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Sobre sistemas, pessoas e coisas que não têm preço

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Vivemos numa era de sistemas, redes e organizações. Sistemas para transmitir informações, redes para nos socializar, conglomerados que lidam com todo tipo de atividades, desde empresas que te permitem usar o mesmo software em qualquer escritório até marcas que te permitem comer o mesmo prato em qualquer lugar do mundo. E conforme esses sistemas, redes e organizações vão crescendo e se tornando cada vez mais poderosos, essenciais e familiares acabamos perdendo de vista um dado muito importante sobre todos eles: qualquer sistema, rede ou organização é composto, em algum grau, por pessoas.

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João e o chicletinho feroz – ou como depois de três anos eu apenas desisti de entender as pessoas aqui no Rio

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Isso aconteceu ontem, na hora do almoço.

“Opa, boa tarde, quero dois desse chiclete de maçã verde aqui, amigo”

“Desse aqui, parceiro?”

“É, dois desse”

“Tranquilo, dois dele então. Dois reais cada um”

“Pronto, toma aqui, cinco reais”

“Cara, mas antes de vender, uma pergunta. Tu tá feroz pro final de semana?”

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O que você me pede eu não posso fazer: sobre gentileza, favores, filas de mercado e uma referência velada a uma música do Humberto Gessinger

Vivemos numa era de poucas gentilezas. Se você deixar seus livros caírem poucas pessoas se voluntariam a pegar, se você estiver com compras pesadas quase ninguém vai te ajudar a carregar, se você precisar mudar de pista nenhum carro vai te dar a vez e se você precisar de um transplante de coração duvido que alguém vá se matar pra você conseguir. Ainda que esse último talvez tenha sido um exemplo ruim. Mas bem, espero que vocês tenham entendido meu ponto. Vivemos numa era de poucas gentilezas, como eu disse.

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Dos problemas da ausência de um senso maior de heroísmo e realização na vida real das grandes metrópoles

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E você saiu de casa atrasado. A reunião era 08:00 e por conta de uma série intrincada de eventos que envolveram desde o fim da pilha do seu despertador até uma certa dificuldade para ligar o aquecedor, passando pela ausência de meias limpas e do fato de você ter gasto dois minutos tentando encaixar uma tetra-chave numa fechadura convencional, você só conseguiu sair do seu prédio às 07:50. O tempo é curto, as probabilidades jogam contra você e ao fundo toca “against all odds”, o que apesar de meio deprimente faz um certo sentido no momento. Mas agora não é hora de lembrar que você precisa tirar esse greatest hits do phil collins do ipod, é hora de correr.

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Breves entrevistas com corretores hediondos

Como posso já ter comentado anteriormente, eu estou procurando um apartamento novo. Um tanto pela da necessidade de morar sozinho, um bocado por causa do reajuste proposto para o nosso atual apê – na casa dos 878, 3% – um pouco por conta do fato de que eu e Tarcisio finalmente entendemos que apenas em seriados americanos e vilas militares é comum que homens heterossexuais perto da faixa dos 30 anos morem juntos. Sério, as pessoas estranham e a garota do censo fez piadinhas. Não foi legal.

E como muitos de vocês provavelmente sabem, eu moro no Rio. Sim, o Rio, a proverbial cidade maravilhosa, dotada de um dos maiores custos de vida do país e onde, por conta da realização das olimpíadas e da copa, conseguimos levar a especulação imobiliária para o próximo nível, com quitinetes que tem preço de apartamentos de um quarto, apartamentos de um quarto que tem preço de apartamentos de dois quartos e apartamentos de dois quartos que tem valor estimado acima do PIB da Líbia e com os quais você poderia tranquilamente financiar dez anos de pesquisas sobre algum vírus ou reduzir em 10% a fome na África.

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Breves manuais para complexas situações cotidianas – Item #17

Conversar tranquilamente em locais públicos com pessoas idosas de direita – É uma coisa que pode acontecer. Você está num ponto de ônibus, na frente de uma banca, num consultório, perdido num evento familiar da família de outra pessoa, quando subitamente você nota, emparelhado ao seu lado, um velhinho. Suspensórios, boina, possivelmente uma bengala, camisa xadrez, ele te olha e, com uma aparência simpática e displicente, mas olhos levemente ameaçadores e traz à tona algum tema da atualidade que tem possíveis ramificações políticas e sobre o qual você realmente não queria conversar. “Mas essa ocupação da USP, hein?” ou “Mas e esse PC do B, hein?” ou mesmo “E essa coisa de bolsa-família, né, rapaz?”. Continuar lendo

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Sobre o dia em que eu tive medo de avião

Eu sempre achei que fosse ter medo de avião. Quer dizer, medo não, pavor. Primeiro pela óbvia periculosidade da idéia – é uma caixa de metal, erguida ao céu por turbinas, deslizando no ar quente, comandada por um cara que sempre tem um sobrenome como “mendonça”, “peçanha” ou “menezes” e sobre a qual só ouvimos falar quando cai – e segundo pela minha óbvia facilidade para ter medo das coisas. Tenho medo de altura, tenho medo de cavalos, tenho medo de lugares fechados, tenho medo de pessoas não tão familiares que  me cumprimentam dando aquele abraço com a cabeça apoiada no ombro, tenho medo de pegar carona e ser obrigado a conversar com o dono do carro. Em suma, se algum dia ocuparem Wall Street pedindo uma melhor divisão do medo dentro da sociedade, eu, com toda certeza, vou estar entre aquele 1% que todo mundo vai criticar por estar concentrando receios demais. Continuar lendo

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Novas aventuras em lo-fi #13

meredith

Existem canções que, mais do que divertir, mais do que entreter, mais do que mostrar seu valor como produto artístico, acabaram ganhando status de revolucionárias, seja por sua mensagem, por seu contexto ou por seu significado dentro de um plano maior do que a da música em si. “Imagine” foi o libelo de John Lennon para um mundo de paz, amor e pessoas cabeludas na cama; “Respect” foi o grito de Aretha Franklin que se tornou hino feminista na virada da década de 60; “Blowin’ in the Wind” afirmou Bob Dylan como o bardo de uma geração e “God Save the Queen” foi um marco do movimento punk, que ultrapassou o campo musical e se tornou um estilo de vida que você não quer que sua filha tenha. E hoje venho aqui para pedir que seja adicionada nessa lista de músicas que atingiram corações e mentes, mudando o mundo e a forma como nós o vemos, uma simpática canção chamada “Copo de Vinho”, do lendário funkeiro Robinho da Prata. Me deixem explicar por quê.

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É estranho sentir saudades de um Ronaldinho que eu nunca vi ou evitava ver?

E agora ao que parece uma das ondas mais bacanas do futebol brasileiro é reclamar do Ronaldinho Gaúcho. Jornalistas questionam os excessos de sua vida noturna, ex-jogadores discutem sua apatia em campo, comentaristas elucubram sobre seu posicionamento tático, Neto diz que ele não teria vaga nem na reserva do Guarani e, o mais perceptível, a grande massa dos torcedores reclama que ele não é mais aquele Ronaldinho que ele era no Barcelona. Sim, Ronaldinho já não cabe mais nas roupas que cabia, já não enche mais a casa de alegria, os anos se passaram enquanto ele dormia e o futebol dele agora é tão deprimente quanto uma música do Nando Reis.

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Formas simples de tornar emocionante um dia que de outra maneira seria um tédio #14

Vá ao futebol de sempre com um amigo e na volta para casa, ao invés de descer no ponto de ônibus em que você sempre desce, resolva ouvir o palpite dele sobre a existência de um outro ponto, logo depois, que seria bem mais próximo da sua casa. Note que, assim que o ônibus passa pelo seu ponto de costume ele começa a se distanciar perigosamente da sua casa, deixando sua rua vários quarteirões pra trás, até finalmente chegar no ponto sugerido pelo seu amigo, cuja definição de proximidade em relação ao seu prédio seria o que em Minas chamamos de “logo ali” e no resto do planeta as pessoas chamam de “longe pra cacete”.

Logo ao descer do ônibus note que seu amigo dobrou uma esquina e sumiu na rua seguinte e que você está total, completa e irremediavelmente perdido, mas nem tanto por estar numa parte desconhecida do bairro, mas sim por estar sem lentes de contato e sem óculos, o que torna sua miopia algo profundamente significativo na sua vida.

Rode durante 15 minutos pelo seu bairro pensando em como uma dessas cirurgias corretivas à laser poderiam te fazer mais feliz. Ainda mais se fosse feita no seu amigo, que não tem miopia, na região da virilha.

Ache sua rua e volte para casa.

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