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Mini-conto #16 – A nossa sexta última vez

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Da primeira vez ela foi embora por dois dias. Na sexta à noite ela disse que as coisas estavam indo rápido demais, que precisava pensar, mas que achava que a resposta era não. Me telefonou enquanto eu cochilava no sofá da minha mãe pra dizer que na verdade era um talvez, se eu ainda quisesse. Eu disse que queria.

Da segunda vez ela foi embora por quase uma semana. Disse que tinha sido um erro, que não queria assim. Não atendia o telefone, não descia na portaria. Apareceu na frente do meu trabalho e disse que a gente deveria beber um café, mas eu nunca bebi café. Falou que as vezes ela duvidava e eu disse que todo mundo duvida às vezes, o que era mentira, porque eu sempre tive certeza.

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Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico. Continuar lendo

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

arrested

Como todos nós sabemos, o processo de comunicação humana é sempre algo de tortuoso. Entonações mudam o sentido de frases, sensações são as vezes complicadas demais para descrever, palavras podem ter um valor simbólico absolutamente diverso entre duas pessoas diferentes. Às vezes não sabemos o que queremos dizer, às vezes não conseguimos entender o que os outros dizem, às vezes sabemos o que queremos dizer mas não podemos, às vezes começamos uma frase e a pessoa completa mas ela não completa o que nós queríamos dizer e então tentamos corrigir mas ela completa errado de novo e aí completamos a frase dela e então viramos o cão do porta-mala. Como eu disse, é um processo complicado.

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Mini-conto #12: As incríveis aventuras espaciais de Adam Strange no planeta Rann

De madrugada o telefone tocou e era alguém procurando Orlando. Depois disso não consegui mais dormir direito, rolei na cama, tomei três copos d’água. Quando finalmente peguei no sono o despertador tocou, fui tentar caminhar em direção ao banheiro ainda de olhos fechados e bati com a cabeça na porta. Não achei meu chinelo, o aquecedor não funcionava, tomei banho frio. Tia da roupa não tinha vindo na véspera, vesti aquela calça jeans de quando eu estava gordo, coloquei a camisa que estava em cima da cadeira. Essa era a que eu tinha separado pra lavar na noite anterior porque tinha uma mancha de molho na manga. Só notei quando já estava dentro do metrô.

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3 grandes vitórias pessoais do ano de 2011

Ser pago pra escrever – Uma sensação que eu sempre imaginei que deve estar entre as melhores do mundo é a de ser pago pra fazer aquilo que você ama. Não aquilo que você suporta, não aquilo que você tolera, não aquilo que você faz pela grana, não aquilo que você acha que pode agüentar durante vários anos se beber bastante e for tentando se motivar com atividades paralelas e apostas pessoais como “vou levar pra reunião esse projeto visual que envolve gatos halterofilistas como imagem de fundo para os comunicados de reestruturação corporativa, só pra ver o que rola”. E depois de ter, durante esse ano, pego alguns frilas que me permitiram ser pago pra escrever em outros lugares basicamente o mesmo tipo de coisa que eu escrevo aqui, eu posso dizer sem medo que a sensação é ainda melhor do que eu esperava.   Continuar lendo

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXIII

Dentre todas as vantagens normalmente subestimadas de um relacionamento estável monogâmico, que vão desde ter com quem rachar aquele milk-shake enorme que você pediu por engano e nunca mais precisar entrar numa festa onde toque David Guetta, passando por finalmente saber o que responder quando aquela sua tia chata vem perguntar quando você vai arrumar uma namorada até ter com quem desabafar quando seu trabalho atinge o grau 19 de absurdo e você fica preso até o final da noite no escritório preparando um fluxograma para notas de falecimento, umas das principais é o fato de que um relacionamento te dá direito as pequenas coisas. Sim, elas, as pequenas coisas, os verdadeiros pontos de diferenciação entre um relacionamento e apenas uma série de ficadas constantes com a mesma menina. Mas vamos por partes. Continuar lendo

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5 status pós-termino de relacionamento

Amizade fraterna: E vocês terminaram. Não por conta de brigas, não por conta de problemas, não por conta de algum conflito impossível de solucionar, mas sim porque gradualmente os caminhos que antes se cruzavam viraram retas paralelas e vocês concluíram que, ao menos romanticamente, nunca mais iam se encontrar. Do tempo juntos ficou o carinho, ficou a intimidade, ficou uma certa sintonia e todo aquele conhecimento que um tinha sobre o outro. Você sabe que pode contar com ela quando fica chateado, ela sabe que pode contar com você quando fica triste, e vocês sabem que o amor que um dia sentiram não sumiu, apenas se transformou num sentimento bem menos físico e muito mais próximo da amizade. Ou ao menos é isso que vocês sempre explicam quando todo mundo vem dizer que é óbvio que vocês ainda tão transando e esse papinho de amizade e retas paralelas só pode ser sacanagem, na boa.

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXII

Eu nunca gostei muito de conviver com ex-namorados de atuais namoradas. Não, não que eu seja do tipo ciumento que nem gosta de ouvir uma garota falar de um ex ou se sente inseguro e passivo-agressivo sempre que assuntos do passado vem à tona – eu posso falar dos meus tempos de colégio militar durante horas mas isso não quer dizer que eu vá sair correndo pra comprar uma boina, por exemplo – e também não é o caso de eu ter qualquer problema com a idéia de uma namorada conviver ou ter uma amizade com um ex-namorado, desde que termos como “colorida”, “recaída”, “eu tinha bebido” ou “com esse cabelo novo ele tava parecendo você” não apareçam subitamente na discussão. Been there, done that, sei que não é bacana.

Na verdade o grande problema com os ex-namorados da sua namorada, e que gira num campo totalmente conceitual e quase nada pessoal, é o de que eles te lembram de um fato desagradável, nada animador e no qual você definitivamente não quer pensar quando está com alguém: o de que você provavelmente também vai ser um ex-namorado, mais cedo ou mais tarde.

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Mini-conto #7: “Era primavera, numa noite de lua cheia, e você vestia azul”

woody

Começou como uma brincadeira. Estavam na festa de aniversário dos avós dela e depois da sétima ou oitava vez que perguntaram como tinham se conhecido ele viu que não queria mais contar a história de como tinha atropelado o pug dela no parque. E pro primo dela disse que tinham se conhecido num show, ela estava caindo da grade, ia ser pisoteada pela multidão insana, e ele esticou a mão pra ajudar. Pra uma tia falou que tinham se encontrado na saída de uma livraria, ele carregava uns livros, ela segurou a porta, tomaram um café. Pra avó falou que era um segredo, nem a Lu sabia, mas eles tinham estudado no mesmo colégio, ele duas turmas acima, e sempre tinha sido apaixonado por ela, mas só agora tinha se declarado. Pra empregada falou que tinha sido pela internet, pro cara do churrasco disse que tinha sido uma amiga em comum. Pro tio Rubem falou que ela tinha ganho ele da ex-namorada, numa partida de pôquer, mas ele não se sentia objetificado porque era um homem moderno.

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5 sinopses para comédias românticas com finais tristes

sarah marshall

Rapaz feio e complexado conhece por acaso garota bonita durante a festa de um amigo e ela se mostra interessada por ele. Os dois vão se encontrando outras vezes, sempre de forma acidental e fortuita, mas o jovem continua incapaz de acreditar que uma garota tão fisicamente bonita e disputada por outros caras esteja real e sinceramente atraída por ele, opinião essa que encontra eco em seus amigos e familiares, que também acham que ali deve ter alguma coisa de errado. Por fim ele acaba se apaixonando e por conta dessa nascente relação se vê obrigado a passar por um complexo (e bem-humorado) processo de crescimento pessoal que o leva a entender que somos todos humanos, o amor acontece e ninguém está acima de ninguém. O auge do filme seria quando ele, informado por uma amiga em comum que a garota estaria se mudando para estudar artes cênicas em Chicago, finalmente toma coragem e a convida para jantar, se declarando com uma serenata em frente a janela do prédio em que ela mora. No jantar ela contaria que não, não estava afim dele, apenas se envolveu num esquema de pirâmide e precisava vender uma massa caseira de biscoito pra mais 5 pessoas, mas era dinheiro garantido, não tinha erro. Garoto compra massa e depois não consegue vender pra mais ninguém, porque essa coisas de pirâmide sempre dão errado no final.

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