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Sobre Drive, rudimentos de interpretação cinematográfica e a eterna semiótica do palito de dentes

Dentre todas as fascinantes características das obras de arte contemporâneas, uma das mais intrigantes, senão a mais intrigante de todas, é a de sua indeterminação, de sua posição como obra aberta, por assim dizer. Isso porque, sendo exposta a quantas interpretações quanto for seu número de leitores, ela nunca se esgota, com cada observador participando ativamente do processo criativo e da busca por significado. E claro, ao mesmo tempo em que, no aspecto positivo, isso quer dizer que a obra de arte sempre se renova a cada leitura já que todo novo leitor tira dela um sentido diferente, no aspecto negativo isso quer dizer que alguns leitores, várias vezes a maioria deles, vai apenas viajar grandão, ter um monte de idéia errada e ir pra casa achando que Cocoon era um filme pornô porque tinha idosos em traje de banho. Sério, tem galera que faz isso mesmo.

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3 problemas que eu tive com o filme do Lanterna Verde (e 2 coisas bacanas também)

A indefinição do tom: mais ou menos como uma senhora idosa participando do programa “Tentação” com Sílvio Santos, Lanterna Verde nunca sabe exatamente pra que lado ir. Se em alguns momentos ele procura a ficção científica, em outros ele avança na direção da comédia e em vários parte para o romance, sem em nenhum deles conseguir efetivamente funcionar. Não que outros filmes baseados em quadrinhos como Thor e Homem de Ferro não tenham nos mostrado que é possível sim transitar entre esses diversos gêneros, mas em Lanterna Verde isso sempre acontece de forma truncada e confusa, nunca parecendo realmente “orgânico”, como se algumas cenas tivessem sido enxertadas, montadas fora de ordem ou apenas filmadas porque o diretor de segunda unidade disse que seria “muita zuera” se fizessem. Exemplificando melhor o nível de sutileza e lógica nas transições temáticas, é mais ou menos como se com 30 min de “Aliens” Ridley Scott inserisse uma cena de jantar romântico e depois, lá perto do final, um alien aparecesse em cena e falasse pra Sigourney Weaver “puxa meu dedo”. Continuar lendo

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6 breves observações sobre o novo filme dos X-Men

“X-Men – First Class” é um filme bacana e divertido. O roteiro é bom, a trama flui de forma interessante, os atores se saem muito bem e a história consegue misturar ação, aventura e momentos que, sinceridade, me lembraram um bocado o seriado antigo do Batman, no bom sentido. Várias vezes falta um nível maior de desenvolvimento dos personagens e algumas coisas – como o “plano genial” do vilão – são apenas bobas e parecem ter sido imaginadas por um aluno repetente da sexta série, mas eles compensam tudo com um participações especiais, um ritmo bacana e um professor Xavier que bebe cerveja e tenta pegar as gatinhas com cantadas sobre mutação genética. Por sinal, nunca num filme de super-heróis se bebeu tanta cerveja, reparem.

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Movie Review #12, #13, #14 e #15

Mandando bala : Esse é um filme que eu sinceramente não entendo como não se tornou um clássico instantâneo, com dezenas de continuações e quaquilhões de dólares para todos que participaram. Afinal, temos Clive Owen como um mocinho clichê que come cenouras e faz piadas sobre o Pernalonga, temos uma mocinha prostituta interpretada pela Monica Bellucci de decote, temos Paul Giamatti como um vilão genialmente bizarro e temos cenas de ação envolvendo bebês, secadores de mão daqueles de banheiro, pessoas fazendo sexo enquanto atiram e todo tipo de cena irreal e surrealmente decorrente das combinações disso tudo. Um exemplo clássico de que para fazer um bom filme de ações estupidamente mentiroso tudo de que você precisa é manter uma certa coerência na sua mentirosidade, como todos nós aprendemos em “Adrenalina” e “Carga Explosiva”.  Cotação: 6/8

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Movie Review #9, #10 e #11

#9: Modelos nada corretos (5/8) – Por mais que namoradas, colegas de faculdade e estudantes de cinema discordem, existe um óbvio valor intrínseco nas comédias americanas meio babacas que ainda precisa ser reconhecido. O drama de um soldado longe de seu lar, preso numa guerra que não compreende, pode te fazer refletir sobre a natureza humana? Claro. A superação de um casal de jovens que, contra tudo e contra todos, luta por seu amor pode nos inspirar e aquecer nossos corações nas noites solitárias movidas a brigadeiro cor de rosa? Aham, ok. O sofrimento de uma jovem mãe solteira e sem memórias do seu passado que luta para criar seus 17 filhos negros judeus árabes no sul dos Estados Unidos em pleno período da Grande Depressão sem ajuda, dinheiro ou amigos e tendo sempre que substituir o número quatro e seus múltiplos pela palavra “pim” quando fala, nos faz pensar em nossas dificuldades e em como certos roteiristas forçam a barra? Óbvio. Mas amigo, existem coisas que apenas Adam Sandler gritando com um taco de golfe ou Steve Carell sendo depilado podem fazer por você.

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Movie Review #8 – “Os Mercenários”

O cinema é, se formos pensar bem, uma máquina de realizar sonhos. Assim como uma lâmpada mágica ou um anel de Lanterna Verde, ele tem a capacidade de permitir que vejamos diante de nossos olhos coisas que habitavam apenas as nossas imaginações, os cantos mais profundos das nossas mentes, e que nós possivelmente nunca enxergaríamos no mundo real. No cinema nós chegamos mais cedo à lua, no cinema nós fizemos contato com civilizações de outros planetas, no cinema nós descobrimos como seria a vida após a morte, no cinema nós vimos como seria Scarlett Johansson ruiva usando uma roupa de couro (e eu nunca poderei lhe agradecer o bastante por isso, Sr. John Favreau).

E se você foi um garoto na década de 80 possivelmente sempre imaginou que o filme de ação máximo, o auge do cinema cheio de som e de fúria, seria algo envolvendo Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis juntos. E haveria bombas, explosões, mortes, carne voando, piadinhas sendo lançadas e talvez, sim, talvez, um cara com uma roupa camuflada lançando um míssil com as próprias mãos. E se você era um desses garotos, meu amigo, eu posso dizer que, sem dúvidas, “Os Mercenários” realizou o seu sonho.

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8 Tópicos aleatórios que substituem a minha resenha de Hot Tub Time Machine

Quando você traduz “The Hangover” como “Se beber não case” e logo depois traduz “Hot Tub Time Machine” como “A ressaca” você gera um tipo de paradoxo lingüístico de tradução que permite que, de uma certa forma estranha, “A banheira máquina do tempo” possa ser traduzida para o inglês como “If you drink, don’t marry” sem problemas.

O conceito de uma banheira de hotel que, quando quebrada, faz com que as pessoas viajem no tempo é uma daquelas idéias que te fazem soltar um “meu deus, por que eu não pensei nisso antes?” e logo depois um “porra, mas se eu tivesse pensado, o que eu faria com isso?”

Toda comédia, seja do tipo que for, desde romântica até dramática, deveria ter a obrigação contratual de contar com pelos menos um ator/atriz que participou de forma proeminente de um dos seguintes filmes: Evil Dead, Caça Fantasmas ou Férias Frustradas.

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Movie Review # 7

A Mulher Invisível

Cotação 6/8

Uma coisa que sempre me ressentiu um bocado em boa parte do cinema nacional é que ele não parecia ser feito exatamente para o público e sim para o autor.  Não que eu tenha nada contra o cinema autoral, mas sempre achei que o conceito seria mais o de passar uma perspectiva autoral através da obra e não o de fazer uma obra que apenas o autor e alguns estudantes de cinema conseguissem gastar algumas horas apreciando (mas vocês podem em chamar de americanófilo vendido e inimigo da arte, eu vou entender). Por isso eu não nego que chego a ficar feliz com a intenção que parece ter surgido nos produtores de cinema brasileiros de fazer filmes que, ó supremo mistério da indústria, o público realmente possa, em algum momento, sentir alguma vontade de ver por alguma razão que não a de impressionar as garotas no bar do DCE. Claro, nesse processo surgiram criações que vão desde filmes malas como “Dois filhos de Francisco” e “Olga” até filmes realmente divertidos e que te motivam a pagar uma entrada de cinema, como “Meu tio matou um cara” e, claro, “A Mulher Invisível”.

Com direção e roteiro de Cláudio Torres (do irregular mas interessante “Redentor”), o filme conta a história de Pedro, um cara extremamente romântico que, após ser abandonado pela esposa, que alegava que a vida deles era “segura demais”, se afasta do mundo e acaba conhecendo a mulher perfeita, sua vizinha Amanda. Ela adora tudo que ele faz, é linda, não reclama de nada, em suma, ela é perfeita mesmo. Ela só tem, é claro, um defeito. Ela não existe.

Bem, procurando na sua mente você vai achar que já viu isso antes, e provavelmente já viu mesmo, mas é aí que está a graça do filme: “A mulher invisível” não tem medo de ser um filme “normal”, em nenhum instante. Está ali toda a fórmula do cinema americano, desde a divisão do filme em três atos e um epílogo até o melhor amigo engraçado do mocinho, a vizinha real que é tão interessante quanto a vizinha imaginária, toda aquela aura de “familiaridade” que os americanos aprenderam que o cinema precisa ter se quiser lotar salas e fazer dinheiro. A diferença é que Torres conseguiu ao mesmo tempo contar uma história que pode atrair o público sem pra isso abrir mão de contar uma boa história, e se cercou de ótimos atores, além de ter escrito um bom roteiro.

Primeiro Selton Mello. Bem, o Selton Mello é foda. Ele dublou Peanuts, ele fez o João da Ega em “Os Maias”, ele é um dos poucos atores brasileiros “jovens” que consegue carregar um filme nas costas (acho que o outro seria o Wagner Moura) e, se as minhas expectativas em relação a “Feliz Natal” se concretizarem, vai ficar provado que o cara também é um ótimo diretor. E ele fez piadas sobre o Oswaldo Montenegro nos “Aspones”. O que mais eu posso dizer de um cara desses? A atuação dele, ainda que numa onda careteira meio “Jim Carrey”, é excelente e serve pra ancorar o filme. Mas isso você provavelmente só vai entender quando, lá pro final, ele para na frente do elevador e começa a dizer “eu estou bem, eu estou bem, está tudo bem”. Sensacional, mesmo.

Luana Piovani faz o papel que é possível pra Luana Piovani fazer, e cumpre muito bem a tarefa de ser “a mulher dos sonhos”. Não foi aquela atuação toda (mesmo porque não precisava ser), mas conseguiu contar a história da forma que precisava ser contada e colocar a autenticidade necessária nas falas. Pedir mais o que, né? Vladimir Brichta fez o papel de malandrão que ele sabe fazer tão bem e Maria Manoella (de quem eu nunca tinha visto nada), se saiu sensacionalmente bem no papel da vizinha, aquela coisa de mocinha tímida de comédia romântica, se encaixando totalmente.

Espero mesmo que o filme dê uma bela grana, porque vale a pena ser visto (ainda que, depois de pegar uma sessão de sábado a tarde e notar que na sala estávamos apenas eu, um casal de garotas e um velhinho que parecia bêbado, eu não sei o que pensar) e é mais um passo rumo a conseguir conciliar uma indústria cinematográfica nacional de qualidade com uma produção autoral significativa e influente. Meus próximos compromissos com o cinema nacional agora são “Apenas o fim”, do Matheus Souza, que parece ser uma comédia romântica/dramática nacional com toques de cultura pop(?!) que eu duvido que vá passar em Juiz de Fora e o documentário sobre o Simonal, o tipo da idéia que lá fora daria uma mini-série premiada com vários Globos de Ouro e um filme com Oscar pro Jamie Foxx, mas no Brasil tende a não passar nem uma semana em cartaz.

De qualquer maneira esse é um filme que vocês deveriam ver, fosse ele brasileiro, americano, inglês, búlgaro ou indiano (ainda que na Índia um filme com um protagonista controlador de tráfego fosse ser beeeem mais engraçado. “Acidente envolvendo uma vaca e uma van cheia de crianças na avenida principal, Nandra. Mande alguém lá pra salvar a vaca, agora!”), mas que por ser nacional ganha toda uma simpatia especial e merece o nosso incentivo. Eu recomendo. (mas nem a pau devolvo seu dinheiro se você não gostar, claro…)

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Movie Review #6

X-Men Origens : Wolverine

Cotação: 4/8

Eu sou uma pessoa que se sente profundamente estimulada pela incapacidade alheia e profundamente intimidada pela genialidade dos outros. Por exemplo, quando eu estou escrevendo alguma coisa eu gosto de ler livros de autores ruins, porque me dão auto-estima e coragem para continuar escrevendo, enquanto livros realmente legais acabam me desanimando, porque eu fico pensando que nunca vou chegar naquele nível e desisto temporariamente de escrever. O mesmo vale pra filmes, músicas, tiras e tudo mais. E bem, tenho que admitir que depois de assistir “X-Men Origens: Wolverine”, eu passei a me sentir imensamente convicto de que posso ser um roteirista profissional e quem sabe um diretor em Hollywood.

Antes de tudo quero explicar que nunca gostei do Wolverine como personagem. Não que eu não goste do conceito, não ache que ele tem ótimas histórias, não compreenda o conflito, mas é um personagem com o qual eu simplesmente não consigo ter a ligação que eu tenho com o Homem-Aranha, os Lanternas Verdes, o Impossível ou até mesmo o Homem Formiga. Simplesmente não consigo ver a graça da coisa. Mas o mesmo acontece com personagens como Batman e Homem de Ferro, e mesmo assim eu achei os dois filmes do morcego e o filme do ferroso simplesmente sensacionais, acima de qualquer crítica, ou seja, eu fui assistir Wolverine com o coração aberto e a maior boa vontade possível, não só porque achei que a Fox poderia ter dado uma bola dentro como também achei que, oras, se tinha o Deadpool não poderia ser tão ruim assim. Mas foi.

Primeiro vamos ao roteiro, uma verdadeira salada mista de referências, cronologias e personagens. Não vou comentar o verdadeiro estupro aos cânones dos quadrinhos que foi a história concebida por David Benioff e Skip Woods, porque seria pura nerdice reclamar que Emma Frost nunca foi irmã da Raposa Prateada(que na verdade era uma nativa-americana), que não existe nada disso de Logan e Creed serem irmãos, que Chris Bradley nunca fez parte do núcleo original do Arma X ou que Deadpool tinha poderes de regeneração e habilidades como mercenário, mas NUNCA teve rajadas óticas, teletransporte, super-sopro, padrinhos mágicos ou coisas do tipo. Sério, resmungar sobre isso seria como reclamar da teia orgânica do Homem-Aranha, do Rei do Crime ser negro em Demolidor e de terem matado o Ciclope em X-Men 3. Por isso eu nem vou tocar nesses assuntos, prometo.

Mesmo levando em consideração que o público-alvo era não-nerd e aceitaria esse tipo de incorreção sem grandes problemas, o roteiro ainda é esburacado, algumas cenas não fazem muito sentido e certos personagens são trabalhados de forma apressada e tosca. Claro, dá pra aceitar que Creed não precise de grandes motivações para agir como um babaca, afinal, ele é um babaca, mas que história é aquela do Stryker de “ele vai me matar mas eu vou apagar a memória dele, hahaha!”? Que tipo de vingança vilanesca é essa? E que ilha secreta é aquela onde todo mundo chega, entra e sai na hora que quer? E como assim Gambit dá porrada no Wolverine? E como isso tudo se liga com os filmes dos X-Men? Afinal, Wolverine não lembra que é irmão do Dentes de Sabre, eu entendo isso, mas como o Creed não lembra que é irmão dele em X-Men I? E como ele passa de militar mau e malandrão para capanga bicho de pelúcia? Vão explicar isso em Wolverine II?

Claro, Hugh Jackman se sai malandramente bem no papel do carcaju, ainda que numa atuação mais canastra do que a da trilogia dos X-Men e Schreiber faz um Creed aceitável, ainda que mirrado demais pro padrão dos quadrinhos (nos quadrinhos Wolverine é baixinho e Creed é bem grande). Mas o resto do elenco é uma suruba caótica, com exceção de Ryan Reynolds que parece ter um certo futuro num filme solo do Deadpool (se ainda for possível fazer um filme solo do Deadpool depois dessa cagada de pato que foi feita com a origem do personagem). Sobre a participação do cara do Black Eyed Peas eu sinceramente prefiro não comentar e espero que não tenhamos Vanilla Ice em “Wolverine Origens: Magneto”…

Em resumo: Wolverine é um filme de ação pra se assistir não com o cérebro em ponto morto como Adrenalina ou X-Men, mas sim pra assistir com o cérebro em marcha-ré e possivelmente com o motor meio fundido. Num projeto que tinha enorme potencial, a necessidade de enfiar o máximo de personagens possível (ainda que de forma bizarra e desrespeitosa) e de buscar mais o apelo comercial do que contar uma boa história acabou levando a um resultado bem meia-boca que pode ter agradado a certas parcelas do grande público, mas deixa um fã de quadrinhos mais perdido do que o cara do chinelo no Pânico na TV (“Cadê o meu chinelo? Cadê o Deadpool? Cadê o meu chinelo?!”). Não vou comentar especificamente o trabalho do diretor porque ficou claro que ele dirigiu com o revólver da Fox na cabeça e não teve culpa no resultado final. Mais uma vez, assim como em Wanted, é melhor ler o material original e deixar o filme quem não gosta de quadrinhos.

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Movie Review #5

“Zack and Miri make a porno”

Cotação: Inaplicável*

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Como eu já contei aqui (ou aqui, ou aqui, ou até mesmo aqui, não me lembro bem) a primeira vez que eu vi um filme do Kevin Smith foi numa noite vazia, na Bandeirantes, e o filme era “O Balconista”. Desde então Kevin Smith virou pra mim uma referência em termos não só de cinema como de produção criativa como um todo, assim como um exemplo de ser humano e criatura viva num contexto mais amplo da criação cosmológica. Se pra mim o Weezer é a grande banda que os Beatles poderiam ter sido de Lennon andasse com as pessoas certas e eles deixassem o Ringo interferir mais nas músicas, Kevin Smith é o cineasta que Orson Welles poderia ter sido se lesse as histórias em quadrinhos certas e tivesse uns amigos menos sérios.

Apenas para ilustrar com um último exemplo o meu respeito pelo trabalho do pai da pequena Harley Queen, sempre que eu ouço alguém criticar Kevin Smith eu apenas pergunto pra pessoa a religião e o nome do pai, pra poder dizer que a fé dela e uma mentira e o pai dela é gay. Simples assim.

Por isso fazer uma resenha minha de um filme do Kevin Smith é algo tão suspeito quanto a resposta da pergunta “gosta mais da mamãe ou do papai?”. (Segundo relatos de minha tia eu teria respondido a essa pergunta, quando tinha cerca de 3 anos, dizendo que gostava mais do Batman. O que é uma resposta obviamente infantil e meio sem sentido. Afinal, o Homem-Aranha é bem mais legal…). Kevin Smith é, a meu ver, um dos maiores cineastas que a minha geração teve a chance de assistir. Seu humor é ágil e afiado sem ser elitista ou excessivamente intelectual, suas tramas envolvem sem ser simplistas, sua direção é segura e competente sem tentar extravagâncias, e suas escolhas de elenco são brilhantes, levando em conta que com ele até o Ben Affleck se torna um grande ator.

Sim, algumas pessoas podem dizer que ele é grosseiro, que ele abusa da escatologia (“xixi/cocô”), que ele é auto-referencial, que ele é cinema pra nerd ou até mesmo que ele é gordo. Mas fora a acusação de obesidade, nada disso é verdade. Smith é tão grosseiro quanto qualquer boa conversa de amigos, tão escatológico quanto as histórias que você conta quando está bebendo com seu irmão, tão auto-referencial quanto toda a cultura pop atual e tão nerd quanto…quanto…quanto algo bem nerd, mas engraçado…quanto aquele vídeo do Darth Vader sendo babaca e fechando a porta da salinha dele, por exemplo!

E mesmo que ele fosse isso tudo, ele compensa qualquer defeito com a identificação que as tramas dele oferecem pra uma grande parte de um público que nunca foi tão bem representado nos cinemas: os caras de vinte e tantos (ou trinta e poucos) e com problemas em relação as suas perspectivas de vida, seja no trabalho ou na vida pessoal, mas que não ligam muito pra isso e continuam bebendo suas cervejas e vivendo sua rotina. Smith mistura quadrinhos, cultura pop, cinema, literatura, música, amizade, superação pessoal, romantismo, piadas sobre fluidos corporais e declarações de amor feitas através da porta do banheiro com a simplicidade e a sinceridade de quem está fazendo um filme pra amigos ou contando uma história enquanto joga playstation contigo, não se levando à sério e não te pedindo pra levar nada daquilo á sério.

Ah, e falando sobre o filme: Zack (Seth Rogen) e Miri(Elizabeth Banks) são dois amigos de infância que, quando percebem que estão sem um centavo e sua luz e água foram cortados, decidem fazer um filme pornô pra conseguir dinheiro. Simples assim, mas escrito e dirigido por Kevin Smith.

Observações:

-Nunca pensei que eu fosse dizer isso sinceramente na minha vida, mas Brandon Routh ganhou o meu respeito pela sua participação especial no papel do amigo de infância gay da Miri. O diálogo entre ele e Justin Long é um dos melhores momentos bizarros do cinema em décadas.

-Eu realmente nunca imaginei quantos trocadilhos a língua inglesa proporcionava com a palavra “cock” até ver esse filme.

-A audição do título nacional (“Pagando bem que mal tem?”) levanta duas possibilidades sobre o conteúdo do filme: a)pornô-chanchada com o Costinha; b)pornô com ex-paquita, lançado pela SexxyStars. Obrigado pelo excelente trabalho, pessoal!

-Eu faço piadas sobre o Ben Affleck, mas é apenas por inveja. Ele é amigo do Kevin Smith e pai dos filhos da Jennifer Garner, isso basta pra mim.

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