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Problemas práticos do romantismo teórico – XXI

Uma coisa que eu ouço com bastante freqüência é que hoje em dia as pessoas terminam com muita facilidade. Ao que parece existe um consenso de que muita gente termina por qualquer motivo, que a galera não tem maturidade pra sobreviver aos solavancos de um relacionamento adulto e que grande parte de nós não passa de crianças mimadas que não conseguem aceitar a idéia de ser contrariadas e decidem que o melhor é cair fora. E ainda que eu realmente fique sempre impressionado com o ritmo frenético de início e término de relacionamento de várias pessoas e sempre me pergunte como alguém consegue, em apenas dois anos, ter três namoros, dois casamentos e quatro divórcios – ainda mais porque os números não batem, repare – eu sempre desconfiei que o “problema” não é que as pessoas sempre terminam por nada. É que elas algumas vezes começam por muito pouca coisa.

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3 linhas de pensamento para parar de pensar nela

Ela já está com alguém: Uma boa forma de tirar alguma coisa da cabeça é colocar algum tipo de forte e pesado entrave moral e prático a questão, e (ainda que isso não seja lá muito relevante pra algumas pessoas) saber (imaginar/supor) que ela tem um marido/parceiro/namorado/caso/ficante/peguete é sempre uma boa forma de impedir que sua cabeça continue trabalhando na questão. Afinal, se ela já está com alguém e não faz parte de nenhuma dessas religiões divertidonas em que todo mundo pode ter vários parceiros (eu vi aquele seriado Big Love e fiquei com isso na cabeça) ela está automaticamente off-limits e você deve deixar esse tipo de pensamento de lado. Fora que se ela usa o termo “peguete” pra descrever o cara com quem fica ela provavelmente não traria nada de positivo pra sua vida mesmo.

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Da arte de disfarçar sua euforia e preocupação durante eventos, telefonemas e encontros fortuitos (ou não)

Brick-3

“Alô, Celso, aqui é a Fabiana, tudo bem?”

(ela me ligou, ela me ligou, ela me ligou! uhu! ela me ligou, ela me ligou, ela me ligou! caralho, ela me ligou! porra, ela me ligou!”)

“Ah, oi. Tudo bem?”

“Tudo…você tá lembrado de mim, né?”

(claro que tô lembrado de você. na verdade eu não paro de pensar em você há uma semana e tenho rabiscado seu nome em bloquinhos no escritório e acho que balbuciado ele enquanto durmo. ah, e eu tentei te compor uma música e ficou uma bosta, mas não quero pensar nisso. eu lembro, putz, eu lembro. como eu ia te esquecer?)

“Tô sim, claro”

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Romantismo desperdiçado – Cartas

*Este texto foi escrito há muito, muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito distante. Se quiser ler com trilha sonora clique aqui.

Eu saí do meu emprego há algumas semanas e como acontece com todo mundo que muda subitamente pra uma rotina mais light eu passei a ter muito mais tempo livre do que antes, o que me estimulou a fazer coisas que eu não fazia normalmente, pra gastar o tempo. Daí a decisão impensável, sob qualquer aspecto, de decidir organizar meu armário e, pior ainda, juntar todas as cartas que a minha ex escreveu pra mim em quatro anos e meio de namoro.

É, eu sei, eu sei…Um cara solteiro da minha idade precisa ter uma forma melhor de gastar o tempo do que organizar cartas da ex-namorada e, caso ele não tenha, aí mesmo é que ele não deve nem tocar nesse tipo de coisa. Mas como eu digo, quem não tem Playstation se diverte com masoquismo emocional.

São muitas cartas. Muitas. Por sermos duas pessoas muito “literárias”, ela uma jornalista e autora de livros infantis e eu um…um…um “eu”, nós tínhamos uma certa necessidade patológica de colocar as coisas por escrito, como que pra manter um registro mais confiável de tudo, além de ajudar a disfarçar a nossa insegurança natural em relação ao outro. Não cheguei a contar todas, mas consegui encher algumas caixinhas e ainda tive que forçar pra que os pacotes fechassem.

Interessante é notar como as coisas foram evoluindo com o decorrer das cartas. Desde o começo, quando eram frases tímidas (“oi, tudo bem?”) até na fase mais madura do namoro, quando eram planos, projetos, promessas, num nível de cumplicidade e empolgação que eu sinceramente tenho até dificuldades pra aceitar que eu tenha chegado. (Cara, eu pensei em ficar noivo, eu pensei em casar, eu pensei em morar junto. Eu, que quero comprar um carro de kart pra não ter que andar junto com ninguém) Também é interessante notar como um namoro quer durou ¼ da minha vida e foi o único relacionamento “real” que eu já tive conseguiu virar bem menos do que amizade e só um pouco mais do que ser um “mero conhecido” (afinal, eu sou um “conhecido que deve ser ignorado”, o que, vai lá, é mais do que ser apenas um “conhecido”).

É aquela discussão clássica sobre o fato de que tudo termina, por mais que você se esforce pra manter e o porquê disso ter passado a me dar tanta preguiça de começar qualquer coisa. Afinal, a gente começa, se esforça, mantém e um dia tudo acaba, um dos dois termina e ninguém nem se fala direito mais (a não ser que vocês sejam britânicos…ou, sei lá, civilizados…), ou seja, é como um jogo de vídeo-game incrivelmente complexo em que você nunca consegue salvar as fases pelas quais já passou e sempre tem que recomeçar do zero. Não existe “memory card” emocional, acho.

Fiquei então sentado no quarto, pensando se seria mais saudável jogar fora as cartas (pensei numa pira alta, no meio da garagem, onde eu também queimaria, talvez, os CDs do Lionel Ritchie que a minha mãe tem, pra aproveitar o fogo) ou guardar, em respeito ao que aconteceu e a toda essa pequena grande história pessoal. Coloquei Wilco pra tocar e passei vinte minutos pensando nela, em tudo que tinha acontecido e em como eu tinha terminado com tudo. Olhei pras cartas de novo, reli algumas.

No final acabei optando pela saída mais emocional. Guardei as cartas no armário. Se ela um dia ficar muito rica eu posso conseguir alguma coisa fazendo chantagem, nunca se sabe.

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