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Novos adendos ao pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você está conversando com a garota e está tudo bem. O papo fluindo, você tentando manter aquela coisa tarantinesca do “hysterically funny, but not funny-looking” e obtendo aquele nível moderado de sucesso até que em um dado momento você diz uma besteira. Você sabe que é uma besteira porque assim que você falou começou a bater um arrependimento, ela deu uma piscada assustada e em algum lugar na sua cabeça um neurônio deu um soco em outro e começou a gritar algo como “porque eu só trabalho com imbecis? por que?! poooor queeeeee?!”.

Então você, na intenção de corrigir a má impressão, tenta dizer qualquer outra coisa. E consegue piorar a situação, levando aquele mesmo neurônio a dar cabeçadas na membrana aracnóide e praguejar contra “o pior emprego do mundo, maldição!”. Daí você resolve partir pra metalinguagem e brincar que não é sempre tão idiota assim, o que claramente dá a impressão de que sim, você é sempre idiota desse jeito. E daí em diante você vai basicamente passar a noite toda tentando se corrigir e piorando a sua situação, numa imensa e interminável escalada de constrangimento, até que seus neurônios apenas desistam de você e decidam trabalhar por contra própria numa fórmula para definir números primos.

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Arquivado em Desocupações, Mundo (Su)Real, situações limite, teorias, Vida Pessoal

Pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você está numa mesa de bar com seus amigos e ela está lá. Você sabe que quer ficar com ela, ela sabe que você quer ficar com ela, o resto da mesa sabe que você quer ficar com ela, o pessoal da mesa do lado sabe que você quer ficar com ela e você desconfia que o rabino que mora no prédio ao lado do seu sabe também, mas não quer pensar em como ele descobriu. Você acha que está se saindo bem, sendo engraçadinho, simpático, tentando ser charmoso ainda que essa parte seja meio complicada quando você bebe muita cerveja e fica indo ao banheiro toda hora. Ela parece estar se divertindo, na verdade a coisa está divertida como um todo. Ela está sendo muito legal e você continua achando que ela é linda e só de ver ela sorrindo você fica meio bobo, mas está conseguindo disfarçar muito bem.

Você sente vontade de ir ao banheiro de novo e quando volta passa por aqueles 30 segundos de reajuste ao assunto da mesa, quando você não faz a mínima idéia do que está acontecendo e apenas capta trechos esparsos como “acho que deveriam se casar”, “o Raul não virou mendigo?” e “não, não, aquele é o ex-cunhado da Marcinha, a que morreu mas ainda mora no Cerâmica”. Você pensa em como voltar bem pra conversa e dizer alguma coisa que vá fazer com que ela fique impressionada, aquele retorno triunfal ao assunto, aquela frase que vai fazer ela decidir que você é um cara tão legal que a vida dela vai perder a graça se ela não ficar contigo ali mesmo, naquela hora, se possível antes que a cerveja esquente. E você respira, olha pra um dos seus amigos e diz:

“Ei, aquele cara ali não é a cara do Neil Patrick Harris?”

Em algum lugar da sua cabeça um dos seus neurônios respira fundo e diz pra si mesmo “éééééééé…”

Cena 2

Você se deixou levar pra uma festa em plena quarta-feira pensando que iria apenas tomar uma ou duas cervejas e voltaria pra casa antes das onze horas, mas já são duas da manhã e você está tomando doses de tequila como se fosse um lavrador mexicano que teve um dia muito ruim. Tudo se apaga e a única coisa que você lembra é de chegado em casa de taxi as quatro da manhã e ter passado a viagem inteira sentado ao lado de um anão, pra quem você explicou várias e várias vezes porque Hal Jordan nunca será o melhor Lanterna Verde. Você se arrasta até a cama, arma o despertador pras sete e tenta aproveitar o que pode te restar de sono, já pensando na ressaca que vem pela frente. Mas por incrível que pareça você acorda as sete se sentindo sensacional, espetacular! Não toma café direito, apenas um copo de água e vai pro trabalho pulando e cantarolando.

Chegando lá cumprimenta todo mundo, bate papo com o porteiro e se senta na sua mesa totalmente disposto. Antes da hora do almoço já acertou seis contratos, foi em duas reuniões e se livrou de toda a pilha de assuntos a tratar da sua mesa. Não sente lá muita fome e no almoço toma apenas um suco e come uma salada, e o seu dia corre muito bem até as duas horas da tarde, quando começa a bater uma dor de cabeça absurda e uma sede fora de controle. Você fica prostrado na sua mesa e subitamente nota que aquela não é a sua mesa. E não só aquela não é a sua mesa como aquele não é o seu andar. E você não trabalha com contratos. E você não tinha nenhuma reunião marcada para aquele dia. Na sua mesa tem uma plaquinha onde se lê “Aderbal” e a senhora da mesa ao lado está te olhando de uma forma assustada enquanto você pega uma pasta e descobre que estava prestes a autorizar em nome do Aderbal uma verba de patrocínio de dois mil reais pra um projeto de educação digital para lêmures em João Pessoa. Você não tinha superado a ressaca, você tinha é ido para o trabalho bêbado. Nesse momento você discretamente pega a sua pasta, se levanta e caminha em direção ao elevador.

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