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Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [2/2]

 

Da primeira vez foi uma coisa inocente, claro. Ele se aproximou, perguntou se estava tudo bem e se eu, que entendia dessas coisas de internet, poderia dar uma força. Ele queria baixar uns filmes e não sabia onde procurar. Eu, estagiário, fui dando indicações sobre torrents, sites de filmes legendados, essas coisas, até entender exatamente de que tipo de filme ele falava e explicar que bem, eu não poderia ajudar num assunto assim, feria minha ética profissional, sabe como é. Primeiro porque eu sempre vi a pornografia da mesma maneira que o álcool – é interessante, ajuda a relaxar,durante a adolescência você talvez exagere na dose e não consiga responder a algumas perguntas dos seus pais, mas quando começa a afetar sua vida pessoal e seu trabalho é porque você está indo longe demais. E depois porque, bem, era eu baixando pornografia pra um cara. Isso é esquisito, de diversas formas. Não é bacana.

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Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [1/2]

A época era o começo dos anos 2000, a cidade era Viçosa, o período era o sexto da faculdade de jornalismo, as aulas de fotografia eram feitas com pinhole, a vida era complicada, o contexto econômico era catastrófico. Após anos de uma confortável vida como jovem de classe média eu me via, após a implosão das empresas pontocom, a crise do óleo no oriente e a demissão do meu pai, obrigado a finalmente me defrontar com a realidade de um mundo sem mesada, sem dinheiro pra livros, sem mochila nova e onde independente da sua opinião sobre café da manhã, almoço e jantar, a refeição mais importante do dia seria fatalmente o macarrão com salsicha.

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Outros adendos ao dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você está saindo do trabalho e uma garota com uma prancheta te aborda, diz que faz parte de um grupo de pesquisa e pergunta se você pode ajudar respondendo algumas perguntas. Muito adiantado pra uma consulta médica, você diz que sim, ok, tudo bem. Aí ela, entre sem jeito e sem graça, diz que o assunto são hábitos das pessoas na cama. Você respira fundo, luta contra a sua timidez e durante 10 minutos fala sobre sua vida sexual desde que perdeu a virgindade, comentando sobre inseguranças, experiências pessoais e possíveis pontos de melhoria que você nota em si mesmo. Aí a garota diz que apenas trabalha numa empresa de colchões, mas respeita a sua sinceridade e te deseja só coisas boas.

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CPF

(Um breve registro que eu encontrei no meu computador sobre os tempos em que eu trabalhava no banco)


“Eu vim aqui regularizar o meu CPF”

“Tá, me passa o número dele então…”

“Bem, o número é xxxxxxxxxxxxxx”

“Ok, me deixa ver…”

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Post número #200

E após um ano e meio de Just Wrapped… finalmente chegamos ao post de número 200. Boa parte devido ao apoio e suporte de vocês, boa parte devido ao fato de que eu realmente preciso sair mais, atingimos uma marca simbólica que, apesar de não representar nada, eu acho, significa muito pra mim. Ou não. Este parágrafo ficou muito confuso.

Portanto, seguindo uma tradição clássica dos quadrinhos de nas edições comemorativas recontar a origem do personagem ou republicar histórias antigas, decidi que a melhor forma de registrar esse momento histórico é relembrando alguns dos meus textos favoritos dos meus blogs antigos. Como eu sou absolutamente incapaz de separar quais foram os melhores e quais foram os piores posts (mesmo porque a linha que os separa é impressionantemente tênue), eu decidi selecionar aqui os mais representativos do antigo período do “Lacunas e Espaços”, o meu blog anterior que, ainda que feito num período diferente da minha vida, quando eu tinha problemas e anseios totalmente diversos dos de hoje, era absolutamente igual a esse aqui.

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Band of brothers

Como qualquer um que tenha assistido um mísero episódio de Friends e contemplado a dinâmica Chandler/Joey é capaz de reparar, quando você divide um apartamento com alguém essa pessoa se torna praticamente parte da sua família.  A convivência, as conversas, os problemas e situações compartilhados, as discussões nas reuniões de condomínio, as vezes em que um deixa o outro preso fora da casa de madrugada e ele precisa dormir na calçada de uma farmácia abraçado a um cão com claros sinais de Mal de Hansen canino, essas coisas acabam criando entre você e essa pessoa um vínculo e uma amizade muito difíceis de serem destruídos. E vendo a repercussão (preocupação?) de muitos de vocês diante do último post achei que nada seria mais justo do que homenagear aqui todos os meus ex-colegas de república e meu atual colaborador, tão injustiçado no mais recente texto aqui do blog. Por isso aqui vai o meu sincero agradecimento a todos esses caras que são praticamente meus irmãos mas que eu não gostaria de ver entrando do quarto da minha mãe.

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Pequenas lembranças esquisitas da minha infância

A metáfora do galo

Não sei se vocês se lembram, mas existia um desenho um tanto quanto antigo, que passava na Globo, eu acho (ainda que os desenhos hoje em dia mudem de canal na TV aberta o tempo todo, o que me faz admitir abertamente que o Frangolino tem uma vida mais movimentada do que a minha, mas tudo bem) e que tinha como personagem principal um galo. Esse galo era física e intelectualmente um galo (ele fazia “cororicó, por exemplo. Não, não o programa cocoricó, o som cocoricó, cara…) mas as pessoas, no começo do desenho o tratavam como se ele fosse um humano, uma pessoa de verdade, e lhe davam algum tipo de função ou designação tipicamente humana. A de atuar, dirigir, trabalhar como vendedor, motociclista, alguma coisa assim. E diante desse tipo de pressão o galo fica o tempo todo tentando explicar de alguma forma que ele não poderia fazer aquilo porque é um galo e galos não fazem esse tipo de coisa (ou ao menos não deveriam fazer). E ele insiste e insiste, mas as pessoas continuam acreditando piamente que ele é uma pessoa e deve continuar fazendo aquilo que foi pedido pra ele, o que faz com que ele, quase no final do desenho, aceite que realmente é uma pessoa e comece a agir como se fosse uma, aceitando sua nova condição de ser humano. Aí alguém aponta pra ele, grita “um galo!” e todos os outros personagens começam a dar porrada nele.

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