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Breves entrevistas com corretores hediondos

Como posso já ter comentado anteriormente, eu estou procurando um apartamento novo. Um tanto pela da necessidade de morar sozinho, um bocado por causa do reajuste proposto para o nosso atual apê – na casa dos 878, 3% – um pouco por conta do fato de que eu e Tarcisio finalmente entendemos que apenas em seriados americanos e vilas militares é comum que homens heterossexuais perto da faixa dos 30 anos morem juntos. Sério, as pessoas estranham e a garota do censo fez piadinhas. Não foi legal.

E como muitos de vocês provavelmente sabem, eu moro no Rio. Sim, o Rio, a proverbial cidade maravilhosa, dotada de um dos maiores custos de vida do país e onde, por conta da realização das olimpíadas e da copa, conseguimos levar a especulação imobiliária para o próximo nível, com quitinetes que tem preço de apartamentos de um quarto, apartamentos de um quarto que tem preço de apartamentos de dois quartos e apartamentos de dois quartos que tem valor estimado acima do PIB da Líbia e com os quais você poderia tranquilamente financiar dez anos de pesquisas sobre algum vírus ou reduzir em 10% a fome na África.

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O lado carioca da força

Como qualquer nerd que se preze sabe, uma das principais lições que nós podemos tirar da hexalogia Star Wars é que vários de nós podem, devido a escolhas erradas, se tornar aquilo que mais odeiam (a outra lição importante é que antes de ficar todo malandrão pra cima de alguma mulher você deve ter certeza de que ela não é sua irmã gêmea). E eu tenho que admitir que desde a minha mais tenra infância eu sempre considerei que a antítese perfeita da minha personalidade era o estereótipo do malandrão carioca.

Sim, aquele cara todo playboy, malhadão, cheio de ginga, malícia e fanfarronice, que em plena quarta-feira ficava secando as menininhas na praia, jogava aquela bolinha aos sábados perto do Leblon e que saia aos domingos de bermuda e camisa pólo como se a ciclovia fosse uma espécie de Wimbledom bronzeada. Toda aquela malandrice, toda aquela marra, todo aquele jeitinho auto-indulgente do carioca de novela da Globo, que parece achar que está no centro do universo e tudo vai dar certo porque, de alguma forma o Rio é a terra prometida e não tem como dar errado, tudo isso era o exato oposto da minha personalidade contida, preocupada e que acha que o universo caminha para a entropia e vai chegar lá bem mais rápido do que um ônibus vindo da Barra.

Mas aí eu vim pro Rio e…bem…sabe como são essas coisas. A alergia patológica da praia se transforma numa total incapacidade de abandonar os bares da orla, mesmo quando arrastado pelos braços; a certeza de que eu não vou ficar gastando dinheiro pra entrar em boate se esvai diante de finais de semana de quatro dias que terminam e começam na Lapa; a certeza de que regras devem ser seguidas vai embora quando começamos a convencer motoristas a parar fora do ponto, taxistas a entrar na contra-mão e policiais a não dar multas; e até mesmo meu bravo sotaque mineiro de Juiz de Fora desaparece diante do preponderante “s” chiado carioca. Aquela aparente alegria daqui deixa de parecer presunção e se torna simples felicidade, o total desrespeito pelo sistema, seja o sistema que for, se torna apenas criatividade somada a espontaneidade e o horrendo e bizarro trânsito carioca começa a parecer…horrendo e bizarro, afinal, eu posso ter adorado a cidade, mas ainda não estou maluco.

A verdade é que o Rio precisou de apenas quinze dias pra me conquistar. Claro, admito, ele teve certas vantagens que fariam com que qualquer cidade conquistasse qualquer um, afinal, a mudança pra cá envolveu um aumento significativo de renda, qualidade de vida, auto-estima, aprendi a fazer a barba e, vocês não notaram, mas minha voz e está mais grossa e eu passei a sair nas fotos sem cara de bêbado. E cara, isso é muita coisa. Ainda assim é evidente que é muito cedo pra dizer que o Rio é o lugar certo ou que passou a ser parte do meu projeto de vida. A beleza das praias pode se diluir na tensão da cidade, o legal da vida noturna pode sumir diante dos sustos e da violência, a animação com o novo pode sumir diante da saudade dos amigos que estão longe e tudo mais e talvez em seis meses eu já esteja desesperado na Rodoviária Novo Rio suplicando pra que um ônibus me leve de volta pra Minas e não me traga pra cá nunca mais. Tudo é possível.

Mas por enquanto acho que estou sim no lugar certo. Essa semana começo a procurar apartamento (provavelmente no Flamengo ou em Botafogo), antes do fim do mês começo a malhar (sério, a minha barriga poderia coexistir com uma vida normal em Minas, mas no Rio eu vou ter que entrar em forma e vou me obrigar a fazer isso até o carnaval de 2010) e até o final do ano quero voltar ao inglês e ao francês e vou tentar começar uma pós-graduação. Meu sotaque está mudando, acho que estou ficando mais bronzeado e tenho bebido muita tequila. Sim, é legal estar aqui, solteiro no Rio de Janeiro, como diria Tony Garrido. Mas o trânsito ainda é uma droga. Onde mais uma bicicleta corta uma van na contra mão na frente de um ônibus que está tentando ultrapassar uma charrete pela calçada?

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