Arquivo da tag: post pago pela lorenzetti

Aquele em que eu falo sobre o chuveiro

Graças ao fato de estar me mudando pro Rio e ser recém-contratado eu consegui uns dias de folga e resolvi passar esse tempo em Juiz de Fora pra rever minha família e poder me despedir direito de boa parte dos meus amigos. Voltar pra casa antiga, encontrar mãe, irmão, amigos, toda aquela coisa. Cheguei no domingo e a primeira coisa que fiz foi tomar um bom banho pra logo depois ir comer aquele delicioso prato de costelas que só minha mãe e os caras do Outback sabem fazer, sendo que ela por enquanto não cobra nada (ainda que não ofereça molho barbecue). E estou eu debaixo do chuveiro pra tomar aquela ducha relaxante quando noto que o chuveiro está uma droga. Pouca água, uns jatos meio sem rumo e ainda por cima naquela temperatura irritante que você não sabe se é quente, fria, morna ou se você entrou na andropausa e agora sua sensação térmica está totalmente confusa mesmo. Garoto engenhoso que sou, peguei um escada e fui tentar consertar aquela coisa, mas nesse exato instante minha mãe passava pelo corredor e resolveu perguntar o que eu fazia enrolado na toalha e usando uma escada para me apoiar no boxe (ela disse que pensou primeiro em uma tentativa de suicídio, mas descartou a hipótese). “É que o chuveiro está quebrado, mãe, está saindo pouca água e não esquenta nada”. E minha mãe, claro, replicou com aquele carinho que só ela sabe ter. “Você bebeu? Esse chuveiro está como sempre foi, deixa de ser besta”.

É, eu sei que esse episódio aparentemente só serve pra mostrar que eu levo o assunto “banho” mais a sério do que deveria, mas pra mim ele acabou mostrando uma coisa estranha: que eu não me sinto mais em casa na minha casa. O chuveiro não me parece mais funcionar direito, a cama parece meio pequena, o monitor do computador parece meio torto e as cortinas parecem meio esquisitas (ainda que eu acredite que elas realmente são esquisitas e nesse caso não é impressão minha). E ao mesmo tempo eu ainda não me sinto em casa no Rio, ainda não achei minha posição no sofá, ainda acordo de madrugada e não acho a cozinha, ainda tento sair da cama pelo lado errado. Acho que é a isso que chamamos de “transição”, e não falo só de casas.

Sim, eu sei que Juiz de Fora não é mais a minha cidade, mas ainda não me acostumei com o Rio, acho tudo muito esquisito. Sim, eu sei que não sou mais um pós-universitário desempregado, mas ainda não me acostumei com a idéia de acordar cedo todo dia, ter uma mesa e ir com a minha pasta participar de reuniões. Eu sei que não vou ver meus amigos de Juiz de Fora todos os dias e nem sair com eles aos sábados, mas acho que vai demorar, por mais que eu goste do pessoal do Rio, pra que eles sejam realmente meus “amigos” e eu tenha com eles a familiaridade que eu tenho com o pessoal daqui (se eu começar, por exemplo, uma “briga de tiranossauros” ou um momento “Ballack sem cabeça” por aqui eu realmente não sei como eles vão reagir). É esquisito pensar que as coisas continuam lá, como sempre estiveram, no máximo com algumas poucas alterações, e foi você que mudou e agora não se encaixa mais nos antigos espaços e ainda não se adaptou aos novos. É estranho estar em transição. Mais ou menos como uma criança pequena que descobre que não consegue mais ficar de pé debaixo da mesa, uma garota que engordou e descobre que não cabe mais nas antigas roupas ou, não sei, um cara que descobre que não consegue mais se acostumar com o chuveiro de casa.

Definitivamente eu levo essa coisa de banho muito mais a sério do que deveria.

7 Comentários

Arquivado em Crônicas, Vida Pessoal