquele período. Como exemplos de amizade de ocasião podemos mencionar aquela sua extrema simpatia pelo seu vizinho que comprou um videogame novo antes de você, aquela sua profunda ligação com a colega nova do trabalho até notar que ela não tinha amigas gostosas e todas as noites em que você, bêbado, aluga o garçom falando sobre como sente falta da Luana e terminar com ela foi o pior erro da sua vida. Continuar lendo

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5 sinais de que você pode estar bobamente afim de alguém

Você acha tudo que ela faz muito legal: Uma das primeiras coisas que você vai notar quando ficar bobamente afim de alguém é que aquela pessoa se tornou basicamente uma das mais legais no universo, ao menos na sua opinião. As piadas dela são as mais engraçadas, o sorriso dela é o mais bonito, as músicas que ela menciona são as mais legais, os medos dela são os mais fofinhos do mundo e a taxidermia que ela pratica é o hobby mais instigante e menos assustador e mórbido que existe sobre a face da terra. Você vai notar que seus conceitos e escalas começam a sutilmente se flexibilizar pra que ela se torne cada vez mais interessante e tudo que ela propõe ou comenta se torne super-hiper-giga-boga divertido de forma a que uma simples conversa boba com ela se torna um mega-evento cheio de graça e magia que você realmente não entende como ainda não foi comprado pela FOX ou pela Universal pra passar no horário nobre agora que ER acabou.

O relacionamento entre vocês dois se passa basicamente na sua cabeça: Outra coisa que você nota quando está neste nível de bobeira é uma sutil discrepância entre o que realmente acontece entre vocês (quase sempre nada ou muito pouco) e o que se passa na sua cabeça. Não, não falo de sentimentos recíprocos, porque nessa fase você nem sabe direito se ela tem sentimentos por você além de algo como “eu emprestaria um cd pra ele, se ele pedisse educadamente e eu não gostasse muito do cd”, mas sim de realmente ter uma atividade mental referente a ela que supera em muito a interação real entre vocês dois. Você está longe de estar obcecado ou pode dizer que pensa nela o tempo todo, mas digamos que pra cada dez minutos de contato real entre vocês existem ao menos duas horas de imaginação/reflexão/avaliação sobre o tema, o que faz com que você resida, ao menos emocionalmente, no fantástico mundo de Bob, mas sem a hora do cafuné.

Você fala dela sem nenhuma razão: Mais um traço comum é a necessidade de comentar sobre o tema com pessoas que não tem o menor interesse no assunto ou que simplesmente não vão entender nada, além de fazer isso em momentos absolutamente sem sentido. Por exemplo, comentar com o pipoqueiro que fica em frente ao seu trabalho como ela é ótima com referências de cultura pop (ao que ele retruca com um “quer mais queijinho então?”), tentar explicar para o seu irmão como ela é engraçada (“ok, ok, mas dá pra montar logo esse maldito time? eu quero começar a jogar, porra…”) ou comentar com a sua colega de trabalho um filme que ela disse ter visto (“ah…tipo…te apóio total…cadê o grampeador?”).

Ela ganhou uma trilha sonora: Você começa a associá-la com músicas, o que faz com que, sei lá, cerca de 20% do seu mp3 player te faça lembrar dela e ficar olhando para o ar com cara de bobo, perdendo a estação e tendo que pegar o metrô de volta no sentido zona norte, que é bem mais cheio e proporciona aquela viagem imprensado na porta e tendo que se desviar pra não ser jogado pra fora do vagão em cada estação. E isso não vale apenas para músicas, você começa a associar ela a outros conceitos até chegar num nível em que ela possui referências em diversas partes da sua vida e até a compra de um pote de aspargos vai acabar te fazendo pensar nela. Nela e em coalas, mas isso é uma associação bizarra que só você faz mesmo.

Você dá bandeira sem notar: Mais um sintoma é a total incapacidade de agir naturalmente e não dar bandeira. Você pensa em dizer uma coisa, aí nota que iria soar estranho, aí muda, percebe que iria soar como uma cantada, altera algumas coisas, percebe que não fez muito sentido, altera mais um pouco e ao final de 12 minutos você conseguiu uma frase do quilate de “ah casa babá ueba pantufa Jaques give it away tia do bátima” que não só não diz nada como te faz parecer absolutamente retardado. E claro, existem as outras pequenas bandeiras como um comentário mais besta, escrever o nome dela no bloquinho enquanto fala ao telefone, escrever histórias em que personagens tem o nome dela ou aparecer na porta da casa dos pais dela usando uma sunga preta e óculos escuros, levando uma garrafa de vinho e uma colher de pau. Mas essa última parte é totalmente psicótica, nunca passou pela sua cabeça e você só mencionou porque ouviu uma história muito engraçada sobre o assunto essa semana, mas não quer citar nomes para não envergonhar pessoas.

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A matemática do interesse

Uma coisa que eu sempre considerei um bocado complicado é demonstrar interesse nas pessoas da forma certa. Não, não que eu não saiba demonstrar interesse, eu acho que eu sei (não posso garantir, só acho) mas as graduações e as formas sempre foram um pouco confusas pra mim, as sutilezas sempre me passaram um pouco desapercebidas e certas nuances acabam me escapando totalmente.

Vamos por partes: ok, eu estou interessado numa garota. Não, não sei precisar ao certo quais são as minhas intenções (Casamento? Namoro? Sexo? Duas horas de Marvel Ultimate Aliance para Play2 e um aperto de mão? Dividir um pacote de Ana Maria?), mas sei que estou interessado nela devido ao meu óbvio interesse e ao fato de que…bem…estou achando ela cada vez mais interessante.  E quando você está interessado e acha a pessoa interessante o normal é que você demonstre interesse. Mas quanto interesse?

Por exemplo, suponha que você demonstre interesse demais. Interesse demais é a sua forma de deixar obviamente claro que você está interessado, sem dar margem pra que a outra pessoa não entenda exatamente aonde você quer chegar. Mas aí o que acontece? Bem, em primeiro lugar você fica vulnerável, fácil. Afinal, se você está mais interessado do que a outra pessoa ela evidentemente passa a ter um certo controle sobre a situação, já que ela está menos empolgada ali do que você. Outro risco é assustar a outra pessoa, afinal, você pode estar mostrando um nível de empolgação acima do que ela considera natural ou normal e isso gerar não só o fim do interesse dela (se ela estiver interessada, o que você não tem como garantir) como também uma preocupação com a sua sanidade mental e uma ordem de restrição judicial (mas acho que isso acontece só em casos extremos e onde existe uma forte tensão “Glenn Close style”, o que realmente não tá rolando comigo, visto que eu não curto picadores de gelo). Fora que gente super-interessada é chata pra caramba e eu já consigo ser relativamente chato naturalmente. Ou seja, interesse demais realmente atrapalha.

Mas por outro lado existe o interesse de menos. Você está interessado, mas resolve pegar leve pra não parecer desesperado, não assustar a pessoa e nem precisar que seus pais levem cigarros pra você na cadeia. Uma coisa mais cool, blasé, uma abordagem mais  Humprey Bogart em Casablanca. Mas se você não demonstrar uma quantidade mínima de interesse como a pessoa vai saber que o interesse existe? Afinal, você tá ali, paradão, chapéu de feltro, batendo um papo com o Sam sem nem olhar pra ela, como ela poderia adivinhar? E pronto, você perdeu por interesse de menos. Agora jogue volte duas casas e jogue o dado de novo.

E claro, vocês podem me dizer algo como “ah, relaxe, e aja naturalmente” ou “seja você mesmo”, mas pra mim esse tipo de frase é basicamente como “ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá, meio passional por dentro” ou “and i know i was wrong when i said it was true, that it couldn’t be me and be her inbetween without you”, frases que eu acho legais mas cujo sentido eu admito abertamente que eu não consigo muito bem alcançar. Como assim natural? Porque pra mim é total e completamente natural achar esse tipo de questão confusa. Vamos admitir, não existe um padrão, a lógica da questão é total e puramente variável, minhas experiências prévias não me garantem nenhum tipo de amostragem razoável, eu não tenho nenhum tipo de dado realmente válido sobre a posição da outra parte e tudo que eu posso fazer é seguir meus instintos que, como bem disse o Rob Gordon, eu venho seguindo desde os 14 anos e sei que realmente não tem cérebro.

Não poderia existir, não sei, uma sistematização? Um método amplamente certificado e generalizadamente aceito de demonstração de interesse que não levasse a mal-entendidos, confusões, pessoas ficando assustadas e picadores de gelo? Real e definitivamente eu não sei. Mas enquanto eu não descubro exatamente de que forma lidar com esse meu interesse e não baixo uma versão interessante do FM para parar de pensar nisso, sinto que vou ter que lidar com isso da forma mais natural e mais “eu mesmo” que eu consigo. Ou seja, vou escrever sobre esse tipo de coisa num blog.

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