Arquivo da tag: romance

Mini-conto #22 – “Quatro momentos em que Adolfo queria dizer alguma coisa para Patrícia e acabou não dizendo, porque vocês sabem como são essas coisas″

capa blog
era novembro, era o segundo encontro, era ela rindo com o copo de cerveja na frente do rosto. ela era linda, o sorriso era lindo, a cerveja parecia mais gostosa, o bar parecia melhor, as buzinas do trânsito pareciam tocar uma canção, a vida era tão parecida com uma produção da disney que ele estava surpreso de nem ele e nem ela terem como amigo um animal falante. ela ajeitou o cabelo, olhou pra ele, perguntou se estava tudo bem. ele queria dizer que estava tudo ótimo. ele queria dizer que tudo estava muito ótimo. ele queria dizer que na verdade ele nem tinha ideia do quão não-ótimas as coisas estavam antes porque ela tinha criado pra ele um novo referencial de ótimo, e agora ele teria que recalcular tudo que ele já havia considerado ótimo baseado no quão ótimo aquele momento era e ele desconfiava que nenhum outro momento já havia sido tão ótimo porque nenhum outro momento tinha tido ela, tinha tido aquele sorriso, tinha tido aquela ajeitada de cabelo, tinha tido aquele nariz tão pertinho do dele. ela perguntou de novo. “tá tudo bem?”. ele respondeu “opa, sim, tinha engasgado aqui com a espinha do peixinho”. eles tavam comendo batata frita.

Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, situações limite

Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Sem Categoria

Mini-conto #21 – “Adventure Comics 330″

lex luthor

Quando ela ligou o rádio do carro a música deles estava tocando. Por um segundo a mão tremeu, ela não conseguiu apertar o botão certo, ouviu todo o refrão. Mudou de estação. Respirou fundo, abriu a janela, saiu com o carro.

No caminho a rua de sempre estava fechada, teve que pegar um desvio. Cruzou duas ruas que não conhecia muito bem e quando reconheceu o caminho outra vez estava passando na frente do bar onde eles tinham se conhecido. Acelerou um pouco mais, quase furou um sinal, colocou a mão no porta-luvas pra procurar por alguma coisa sem nem saber o que era.

Escritório. Na entrada a Fernanda estava esperando com umas pastas, ela tentou desviar mas as duas acabaram no mesmo elevador. Ela não falou sobre ele, não perguntou, apenas cumprimentou como se não tivesse nada pra falar. As duas sorriram um pouco sem graça. O elevador pareceu demorar o dobro do tempo pra chegar no oitavo andar.

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Sem Categoria

Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

r-FRINGE-JOSHUA-JACKSON-large570

Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país a trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois caras foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, séries canceladas, Sem Categoria, situações limite

Problemas práticos do romantismo teórico – XXV

parks-and-rec-louis-ck1

Poucas coisas são mais complicadas quando se trata de relacionamentos humanos do que conseguir dimensionar corretamente a impressão que você deixou em alguém. Não existem indicadores claros, não existem regras de proporcionalidade, não existe nenhuma sistemática que oriente ou regule o quanto você lembra de alguém em relação ao quanto essa pessoa se lembra de você.

Pessoas que você se esforçou por anos pra esquecer em quinze dias nem lembravam mais o seu nome, aquele telefonema que você lutou contra si mesmo durante meses para não fazer mas acabou realizando num momento de bebida e fraqueza é respondido com um “mas marcos? qual deles? o da academia?” e você ficou sabendo através de amigos que aquela garota que na sua cabeça está indexada como “a garota que foi embora” se refere a você em eventos sociais como “o carequinha que falava engraçado”.

Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Desocupações, referências, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vida Pessoal

Mini-conto #19 – “Submarino”

submarineunpopular

Primeiro eu tinha que esquecer o seu sorriso. Esquecer a sua boca, esquecer as covinhas do seu rosto, esquecer o jeito como a sua franja caía pela sua testa, como você prendia o cabelo atrás da orelha. Depois esquecer a sua risada, esquecer o som da sua voz, esquecer o seu jeito de cantarolar, esquecer o sotaque que você achava que tinha perdido mas eu notava, esquecer o jeito como você piscava pra mim quando achava que ninguém estava olhando.

Depois seriam as coisas maiores. O seu jeito de encostar os pés nos meus na cama, o gosto da sua boca, a sensação da sua cabeça no meu ombro enquanto a gente assistia algum filme chato no sofá, as suas mãos debaixo da minha camisa pra se esquentar quando sentia frio. Os abraços quando a gente se encontrava, os beijos quando a gente se despedia, você apertando a minha mão quando alguém estranho passava do nosso lado na calçada.

Continuar lendo

8 Comentários

Arquivado em cinema, citações, contos, crise de meia meia idade, homens trabalhando, referências, romantismo desperdiçado, Sem Categoria

Mini-conto #18 – “Questões recorrentes sobre o tema viagem no tempo”

frequently_asked_questions_about_time_travel_chris_o_dowd_2

Nesse dia eu estava esperando um amigo na estação do metrô e perto das catracas estava um casalzinho. Na verdade não exatamente um casal, mais um garoto e uma garota.

Ela parecia ter uns quinze, daquelas meninas que cresceram mais rápido que os meninos da turma e perceberam essa informação ainda de uma maneira meio difusa, como uma mudança de ambiente que ela pressente mas não é capaz de precisar. Ele parecia ser da mesma idade, mas era menor, carregando a mochila dele, dela e um combo de cabelo cortado pela mãe, aparelho ortodôntico fixo e óculos escolhido sem muito critério que claramente pesava na vida dele mais do que todas as mochilas do mundo. Os dois estavam encostados na parede, ela olhando ansiosa pro outro lado da catraca, ele olhando ansioso pra ela, eu olhando ansioso para o candy crush porque sempre fico preso nas fases de transição já que me sinto sem graça de pedir que as pessoas me ajudem a desbloquear as etapas novas.

Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, contos, crise de meia meia idade, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

Tipos #12, #13, #14 e #15 de brigas de casal

paulofoul

#12 – O você tá levando isso muito a sério : Vocês se apaixonaram exatamente por causa das suas diferenças. O jeito sério dela complementa a sua fanfarronice, a sua paciência a ajuda a lidar com o próprio nervosismo, você gosta só de creme, ela adora chocolate e morango, ela precisa de dois travesseiros, você desde garoto dorme sem nada debaixo da cabeça. E isso seria lindo não fosse o fato de que você considera entrar no cinema depois que a sessão começa um sacrilégio, ela considera uma possibilidade, você considera uma toalha molhada debaixo da cama um descuido, ela considera um ato contra a pátria e a família, você considera brigar por causa disso bobagem, ela quer saber quem foi que você chamou de bobo, você diz que ela tá levando isso muito a sério, ela pergunta se então as coisas importantes pra ela são brincadeira pra você, a última coisa de que você se lembra antes de perder a consciência é de ver aquele joystick de xbox voando na sua direção.

Continuar lendo

7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

sarah_marshall

O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, homens trabalhando, séries canceladas, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal

Quando você diz que sente falta de ser solteiro eu penso em…

himym-right-place-right-time-cowboy-ted

# e ali você era o inocente útil. falaram que queriam te convidar por causa da música, que pensaram em você por conta do lugar, que tu não podia ficar de fora por causa da comida, mas na verdade você tava ali pra completar quatro no táxi, longe pra caramba a barra da tijuca, bandeira dois moendo, vai saber. chegando lá a música era ruim, a comida era cara, a faixa etária era errada e um cara muito musculoso coberto de glitter num dado momento tirou a camisa e quis te abraçar, te chamando de rômulo, você tá muito confuso. sentado na mesa, olhar perdido, perguntou pro garçom a senha do wi-fi, ele disse que ia trazer, trouxe um drink hi-fi, tu nem gosta de fanta laranja. começa a resmungar com seu casal de amigos em voz alta, diz que quer voltar, arca com a despesa do táxi, arca com a despesa do bar, arca com a dívida externa de diversos países em desenvolvimento, só quer ir pra casa. na mesma mesa, desolada, gatinha amiga da amiga da amiga, também dano colateral da balada, pratica os mesmos resmungos, não tá nada feliz, a aparência é de tristeza e abandono. amiga senta entre vocês dois, já mais alta que uma pipa, falando engrolado porque enrolado é complicado de falar. diz que vocês tão perdendo a festa, fala que precisam aproveitar, abraça os dois, fala que são duas pessoas ótimas, que na verdade até combinam, ela queria juntar os dois, te chama de rômulo também, você começa a achar que tá tudo errado. amiga insiste, você levanta a cabeça, olha pra gatinha com aquele ar de “estou constrangido mas aí até aprovo esse esquema se você quiser eu tô beleza, aproveitar essa noite linda, que tals?” e vê nos olhos da gatinha uma negação e um terror abjeto nunca dantes vistos pelo homem, já que a warner não quis financiar aquela versão do del toro pras montanhas da loucura do lovecraft. paga a conta, paga o táxi, paga o parabéns, vai pra casa, liga o xbox, entra na live, conexão tá ruim, perde de sete a zero porque o time se move em slow motion, vai dormir. a fanta laranja do hi-fi ataca a tua gastrite durante a noite.

Continuar lendo

15 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal