Arquivo da tag: realidade

Item #67 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

vilhena

Se trata de um daqueles relacionamentos cujo grau de intimidade é confuso. Você não consideraria um amigo, mas é mais do que um conhecido, não trabalhou contigo então não é colega, vocês não tem vínculos de parentesco que você saiba. Se conhecem faz tempo mas suas horas de conversação somadas não permitiriam que vocês tirassem um brevê pra pilotar avião de papel.

Você estava esperando a namorada sair do trabalho, ele estava de passagem, você viu que ele acenava do outro lado da rua, acenou de volta, viu que ele atravessava a rua, o aceno se tornou mais tímido, viu que ele se aproximava e o que era um aceno se tornou o movimento em libras para “puta arrependimento do caralho”. Simulou uma olhada no celular mas era tarde demais para ser salvo pelo candy crush.

Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em Gente bizarra, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Simples situações românticas da vida adulta que não são nem tão simples, nem tão românticas e nem tão adultas

datenight03

a data é comemorativa, o momento é bonito, a namorada já alertou que a estante está lotada e não parece uma boa ideia você continuar dando livros de presente. ela mencionou que gosta de massagens, você andou lendo sobre o valor das experiências em comparação com os presentes materiais, a clínica de spa parecia bonita no site. você pensou em reservar só pra ela, achou que seria pouco romântico, decidiu reservar pros dois pra não ficar jogando candy crush na sala de espera. fez a pesquisa, envolvia massagens, envolvia banhos relaxantes, envolvia pétalas de rosa, você leu em algum lugar que pétalas de rosa são uma boa, mulheres curtem pétalas de rosa, se por exemplo você matar alguém e chegarem duas policiais femininas você se cobre com pétalas de rosa. telefonou antes perguntando se precisava levar alguma coisa, clínica disse “não precisa levar nada, tá tudo sob controle, apenas pode vir”, chega o dia, você vai. chegando lá o clima é esquisito, você na sala de espera vê um gringo passando de toalha, ele não parece ter nada por baixo, você fica pensativo, você não manja de spa, você deveria ter pesquisado melhor.

Continuar lendo

7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, romantismo desperdiçado, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Breves fenômenos contemporâneos da dissociação cognitiva: “A síndrome das férias”

Primeiro estágio: contaminação – Tudo começa com a aproximação do período das férias. Aquele seu amigo, antes articulado, cheio de assuntos e capaz de numa mesma conversa abordar temas tão variados quanto o nono segredo de fátima, mineração em áreas de grande profundidade, bukkake e porque é impossível cancelar qualquer plano na blockbuster – ainda que você ache que essa parte da blockbuster tenha sido meio forçada e nada orgânica em termos de papo – subitamente se torna uma criatura total e absolutamente monotemática, conseguindo falar apenas sobre as próprias férias. Onde elas vão ser, o que ele vai fazer, como é o hotel, como é o avião, como ficou a foto no passaporte, quais bermudas ele comprou, qual gorrinho ele vai levar e como ele planeja voltar com 12 ipads, todos fora da mala, alegando que é pra uso pessoal. A sensação coletiva que, antes era de simpatia (“ah, que bom, cara, suas férias”), rapidamente se transforma em indiferença (“é, eu sei, cara, são suas férias”) e caminha em direção a antipatia (“mas porra, só fala dessas férias, cacete”) podendo em casos extremos chegar até mesmo ao ódio puro (“tomara que um puma leproso te lamba a cara e um tubarão te coma, fdp. e dane-se se suas férias são em quebec”).

Continuar lendo

10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Mundo (Su)Real, situações limite, teorias, Vida Pessoal